01/09/2020 às 08h30min - Atualizada em 01/09/2020 às 08h30min

Primavera entre os escombros

ENZO BANZO

Com licença, deixem que lhes apresente... um poeta. Ou ao menos dele algum fragmento, uma folha caída no chão, encontrada como sinal e sina, de boa palavra, de exata escrita: arrudA (que meu editor não corrija a inversão das maiúsculas, é como assina o poeta, em  contraperspectiva). O Poeta arrudA, assim chamado, é raro caso nesses nossos tempos sombrios e pragmáticos, de quem clama para si a poesia como ofício de diária lida. Poetas ainda existem? Deixo que ele responda: "indiferentes / às janelas / anti-ruídos / e a outros / artifícios / os pássaros / cantavam / sem medo / e os girassóis / seguiam seu / eixo / não por vingança / ou ironia / a primavera // é implacável".

Nada diz mais da escrita de um poeta do que seu próprio texto. Esse aqui citado é um dos 50 poemas contidos em "Fragmentos de uma canção impossível" (Editora Patuá, 2020), lançado por arrudA nessa quase primavera em que (não) esperamos pelas flores. Título que, aliás, não serve como placa de identificação precisa (afinal, estamos falando de poesia), sinalizando pistas de sua órbita, não como centro solar, mas em raios de estrelas dispersas que irradiam estilhaços de imagens e sons: "explodimos com / as estrelas / nos espalhamos / em milhares / (...) / explodimos com / as estrelas / dançamos // até mais tarde".

Sereno, de voz mansa, arrudA é poeta do silêncio, dos que quanto menos dizem, dizem mais. Seus versos curtos, movidos a cortes, sintetizam o enunciado entre um e outro profundo respiro, reverberam um infinito espectro de silêncio, de onde vieram, para onde nos levam. É esse o lugar dos fragmentos poéticos que compõem seu novo livro, o quinto que publica: "passei raspando por mim / agora há pouco // passei raspando e já era / outro".  Sua poética nos provoca a aguçar a percepção dos sentidos, tornando-nos capazes de ouvir estes silêncios em movimento: "escute / os murmúrios / destes rios / soterrados".

Se, para quem não o conhece, apresento um arrudA poeta do livro, devo dizer que o notei, a princípio, como voz oculta no mundo das canções. Ouvindo discos e em shows de alguns contemporâneos que muito admiro, às vezes uma letra despontava; bastava procurar e era batata, eram de arrudA as palavras: "onde mora o outono nos jornais de domingo?", cantavam em duo lírico Tatá Aeroplano e Bárbara Eugênia; "enterrei meu coração numa praça, tomara que nasça", pressagiava Gustavo Galo; "note, o que a gente nutre um dia desses repercute", era Peri Pane em seu projeto cancional junto de arrudA, o "Canções velhas para embrulhar peixes". Isso sem falar nas parcerias com a magnífica Alzira E, algumas gravadas por gente como Ney Matogrosso e Zélia Duncan.
Certa noite, arrudA pintou em casa (quando eu morava com Tatá e Felipe Antunes em São Paulo), e eu, meio fã, lhe dei meu livro, e por algum motivo (talvez por entrever algum parentesco poético), comentei sobre a poesia de minha mãe, Cleusa Bernardes, e ele me contou o que eu já deveria saber, que também é filho de uma escritora, e das grandes, Eunice Arruda, que publicou mais de dezena de livros de poemas a partir dos anos 1960. Senti, nessa ascendência poética, um certo tipo de irmandade. E, mineiro que sou, gosto de me lembrar da sugestão de Eunice cantada na voz de Peri: "quem sabe indo a Minas / há um céu farto de nuvens".

Agora que não podemos nos dar ao luxo de encontrar as amizades em nossas salas e cozinhas, arrudA nos visita com seus fragmentos de som e luz, alguns já compostos sob a sombra destes tempos que nos trancafiam: "diante dos escombros / aquilo que já não somos / nos olha com demasiado / espanto - ainda assim // nos reconhecemos". Penso em como sobreviver ao impossível dessas agruras, e arrudA, poeta desses que seguram a primavera entre os dentes, lança a faísca no breu: "tudo isso que não tenho / foi a poesia que me deu".


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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