31/03/2020 às 08h00min - Atualizada em 31/03/2020 às 08h00min

Aprender a só ser

ENZO BANZO
Sabe, Gil. É tanta coisa pra gente saber. Este forçado retiro nos leva a relativizar o tempo e o espaço, a nossa vulnerável existência, de cada um e da humanidade. Neste mundo grande em que Terra é pequena, um vírus pode se propagar mais rapidamente que a informação instantânea da rede. Estamos aqui, no exercício diário de uma assepsia necessária, lavando sem parar as mãos e qualquer coisa que venha de fora de casa. Sorte e privilégio de quem tem onde morar: o que foi sempre evidente, agora é ainda mais gritante. Alarmamo-nos a cada notícia, de nossa cidade, de cada continente, do Brasil. Não vou nem comentar sobre aquele senhor inominável, de atitudes insanas e assassinas diante da tal vil situação. 

Prefiro recorrer à sua luz e ao seu canto, caro Gil, para sobreviver e manter a sanidade em meio a esta inesperada reviravolta do planeta. Sabe aquele seu disco, "Gil Luminoso", em que você regravou algumas de suas canções, só com voz e violão, a gravação foi em 1999 e o lançamento em 2006, lembra? Pois é na filosofia poética deste álbum, tão íntimo e tão de dentro, que tenho me sustentado na busca de uma vibração positiva sobre o estar neste mundo que assusta, mas com o qual o qual temos que lidar. 

A abertura já carrega, no título, o primeiro lema: "Eu preciso aprender a só ser", contraponto a um samba-canção daqueles doloridos, "Eu preciso aprender a ser só". Solitude harmoniosa que se sobrepõe ao sofrimento da solidão. Saber estar consigo nunca foi tão importante, e, sem perder a consciência do risco, impõe-se permitir ao "coração dizer não quando a mente tenta nos levar pra casa do sofrer". Aprender a ser só e a só ser, o oposto da velocidade que até outro dia a nós se impunha, damos conta? Precisamos.

Segue o disco e me pergunto se é possível, neste momento, cantar algo como "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". Deixo que a canção soe adentro, e assim aceito. O bom é que a gente pergunta, e você, com as notas exatas e o mais delicado violão, nos responde. Foi o que senti na faixa seguinte, "Copo vazio" (que é sua e não do Chico como por muito tempo pensei): a dor ocupa a metade da verdade.

Lembro-me de quando eu era criança e te via na TV, meu velho Gil. Eu adorava aquele  "Punk da periferia" que você cantava, som anos 80, roupa extravagante. E também aquela dançante celebração da crença positiva: andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá. Ali estava um sujeito animado e expansivo, que se parece com a outra metade do copo do som joãogilbertiano deste álbum. A gente gosta de sair e dançar, mas quando é tempo. Por hora, só há uma metade do copo, e para enchê-lo é preciso parar. Parar com fé.

Continuo ouvindo o "Luminoso", e agora parece que você decidiu mesmo nos ensinar, passo a passo, a busca pela reflexão inevitável do isolamento: nos meus retiros espirituais, descubro certas coisas tão normais, como estar defronte de uma coisa e ficar horas a fio com ela. Exercício de introspecção e aceitação dos problemas: resolver tê-los é ter, resolver ignorá-los é ter. Deixo-me embalar pela calma dança dos sinais iniciais dessa canção. 

O tempo mudou, estimado Gil, os tempos mudaram. Não cabe mais aquela prepotência do ser humano que se achava infalível dominador deste planeta. Você, eu sei, já sabia. O tempo mudou para nós, mas continua Rei, como sempre foi. Tomo consciência de mim mesmo, tendo de aprender a só ser, evoco a outra metade do copo. Ao mesmo tempo, não me iludo: tudo agora mesmo pode estar por um segundo. Que a gente consiga sair dessa melhor do que entrou. E que nos ouça o "Tempo Rei": transformai as velhas formas do viver.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.











 
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