23/07/2020 às 10h54min - Atualizada em 23/07/2020 às 10h54min

A fome

IVONE ASSIS
Nesta semana, no dia 202 de 2020, enquanto consultava a estatística mundial, deparei-me com o triste e alarmante quadro de 619.000 mortes por Covid-19, e no mesmo espaço de tempo 6.219.000 mortes por causa da fome. Um número dez vezes maior que a Covid. Como é possível que, em média, 30 mil pessoas morram de fome, todos os dias, no planeta?

Na “Declaração de Roma Sobre a Segurança Alimentar Mundial...”, de 1996, está escrito: “Comprometemo-nos a consagrar a nossa vontade política e o nosso compromisso comum e nacional, a fim de atingir uma segurança alimentar para todos e à realização de um esforço permanente para erradicar a fome em todos os países, com o objectivo imediato de reduzir, até metade do seu nível actual, o número de pessoas subalimentadas até, ao mais tardar, o ano 2015. Consideramos intolerável o facto que mais de 800 milhões de pessoas, a nível mundial [...], não tenham alimentos [...]".

O 2015 chegou e a fome também. Então, em 2015, a ONU propôs a Agenda 2030, cuja meta é erradicar a fome até 2030. Estamos em 2020, a estatística mundial da subnutrição é de 844 milhões de pessoas. Quase meio milhão de pessoas morreram até agora por problemas relacionados à água potável. Isto é: “Nada de novo no front”.

A guerra continua. E não é por falta de munição, porque a produção de alimentos aumenta a cada dia. No entanto, parece que, na mesma proporção, aumenta a falta de acesso a eles pela classe necessitada. A renda familiar dessas pessoas não acompanha os preços do mercado. O problema da fome vai se agigantando graças à falta de competência política, social e econômica (compreendendo aí a corrupção, os conflitos, o terrorismo e a pobreza).

Como erradicar a fome e a pobreza de um planeta com fome de poder e pobre de amor? A democracia deve avançar para o direito de igualdade de desenvolvimento e participação, cuja base está na Educação. Com Educação inibe-se o desperdício, amplia-se a possibilidade de renda, melhora a produção, abre-se caminhos para a distribuição, controla-se o êxodo rural, e assim vai se formando uma estrutura sustentável. Não se trata de igualdade, porque ser diferente faz parte da natureza humana, trata-se de democracia, de oportunidade para todos. É com emprego e educação que se combate a fome endêmica. No entanto, quase 70 milhões de crianças vão famintas para a escola, como poderão alimentar o saber, se não podem antes alimentar o estômago?

A matemática bate à porta. “É certo que só no caminho do traço é que se vai assim de ponto em ponto”, penso que esse poema de Cecília Meireles decifra bem o episódio.

O poeta cearense, de Alto Santo, Braúlio Bessa, em seu poema “Fome”, questiona: “Eu procurei entender / qual a receita da fome, / quais são seus ingredientes, / a origem do seu nome. // Entender também por que / falta tanto o “de comê”, [...] // Achei seus ingredientes / na origem da receita, / no egoísmo do homem, / na partilha que é malfeita. / E mexendo um caldeirão / eu vi a corrupção / cozinhando a tal da fome, / temperando com vaidade, / misturando com maldade / pro pobre que lhe consome. // [...] Fiz uma conta, ligeiro: // se juntar todo o dinheiro / dessa tal corrupção, / mata a fome em todo canto / e ainda sobra outro tanto / pra saúde e educação”.

A literatura e a arte não se calam. A fome emudece o homem, inibe a vida, rasga a dignidade. Contudo, mais que inspirar a literatura, a fotografia, a arte, os discursos... a fome precisa inspirar o homem e a política para que os olhos se abram e veja-se para além da janela.

É comum, em situações de fome, os adultos passarem a água, para deixar o alimento para os mais vulneráveis. Desde antes de Cristo a fome assola a Terra. A tecnologia trouxe a indústria, o chip, a roupa inteligente, carros com autonomia, inteligência artificial, impressão 3D, mas não trouxe humanidade, assim, de tudo isso, o que mais espanta e mata é a FOME.




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