05/12/2019 às 14h11min - Atualizada em 05/12/2019 às 14h11min

Tempos de dores, sofrimentos e resistências

CLÁUDIO DI MAURO*
Sem compreender os avanços promovidos pelos governos de centro-esquerda, as populações de países como o Brasil, Chile, Colômbia, Argentina, Bolívia e Equador, entre outros, foram impulsionadas a testar experiências mais à direita. No nosso caso os setores da direita usaram o golpe contra Dilma, acusando-a de ações que não representariam crime em outros governos, impediram que Lula assumisse o Ministério e depois, com julgamento expedito, em ritmo e tempo jamais visto, prenderam o ex-presidente para não permitir que fosse candidato a Presidente da República. Contudo, mais do que liberais, esses países levaram para seus governos as concepções neoliberais em condições neofascistas. Veja-se o enfrentamento das forças policialescas dos governos neoliberais contra as manifestações populares que assolam, por exemplo, Chile, Bolívia e Equador. E vejam-se as ameaças covardes de instituir a carnificina de um AI-5, vociferadas por representantes do governo brasileiro.

Nesses países, com destaque para o Brasil, o modelo econômico com Lula e Dilma na Presidência, retirou o Brasil do Mapa da Fome Mundial e elevou a possibilidade de sobrevivência e consumo das populações mais pobres. Em seguida, a partir do governo Temer, com o congelamento dos orçamentos por 20 anos e retirada de direitos, setores populares estão sendo devolvidos à condição de miserabilidade. Mesmo os setores intermediários da economia que se consideram consumidores e cidadãos, nos fazem lembrar do eminente e saudoso Professor Doutor Milton Santos ao dizer que há  consumidores “mais que perfeitos” e cidadãos imperfeitos, criticando o neoliberalismo.

Atualmente submetida aos governos neoliberais, a população mais pobre foi levada a não consumir sequer os produtos básicos para alimentação, sendo conduzida à miserabilidade. Basta se observar os preços do gás de cozinha, das carnes, dos combustíveis e a violência praticada pela “reforma da previdência” social.  E isso se espalha pela América do Sul, punindo principalmente as populações mais vulneráveis.

As reações populares nos países da América do Sul mostram a fermentação do grito de alerta demonstrando que os limites deste ciclo neoliberal está em processo rápido de esgotamento. A condução econômica que deveria ser o fundamento do neoliberalismo, só tem obtido sucesso para os endinheirados e setores financeiros. Para as populações empobrecidas o que resta é o sofrimento no dia a dia e não há possibilidade de oferecer vida digna. Os conceitos vigentes do capitalismo adotam medidas cada vez mais restritivas, tanto para o consumo quanto em relação às condições mais elementares de sobrevivência para os pobres e amplia direitos à opulência para os mais ricos, veja-se a publicação de setembro da revista FORBES, mostrando o crescimento da fortuna dos 204 bilionários do Brasil.

O Chile era apresentado como o modelo da América Latina no qual o neoliberalismo foi “bem sucedido”. Contudo, as restrições impostas aos direitos da população com participação ativa em sua formulação pelo Ministro Paulo Guedes estão jogando por terra o protótipo da “feliz” experiência neoliberal. O que se vê na realidade é mais um projeto de transferência de riquezas para os setores já enriquecidos, sacrificando ainda mais as populações empobrecidas, entre as quais os aposentados. O resultado mostra que a população chilena está contestando nas ruas, confrontando-se com essas práticas econômicas impostas por governo de matriz neoliberal. Os manifestantes sofrem as mais duras represálias, violências praticadas pelas forças armadas governamentais.

Embora os governos brasileiros que tiveram a liderança do Partido dos Trabalhadores tenham adotado diversas orientações neoliberais, contudo, a partir de 2016 o Brasil se aprofundou “tardiamente” na imposição do ciclo neoliberal, com contornos neofascistas, impondo um projeto retardado, vivenciado e em declínio abrupto nos países citados e em outros.

A partir de 2019 o modelo do governo Bolsonaro assumiu feição caricatural. Se elegeu com fake news, a exemplo de mamadeira de piroca, kit gay, Jesus na goiabeira, terra plana, mulheres sendo submetidas por seus “machos”, gays devendo voltar para o armário para não serem mortos, mulheres negras e pobres, jovens negros sendo assassinados e etc. Se essas realidades não fossem tão evidentes, trágicas e graves não haveria motivos para indignação.

O atual momento de nossa história retrata essa versão caricatural com articulação e execução planejadas. Certamente as ações atuais contam com ajuda externa ao Brasil para atender interesses internacionais, especialmente dos setores financeiros corporativos.

Vivemos a fase em que o neoliberalismo neofascista “aparenta” um pífio crescimento, mas que está se dirigindo para seu esgotamento. É claro que não se esgotará apenas por autodestruição como efeito das leis da natureza. Cabe aos democratas estimular tal realidade, contestando para o aceleramento do processo de esgarçamento do sistema.

É possível que tenhamos algum lapso de tempo vivendo sob essas trevas. Mas, no Brasil também há uma fermentação que em algum momento promoverá a reversão em favor da democracia. É tarefa dos tempos com firme dedicação para os agentes sociais.
Na visão do pesquisador egípcio Samir Amin há uma 'subdeterminação da história' ou seja, todo sistema social é histórico, teve um começo e terá um fim. Mas, a natureza do sistema que o sucederá não está determinada apenas pelas forças exteriores às decisões das sociedades. Se o projeto democrático for capaz de se antecipar diante desse ruir de estruturas sociais vigentes o que aparenta ser inevitável, poder-se-á buscar caminhos com justiça social e distribuição das riquezas.

Essa talvez seja a missão mais importante para as forças populares e para os intelectuais democratas: construção da resistência e fortalecimento da correlação de forças na busca da solidariedade para obtenção de vitórias.

Como serão as articulações e as ações dos setores democráticos para a reconstrução da confiança e da credibilidade da nação? Não se pode continuar com boas análises, mas sem definição do caminho a ser seguido.


*Texto com contribuições críticas da Profª Drª Maria Adélia de Souza e a participação de Jhenifer Gonçalves Duarte, discente do curso de Jornalismo da UFU.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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