09/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 09/12/2021 às 08h00min

Por uma outra globalização, a de todos

CLÁUDIO DI MAURO
No ano de 2000, foi publicada pela Editora Record a obra de Milton Santos, pouco tempo antes de seu óbito, Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência.
 
Na concepção do saudoso e estimado Professor, o geógrafo Milton Santos, a competitividade é ausência de compaixão. 
 
A competição tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em detrimento dos mais fracos.
 
Ela se alimenta na economia e despreza todos que pensam mais para além.
 
Para Milton a globalização gera a alienação na qual o que fascina o mundo é o consumo que estimula com privilégios o mundo da produção para consumo. 
 
Nesta forma de organização social o que domina é o economês da “financeirização” típico da perversidade. No dizer de Milton, o privilégio continua privilegiando o privilegiado.
 
Assim é que os poderosos da cidade continuam a reservar para si os melhores e maiores “nacos” dos territórios.
 
Nesta forma de organização social, algumas pessoas se sentem e se pensam superiores a outras. Com isso reservam para si as melhores partes dos territórios e apartam os setores sociais que desconsideram. Os pensamentos ficam atrelados a esses interesses. Mas, não há liberdade e muito menos democracia quando se convive com os desiguais e lhes são reservadas as piores partes da vida. Para existir democracia é preciso haver solidariedade, respeito e valorização das diversidades, não se pode estimular as desigualdades e os processos de competição.
 
Assim se justifica a poluição ambiental, os processos de “arenização” e quiçá desertificação. As contaminações das águas, dos solos, do ar com agrotóxicos caracterizam outro componente dessa concepção de mundo em que se privilegia os que possuem mais dinheiro, mais poder. E pior, os endinheirados se vangloriam dessa posição sócio-econômica. 
 
Não há como deixar de considerar a análise de Hegel, na qual os mais fracos, mais oprimidos ficam silenciados durante muito tempo. Mas por debaixo dessa ferida, aparentemente cicatrizada, se movimentam os micróbios, os vermes que em determinado momento farão o rompimento da casca que os recobre e a ferida das desigualdades sociais acabará por purgar. Segundo Theodor ADORNO, analisando Hegel, “...é em Hegel a chaga do próprio pensamento da identidade, uma chaga (vale dizer, uma ferida) que se abre e “explode o sistema”. Está óbvio que em algum momento o sistema estará prestes a explodir. 
 
No entendimento de Boaventura Souza Santos o que virá depois dessa estrutura vigente, dependerá da correlação de forças. Como e quando os setores populares estarão organizados e articulados para garantir sua hegemonia nos processos de libertação? Sim, o que está em jogo é a verdadeira libertação dos setores subalternizados. Quando as mentes mais articuladas no processo de libertação estarão construindo as bases dessa libertação?
 
Não é possível haver uma revolução social sem que haja a articulação sustentada em teoria revolucionária. Nem nos referimos à revolução com tiros e armas. A abordagem é da construção de condições objetivas e subjetivas dos processos. Isso não acontece espontaneamente, de maneira natural. Depende das consciências e das relações de poder estabelecidas nos territórios.
 
Nesta quadra dos tempos, estamos diante de condições objetivas contundentes. Os setores subalternizados estão em processo de tomada da consciência de situação de exclusão a que são submetidos no neofascismo, um formato do capitalismo. O capitalismo sempre se apresenta para produzir-se como excludente. A situação, no Brasil e em grande parte do mundo, provocada pela pandemia, mostrou o caráter concentrador e de banditismo que caracteriza as elites financeiras. Para tais elites de nada importa o sofrimento e a dor dos empobrecidos.
 
Estaremos em condições de dar voz e vez aos que são inspirados na leitura da produção intelectual de Milton Santos e de Hegel?
 
Os subalternizados estão comendo por debaixo da “cicatrização” da ferida do neofascismo? Haverá o estuporar da ferida com a rebeldia inerente desses processos?
 
E, essa realidade não se restringe ao Brasil, mas, está generalizada pelo mundo. A luta daqui poderá ter desdobramentos em muitas partes do Planeta. Até mesmo na potência imperialista, no Texas os sem casa ocupam ruas e colocam moradias com suas famílias sob viadutos e pontes. Triste realidade na maior economia capitalista do Planeta. O sofrimento humano não tem apoio e solidariedade das maiores fortunas, nos seus próprios países.
 
Caminhamos para ter o momento da libertação dos subalternizados diante dos grilhões da exploração das corporações e dos comportamentos imperialistas?
 
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
 
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