30/04/2020 às 10h47min - Atualizada em 30/04/2020 às 10h47min

Sérgio Moro e Bolsonaro são muito parecidos

CLÁUDIO DI MAURO*
Como afirmou a esposa de Moro, para ela, “Moro e Bolsonaro, vejo uma coisa só”. Vejamos algo sobre Sérgio Moro: em sua entrevista ao Roda Viva na TV Cultura, Sérgio Moro negou qualquer tipo de ingerência de Bolsonaro nas investigações. Agora mudou o discurso!

Incrível como Sérgio Fernando Moro teve a coragem de assumir comportamento e prática criminosos ao dizer que fez exigência para aceitar o cargo de Ministro da Justiça. Ninguém é obrigado a fazer confissão ou apresentar provas que o incriminem, mas Sérgio Moro desatento a isso fez afirmações que o complicam em muito. Pelo visto fez pelo menos duas exigências para abrir mãos da carreira de Juiz e assumir o Ministério da Justiça, afinal de contas, esse comportamento seria praticado por gente que tem dignidade?

1) Garantir uma pensão fixada para seus familiares tendo em vista que perderia 22 anos de contribuição previdenciária como Juiz Federal e isso seria cumprido por Bolsonaro, a partir do acordo estabelecido. Trata-se de uma exigência sem amparo legal e que ao aceitá-la tanto Sérgio Moro quanto Bolsonaro criaram um “dispositivo ilegal”, não existente na legislação brasileira. E agora, como ficará essa situação?;

2) O compromisso de Bolsonaro em nomeá-lo para ocupar cargo de Ministro no Supremo Tribunal Federal (STF). Esta exigência retornou quando ele propôs que continuaria no cargo até novembro, quando Bolsonaro o indicaria para a vaga referida. Trata-se de uma prática do “toma lá dá cá”. Sérgio Moro diz que Bolsonaro estaria mentindo sobre esses fatos. Afinal qual dos dois é o mentiroso ?

Outro tema intrigante da política palaciana é esclarecido pela deputada federal Zambelli, em sua troca de mensagens com Sérgio Moro. Ele declarou que o principal motivo da indicação de Valeixo para comandar a Polícia Federal era o fato dele não ter cumprido a ordem de soltura do Lula expedida pelo desembargador Favretto. Tratava-se de uma forma de pagamento pelo desrespeito ao determinado pela Justiça, mas que atendia aos anseios e acordos de Sérgio Moro. Isso não seria uma forma de controle sobre a Polícia Federal?

O ex-Ministro da Justiça Sérgio Moro pediu demissão de seu cargo afirmando que Bolsonaro, como presidente da República, quer controlar as ações da Polícia Federal.

Nas investigações da Polícia Federal, enquanto Sérgio Moro era juiz, também fez intervenções para dirigir inquéritos e apresentar acusações. Esse controle sobre os processos de responsabilidade do Ministério Público, caracterizou a atuação de Sérgio Moro junto aos procuradores da Lava Jato, especialmente para incriminar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As publicações da Vaza Jato são esclarecedoras sobre tais ingerências do juiz em relação aos procuradores. Tudo muito grave.

A exoneração de Valeixo como chefe da Polícia Federal, que estava sob a jurisdição de Sérgio Moro como Ministro da Justiça, segundo ele foi publicada sem sua assinatura, ou mais, como se ele tivesse decidido a demissão e encaminhado para publicação na Imprensa Oficial. Sérgio Moro diz que não assinou e nesse caso trata-se de uma gravíssima interferência do presidente da República na Polícia Federal e no Ministério da Justiça. Trata-se de crime que precisa ser investigado, apurado e seus autores devem ser severamente punidos.

Claro que há muitos mais fatos que deverão ser apurados sobre a participação de Sérgio Moro como juiz e como ministro da Justiça. Mas, denúncias sobre Bolsonaro não ficam a trás, são muito volumosas e robustas.

Vejamos algo sobre Jair Messias Bolsonaro: no discurso em que procurou se defender de acusações feitas por Sérgio Moro e também acusá-lo, Bolsonaro afirmou que conhecia Queiróz desde muitos anos e que se ele fez algo de errado deve ser punido. Se esqueceu que o Queiróz é acusado de administrar a “rachadinha” dentro do gabinete do filho de Bolsonaro e de transferir dinheiro para diversas pessoas entre as quais Michele Bolsonaro.

Daí Bolsonaro entende que a Polícia Federal deve lhe dar informações privilegiadas sobre as investigações que envolvem a milícia do Rio de Janeiro e o relacionamento com Queiróz, amigo de sua família, articulado simbioticamente com o escritório do crime? Ou seja, as investigações estão prestes a desaguar na própria família do presidente.

Interferir nas investigações da Polícia Federal também significa dificultar o entendimento de quem financiou os atos pedindo o fechamento do Congresso, do STF e instalação de golpe militar. Manifestações que estão em desacordo com a Constituição Federal e que devem ser severamente punidas. Afinal, Bolsonaro e sua família possuem ligações com aquelas manifestações? O entendimento de Bolsonaro é que a Polícia Federal deveria funcionar como uma segurança privada para defendê-lo e sua família, independente dos crimes praticados.

Fica nítido que o controle sobre a Polícia Federal tem o condão de impedir o avanço das investigações que tendem a desaguar no Palácio da Alvorada, no Palácio do Planalto, incluindo membros do governo e especialmente seus filhos.
Enfim, Bolsonaro entrega cargos e está negociando com o centrão para ter apoio e garantir sua permanência no governo. A velha política que ele fazia questão de dizer que não praticaria.

Trata-se do controle do Congresso Nacional no velho esquema do “toma lá dá cá”. Forma de fazer política mais torpe na história do Brasil. Bolsonaro está refém de Olavo de Carvalho, do centrão, e dos militares que controlam o Governo Federal. Ele e Moro, “vejo uma coisa só”.
 
Participação de Jhenifer Gonçalves Duarte, discente do curso de Jornalismo da UFU


O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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