20/08/2020 às 11h12min - Atualizada em 20/08/2020 às 11h12min

Fermento vencido

IVONE ASSIS
Não é de hoje que o livro desliza em corda bamba, no Brasil, em busca de leitores e programas de incentivo, a fim de evitar a queda no picadeiro sem rede de proteção. Até que neste mês o nosso ilustre ministro da Economia trouxe à ebulição a pitoresca frase: O livro é produto da elite. Essa piadinha de mau gosto, creio eu, deve-se ao anseio em se conseguir apoio sem questionamentos para a tributação do livro, quebrando a isenção garantida em lei.

Depois, em uma tentativa de amenizar o assombro, levantou-se a hipótese de que, com o aumento da arrecadação, o país poderá distribuir cestas básicas e livros didáticos à população carente. Em tradução livre, entendi dizer-se: “A nação não carece de conhecimento, mas, sim, de uma máquina pública que a domine”.

A parábola de resposta é simples: Onde há leite e mel em abundância não carece de remédios e doações. Ou seja, se o país ofertar empregos e conhecimento, cada qual terá liberdade e dinheiro para comprar seus produtos em livre escolha de marca e sabor, sem passar pela mendicância da cesta básica e da doação. Afinal, melhor que receber doação é ter condições de doar. Não uso aqui um discurso elitizado, não. Falo por minha experiência. Vim da periferia, sei o que é depender de doações de cesta básica, de livro didático, de caderno, de lápis, de borracha, de roupa, tudo... Até o dia em que aprendi a pescar.

Não há virtude em se doar o peixe, mas, sim, o anzol. Um país que queira alcançar o progresso e o desenvolvimento deve oferecer conhecimento, a fim de que a nação seja pensante e apresente questionamentos e soluções; que haja destaque na ciência; que os pais, em busca de evitar que sua prole viva os mesmos infortúnios que eles, não precisem morrer de exaustão, para que seus filhos estudem.

O país carece de programas de governo que bloqueiem a ignorância, que promovam o saber, a cultura, a educação e não o contrário. Precisamos de vacina contra a violência. Quando a cultura de um povo é forte, as comunidades fazem seus saberes valerem em benefício de todos. Estou a falar de hábitos culturais em que se ensina às gerações vindouras o valor da terra, da água, das plantas, dos bons hábitos alimentares, dos costumes, do humanismo... Estas são medidas básicas, porém capazes de esvaziar prisões e hospitais. E há milhões de receitas para isso, guardadas dentro dos livros, aguardando o leitor. O livro suplica por políticas públicas que viabilizem sua chegada às mãos da nação. Igualdade é propiciar condições de escolha disto ou daquilo, e não impor condições de sobrevivência: isto ou aquilo.

O filósofo Gilbert Keith Chesterton, em seu livro “O que há de errado com o mundo” (1910), orienta: “A única forma de falar do mal social é ir direto ao ideal social. Todos temos consciência da loucura nacional, mas o que é a sanidade nacional?”. Com este título indômito, o autor “conduz a um só lugar: errado é não solicitarmos o que é certo”.

A fome e a miséria sempre foram fraquezas utilizadas como moedas de troca pela classe de poder aquisitivo maior, consequentemente pelo governo. Agora, mais do que nunca, o golpe se fortalece na tributação proposta ao livro. Tributação esta que, se aprovada, incidirá diretamente sobre a venda da Bíblia, obra de maior consumo no mundo, sobre os livros didáticos, responsáveis por 47,5% do mercado livreiro no Brasil. Lembrando que o governo é o consumidor majoritário do livro didático, portanto, vai-se promovendo aí um círculo vicioso.

O altíssimo custo de produção e promoção do livro impõem sobre ele um preço elevado para a “mesa do brasileiro”, sobretudo ao contabilizar o preço do arroz, do feijão e do leite, produtos onerados em até 70% de fevereiro a agosto 2020, enquanto o salário mínimo, no mesmo período, sofreu um aumento de 0,57%, saltando de R$ 1.039 para R$ 1.045, condição esta que eleva o livro à categoria de elite.

Então, desculpe-me se a frase “livro é coisa da elite” soa-me, aos ouvidos, como bolo feito com fermento vencido.




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