26/03/2020 às 08h00min - Atualizada em 26/03/2020 às 08h00min

Fio da vida

IVONE ASSIS
No compasso da vida, muitos se dizem deuses, porém a humanidade se descobriu incapaz, frágil. Alguns se detiveram pela doença, pelo medo, por precaução, por amor e por respeito à vida... mas, na soma dos números, como escreveu Mário Quintana, em seu “Caderno H”: “Os dançarinos do arame / Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos / equilibrando sobre este fio de vida... / Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de / segurança nos aparará?” (p. 147).
 
Pessoas foram apresentadas às pessoas da própria casa, pais descobriram que os filhos cresceram, filhos descobriram que os pais envelheceram... de um modo muito estranho, os núcleos familiares se redescobriram. De repente, adultos descobriram que têm medo do escuro. E, como engrenagem humana, a “célula sociedade” entendeu que sem harmonia em seus movimentos ninguém sobreviverá.
 
Toc-toc. Quem é? O tempo. Pode entrar.
 
Toc-toc. Quem é? A noção.     ???
 
Mário Quintana poetisa: “[...] a Saudade e a Esperança vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra na do Futuro. Quanto ao Presente — ah! — esse nunca está em casa. (p. 397)”. Mas, agora, de algum modo, por imposição do invisível, o presente se juntou ao saudoso passado e ao promissor futuro, e o trio monta campana em casa, em um medo terrível de que todos se transformem em passado, porém, num desejo enorme de que toda a situação se torne, simplesmente, passado. Por anos, a fio, o presente ficou sem espaço na vida humana, de repente, o próprio presente começou a implorar pelo futuro.
 
Outra vez amparo-me na literatura, para ilustrar meu pensamento. Recorro-me ao “vanguardista” Ferreira Gullar e ao hodierno Bosco de Lima, ambos com suas escritas “Não há vagas”.
 
Gullar iniciou-se vanguardista, contudo, rompeu com seu próprio idealismo, provocando a linguagem e, mais tarde, levou o colapso para dentro da própria ideia de vanguarda. Naquela transição nasceu uma nova produção literária, dentre elas, “Não há vagas”. Era 1963, uma inquietação social brotava ali, para nunca mais se calar. Em 2016, Bosco de Lima, implodindo com certa farsa social que se impregna nas paredes do tempo, não se deteve na ideia circular, então, publicou dois contos “Não há vagas”, em uma obra de Quatrocantos, questionou os Cantos I e III.
 
Tanto Gullar como Bosco de Lima, em seus diferentes tempos, sacudiram a poeira da palavra, provocando uma inquietação. Na mais profunda poética da existência, de um lado o poeta Gullar indignou-se: “O preço do feijão/ não cabe no poema. O preço/ do arroz/ não cabe no poema./ Não cabem no poema o gás/ a luz / o telefone/ a sonegação [...]”; do outro, o contista Lima, abre a ferida (p. 97): “No trem, encontro um amigo que me pergunta onde irei descer. Para variar, não sei”.
 
Em ambos os textos “não há vagas” para joaquins, marias, anas... De repente, narcisos voaram para além-mar e trouxeram a morte em sua bagagem. Abriu-se uma guerra temporal, passado, futuro e presente digladiam-se. O Ser está exposto a todas as mazelas. A vida não é um filme. Não há como regravar o episódio. O colapso social virou nada diante do colapso sobrevivência.
 
Charles Bukowski, em “Confissão”, escreve: “Esperando pela morte [...] // sinto muita pena de / minha mulher [...] // eu quero que ela / saiba / [...] que sempre tive medo de / dizer / [...] eu te amo”.
 
Octávio Paz, em “O arco e a lira” (1982, p. 16), ensina: “Há máquinas de rimar, mas não de poetizar”. Vamos imaginar a rima enquanto fortuna e poesia enquanto vida. O mundo sonâmbulo está a tatear em busca da descoberta daquilo que, de olhos fechados, lançou ao vento para ver se voava. Somos hospedeiros de nossas ações, e sonhos, e medos, e cegueiras... Em meio às indagações, não há culpados, a questão é que não há vagas para todos os quereres. Não há moradia para todos os sonhos, no compasso da vida.

*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 
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