17/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 17/06/2021 às 08h00min

Critérios para reduzir transmissão da COVID-19

Colaboração: Maria Juliana Moura Correa, Isabela Soares Santos, Heleno Rodrigues Corra Filho com ajustes propostos por Cláudio Di Mauro

CLÁUDIO DI MAURO
A pandemia causada pelo agente etiológico SARS-CoV-2 se apresenta como um dos maiores desafios sanitários e socioeconômicos deste século. O agente causador da Covid-19, um novo tipo de coronavírus foi reconhecido como causador da síndrome respiratória aguda grave, altamente infecciosa e transmissível, mais facilmente disseminada pela exposição no ar pela presença do vírus em gotículas minúsculas (aerossóis) que podem permanecer suspensas no ar por algum tempo e pelo contato direto com o vírus em indivíduos infectados.
 
Para que se tenha sucesso no enfrentamento desta pandemia há necessidade de diminuir a transmissão na população, o que torna insuficiente o controle pela perspectiva individual. A prevenção à exposição deve adotar o distanciamento físico entre as pessoas, evitando-se aglomerações, uso de máscaras e a vacinação como a estratégias coletivas que demonstram sucesso para diminuir os percentuais de transmissão da doença.
 
Diante do enorme desafio de enfrentar a pandemia com a escassez de vacinas para imunizar grande parte da população brasileira e com isso se obter ou se aproximar da tão desejada imunidade coletiva, capaz de diminuir a velocidade da geração de novas variantes do vírus, é imprescindível a avaliação do impacto dos critérios de vacinação adotados para os devidos aprimoramentos.
 
São importantes os critérios de portadores de comorbidades e faixa etária para priorizar a vacinação para evitar o colapso da oferta de saúde realizada em ambiente hospitalar disponível para tratar os já contaminados (recursos humanos, UTI, internações, equipamentos e medicamentos). Entretanto, tais critérios não são suficientes para controlar a pandemia de Covid-19 pela diminuição da transmissão do agente SARS-CoV-2. É indispensável a implantação de um plano imediato para vacinar as pessoas mais expostas ao risco de se contaminarem e que são as mesmas que formam cadeia de transmissão.
 
Assim, considerando:
- a alta disseminação do novo coronavírus no Brasil,
- a gravidade e letalidade da Covid-19,
- as sequelas causadas pela Covid-19, que geram sofrimento às pessoas afetando suas condições de saúde, qualidade de vida e capacidade produtiva e de sobrevivência,
- o impacto das sequelas no sistema de saúde, tanto de custos presentes e futuros como de pressão para uso da oferta de profissionais e serviços do sistema,
- que as estratégias predominantes no país não têm sido suficientes com base no conhecimento científico, sobretudo da epidemiologia, ao contrário, estão sem a coordenação nacional necessária para o enfrentamento de tão grave crise, o que aumenta a importância da vacina;
- que há ausência de distribuição global de vacina de forma rápida, segura, sem discriminação geopolítica para mitigar a cadeia de transmissão do SARS-CoV-2,
- que é valioso o conhecimento da epidemiologia como ciência que estuda a distribuição e os determinantes dos problemas de saúde (e fenômenos e processos associados) em populações humanas de acordo com ALMEIDA-FILHO; ROUQUAYROL, a partir dos conceitos de exposição, risco, morbidade, letalidade, virulência e patogenicidade, para compreender e estimar a transmissão do SARS-CoV-2 nas populações e os processos da saúde e da doença no modelo de organização da sociedade brasileira,
- que o critério de caso clínico e seus fatores de risco são insuficientes para o controle epidêmico de doenças infecciosas cuja maioria dos casos é assintomática,
- que a aplicação dos conceitos de exposição e risco em epidemiologia é mais adequada para populações por proporcionar abordagem coletiva. A exposição não representa uma situação pontual, mas uma experiência continuada com variações de intensidade, frequência e duração ao longo do tempo. O risco é a probabilidade de um membro de uma população específica desenvolver a Covid-19 num período, diante da magnitude da exposição ao coronavírus,
- que o impacto necessário para o controle da transmissão populacional, e a sua atualização por parte da OMS de que há evidências emergentes de transmissão pelo ar do novo coronavírus demonstrando o impacto dos ambientes pela frequência da circulação das pessoas,
- que o ambiente do trabalho amplia o risco de contaminação pelo aumento dos contatos dos trabalhadores com diversas fontes de exposição e que é a cadeia de transmissão ao agente SARS-CoV-2,
- que há evidências científicas comprovando a maior exposição para os coletivos de trabalhadores e os territórios produtivos. Essas populações estão submetidas à exposição continuada pelo presenteísmo exacerbado ao risco, se constituem em população de maior risco de transmissão e letalidade ocupacional à COVID-19,
 
Concluímos que diante das evidências, para controlar a pandemia é necessário incorporar o conceito de exposição na formulação das estratégias de enfrentamento.
 
Sabemos que a população com maior exposição ao SARS-CoV-2, são os trabalhadores que ficaram impedidos de exercer a melhor medida preventiva efetiva – o distanciamento social – seja porque pertencem aos grupos ocupacionais considerados essenciais, seja porque são trabalhadores que precisaram ficar em atividade presencial para garantir a sobrevivência devido à ausência de políticas sociais que lhes aportem o suficiente para poderem se isolar.
 
Apesar de grupos de pesquisadores da área de Saúde do Trabalhador terem alertado que trabalhadores são população de risco, os critérios internacional e nacional, consideraram grupo de riscos apenas idosos e pessoas com comorbidades. Consequentemente, os planos de imunizações em geral seguiram esses critérios, incluindo apenas os profissionais de saúde e mais recentemente os trabalhadores da saúde e da educação.
 
A pressão econômica e política para o retorno das creches e escolas se contrapõe à ausência de vacinação de trabalhadores da educação em todas as idades e profissões. O mesmo ocorre para a grande maioria dos trabalhadores que estão em trabalho presencial.
 
Consequentemente critérios de idade e comorbidade são medidas importantes, mas plenamente insuficientes para diminuir a transmissão na população brasileira. Portanto, se a fonte de risco é o ambiente e contágio pessoa a pessoa, o critério mais adequado para esse tipo de risco é a avaliação de exposição coletiva.
Para mitigar a transmissão e disseminação coletiva do SARS-CoV-2, recomenda-se adotar imediatamente o critério de EXPOSIÇÃO que atinge coletivos das pessoas mais expostas, que são as populações vulnerabilizadas e os trabalhadores em trabalho presencial. Para eles e elas a vacinação deve ser prioritária considerando o critério de exposição ocupacional.
 
Será necessário associar a essa estratégia a identificação de territórios com maiores índices de infectados para que suas populações sejam priorizadas. Essa medida constituirá um planejamento de impacto populacional com maior potencial de minimizar a transmissão do que pelo critério de faixas etárias e, assim, avançar mais velozmente rumo à imunidade coletiva.
 
Diante do exposto, o Programa Nacional de Imunização, PNI, deve considerar o critério de exposição e risco, tendo os trabalhadores como a população focal para priorização da vacinação, transformando os conglomerados produtivos em áreas geográficas estratégicas para o trabalho formal e o informal, como enfrentamento potente para controlar a propagação da pandemia da COVID-19.


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