02/07/2020 às 14h53min - Atualizada em 02/07/2020 às 14h53min

Do produtivismo e da meritocracia

CLÁUDIO DI MAURO*
A ideia de que o mundo deve se inspirar na meritocracia e no produtivismo, tem sido uma propaganda enganosa.

Pela meritocracia se entende que todas as pessoas são iguais, partem das mesmas condições, e graças aos seus próprios méritos consegue-se o sucesso na vida. Considera-se que as pessoas dependem exclusivamente de si mesmas para conseguir o sucesso, não dependendo das condições sociais, humanas, econômicas e ambientais nas quais são criadas e com as quais constroem seus convívios.

Não há, com a meritocracia, o reconhecimento de que algumas pessoas nascem em berços privilegiados, possuem lares equilibrados e boas escolas o que lhes favorece as bases necessárias para obtenção do sucesso em suas trajetórias. Não se reconhece que muitas pessoas são bloqueadas no processo de desenvolvimento de suas vidas, ficando impossibilitadas de competir com outras privilegiadas. Segundo a meritocracia, mesmo as pessoas que desde cedo precisam trabalhar para comer, são capazes de obter o sucesso na vida, nas mesmas condições que os afortunados. Não se reconhece a necessidade de equidade para que sejam justas as disputas na vida.

Assim é que na sociedade onde prevalece o capital, não há o reconhecimento de que as lutas diuturnas para muitas crianças, significa ter que vencer bravamente as diferenças e barreiras que as impedem de progredir.

É com a visão da meritocracia que muita gente acredita possuir as mesmas oportunidades para se tornar produtivas. Daí a visão produtivista.

Quanto mais alguém produz, publica e registra em seu Currículo Lattes valendo a quantificação, melhor serão suas chances do reconhecimento social, em função de “seus méritos”.

Esses conceitos criam tendências à manutenção da exploração de pessoas. A visão é de que cada um produz conforme seus méritos e suas capacidades inatas. Com isso, desenvolve-se uma tendência para estimular fraudes. Acontece com profissionais que não são autores de trabalhos, mas assinam com seus auxiliares ou orientandos, textos elaborados. Aparentemente foi o que aconteceu com o ex-ministro Sérgio Moro, ao assinar a publicação com uma jovem que veio a público confessar que copiou, plagiou, parte do material publicado. Moro, na ânsia de ter mais uma publicação com seu nome, para compor currículo, aceitou que seu nome fizesse parte como autor do texto plagiado. Moro afirma que não sabia da existência de plágio, mas seu principal erro foi aceitar que seu nome fosse incluído em algo que não teve participação na formulação.

De igual gravidade, identificam-se os acontecimentos no Ministério da Educação, desde que o governo foi assumido por Bolsonaro. Primeiro designou para ministro Ricardo Vélez Rodriguez, originário da Colômbia e que claramente não tinha vínculo com a Educação no Brasil. Vélez chegou a exigir que o Hino Nacional fosse executado nas escolas brasileiras e que em seguida fosse lido um texto concluindo com o “slogan” da campanha presidencial de Bolsonaro. Uma nítida demonstração de que ou não conhecia as leis brasileiras ou estava disposto a passar por cima de todas as normas e princípios da ética.

O governo Bolsonaro, no seu Ministério da Educação, não ficou nos absurdos do ex-ministro Vélez Rodrigues. Errou na sequência indicando Abrahan Weintraub para realizar tarefas sem preparo para executá-las. Uma pessoa grotesca, sem respeito às diferenças e à ciência. Um verdadeiro capataz de interesses estrangeiros, mas criador de impasses internacionais, até mesmo com parceiros comerciais do Brasil. Uma pessoa que cumpria funções de agredir as universidades e desrespeitar os esforços para construir uma Educação digna voltada a todas pessoas. No entendimento de sua “gestão”, a universidade deve ser destinada para os setores privilegiados da sociedade. Não conseguiu sucesso, mas trouxe muitos problemas para a Educação no Brasil.

Recentemente o escândalo se deu com a indicação de Carlos Decotelli para se constituir ministro da Educação. Decotelli, um fanfarrão “falador”, repleto de argumentos, sem consistência para justificar o injustificável. Não tem o doutorado que alegou ter concluído, e que por isso mesmo não poderia ter realizado o pós-doutorado que afirmou ter realizado na Alemanha. Foi acusado de plágio no mestrado. Enfim, uma atrapalhada após outra. Tudo isso em nome do produtivismo e da meritocracia para os quais o Governo Bolsonaro estimula, em conjunto com seus aficionados. Querem  um presente e um futuro de privilegiados e de interesses estapafúrdios representados por Ricardo Salles, no Meio Ambiente, Damares, nos Direitos das Mulheres e da Família, Ernesto Araujo, nas Relações Exteriores, General Heleno, General Pazzuello e demais militares completamente despreparados para exercer a liderança nos Serviços Públicos.  

Assim têm sido tratados os ministérios brasileiros, com especial atenção à destruição da Educação neste governo Bolsonaro. Tratamento com absoluta incompetência e desrespeito às qualificações já obtidas, por exemplo, pela Educação Brasileira no reconhecimento mundial.  Há uma nítida tentativa de jogar no lixo a Educação Brasileira de Paulo Freire, Milton Santos, Darcy Ribeiro, Anízio Teixeira, Florestan Fernandes, Maria Nilde Mascellani, Aziz Ab’Sáber, Demerval Salviani, apenas citando alguns exemplos, entre tantos outros que honraram e honram a História do Brasil.
 
*Participação de Jhenifer Gonçalves Duarte, discente do curso de Jornalismo da UFU



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