24/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 24/06/2021 às 08h00min

Sandálias

IVONE ASSIS
As sandálias, um dos calçados mais antigos, são, ao mesmo tempo, poesia e conforto para os pés. Sempre fizeram histórias na vida das pessoas, passando pela bíblia sagrada, compondo livros, tornando-se poesia e, claro, abrilhantando a vida da gente, seja embelezando nossos pés, seja propiciando metáforas que nos fazem refletir sobre nossas ações, e nosso viver...
 
Lembremos a história de Moisés, quando este quis ver a sarça ardente e foi exortado a despir seus pés, em sinal de respeito, pois pisava uma terra santa. Que ensinamento importante, a sandália que conforta e protege os pés é a mesma que leva sobre si todas as sujeiras, desse modo, seria um ato de amor e veneração que se pisasse descalço no lugar sagrado.
 
As sandálias teriam amor incondicional para com nossos pés – não fosse ela um objeto – uma vez que ela se põe em lugar deles, para protegê-los do pior. Ainda que isso lhe custe a vida.
O poeta Paulo Leminski, metaforicamente, atrela as sandálias e a natureza em seu haicai, em estilo ocidental: “duas folhas na sandália, / o outono / também quer andar”. São dezessete sílabas que trazem um kigô outonal, em que vemos as folhas do outono, caindo, esvoaçando-se e, como sandálias, querem andar.
 
Já “A sandália da humildade!”, do piauiense Andrade Lima, apresenta: “Quem pretende crescer jamais derruba / Quem está já subindo o patamar. / Faça a base no solo da humildade / E comece os tijolos levantar... [...] // Admiro quem sabe caminhar / E consegue ser simples e calçar... / Em seus pés a sandália da humildade!”. Além da beleza estética, artística, em seu poema, o poeta faz da sandália um nobre sentimento.
 
Por outro lado, em um dialogismo entre os espaços físico e geográfico, a escritora angolana Ana Paula Tavaves, em sua obra “O lago da Lua” (1999), oferece a cadência metafórica de seus versos em uma riqueza de conotações que agrupam o homem e a natureza, com seu cheiro e sabor, sua forma e caráter memoráveis, sazonal como estação seu amado chega, a seu tempo, com suas marcas... encanta e vai embora, deixando a impressão de abandono para o eu lírico, que é abandonada para trás, como se sandálias fosse.
 
As sandálias são o marco fronteiriço, entre a entrega e o abandono. O amado despe seus pés, em reverência à amada, para adentrar o quarto. “O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro / Marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto. / Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo. / Planta árvores de seiva e folhas. / Dorme sobre o cansaço / embalado pelo momento breve da esperança. / Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida. / Depois parte // Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.” (TAVARES, 1999, p. 19).
 
E quem nunca leu “Eu, etiqueta”, de Carlos Drummond de Andrade? Em que o mestre anuncia: “[...] Eu é que mimosamente pago / para anunciar, para vender / em bares festas praias pérgulas piscinas, / e bem à vista exibo esta etiqueta / global no corpo que desiste / de ser veste e sandália de uma essência / tão viva, independente, / que moda ou suborno algum a compromete”. O poeta, por meio da beleza poética e da ironia, vai denunciando a sociedade contemporânea e seus meios funcionais (e muitas vezes tolos) de viverem, em que o homem deslumbrado troca a essência pela frivolidade, que passa ligeiro, feito a moda.
 
A beleza poética dos pés é infindável e fonte inesgotável de inspiração. A escritora Raquel Ordones, em sua obra “Gotas de mim” (2017, p. 45), escreve, em um poema alexandrino e ordônico: “Em primeiro lugar, não sou tão baixa, / A caixa abaixo dos pés ia bem, / Também, sapato de salto me encaixa, / Na faixa em Minas diz: pequeno trem” [...]. A poetisa ilustra a medida das coisas como a medida do sapato, ou seja, cada qual tem seu espaço, e medida, e tempo, e estilo, e cultura... como se dissesse, o importante é que os pés encontrem suas sandálias.



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