28/11/2019 às 08h30min - Atualizada em 28/11/2019 às 08h30min

Coringa e o papel da mídia nas comunicações

CLÁUDIO DI MAURO | GEÓGRAFO DOCENTE NO IG/UFU

O que diz Giovanni Sartori, já falecido, pesquisador, cientista político liberal, positivista da Universidade de Roma a respeito das escolhas de programas assistidos pelos espectadores?  Em seu livro “Homo Videns – Televisão e Pós-Pensamento” (1977), o pesquisador considera que no cotidiano, nestes tempos do “homo videns”, é muito tênue a linha de separação do público para o privado e que os meios de comunicação em grande parte atende interesses corporativos empresariais.

Assim é que Sartori descreve como vê o condicionamento social efetuado por exemplo pela televisão, especialmente nos territórios onde prevalece o atraso cultural, para o qual ela é uma das mantenedoras. O autor considera que não são os espectadores que escolhem o que assistir na TV, por exemplo, mas que as emissoras “educam” as pessoas a escolherem tal ou qual programação.

Se apresentam algumas questões a exemplo: quais são os interesses que fazem parte deste jogo? Para onde nossos tempos empurram as pessoas e seus coletivos que vivem em situações de vulnerabilidades psicológicas, econômico-sociais, ambientais?
O cinema elucida alguns perigos que poderão estar sendo preparados nos tempos atuais. Não há dúvidas que as artes são indispensáveis como apoio para a compreensão da vida humana e do cotidiano.

O filme Coringa, dirigido e roteirizado por Todd Phillips, chegou às salas de cinema no dia  3 de outubro e, desde então, está conquistando uma legião de fãs ao redor do mundo. O filme, diferente das outras franquias de super-heróis já abordadas no cinema, tem como papel principal levar ao público uma reflexão acerca de problemas psicológicos, a importância da mídia como um meio de controle social e as desigualdades. As análises críticas feitas por especialistas mostram a história de pessoas que representam um certo estereótipo do sofrimento moderno.

O personagem principal, Arthur, sofre de sérios transtornos psicológicos, o que o torna alvo vulnerável para alguns e deixa a pessoa à margem da sociedade, transformada em um ser completamente esquecido. Arthur trabalha como palhaço em uma pequena empresa que presta serviços em hospitais, festas e em animações de rua. Além de trabalhar em troca de um mísero pagamento, o personagem ainda precisa lidar com a doença da própria mãe, que depende da quantia que ele leva para casa. 

O universo do curta metragem se passa em uma cidade fictícia dos anos 80, chamada Gotham. A cidade passa por um período complicado com a infestação de ratos, o que denuncia a podridão que o local vive e a negligência política, além de uma crise econômica que se configura, deixando toda a população em caos, à beira da miséria. Aproveitando da situação, de maneira oportunista, Thomas Wayne lança sua campanha para prefeito, O homem logo ganha o apoio dos meios de comunicação e de toda a elite da cidade, ao contrário da profissão exercida por Arthur, cuja vida vai se tornando pior a cada minuto!

Demitido do seu “emprego” cada vez mais depressivo, incapaz de estabelecer vínculos afetivos, Arthur tem o sonho de se tornar um grande comediante destruído pelo seu maior ídolo, o apresentador de televisão Murray Franklin. O personagem representa os cidadãos miseráveis que jamais conseguirão alcançar um padrão econômico imposto pela sociedade, gerando consequentemente indivíduos cada vez mais cheios de traumas, frustrações que os mantém instáveis psicologicamente.

Uma das falas mais marcantes do personagem de Thomas Wayne acontece quando o mesmo é questionando sobre as manifestações que estão acontecendo nas ruas e ele responde: “Aqueles de nós que conquistaram algo na vida sempre olharão para os que nada conquistaram e verão apenas palhaços”. Ou seja, setores da política e dos meios de comunicação veem a população como culpada pela própria pobreza, pelas greves, desemprego, indigência e violência que assolam a cidade. Arthur é o afloramento de sintomas do caos, da falta de assistência, da fome, da miséria, do abandono, da falta de respeito às diferenças identitárias. 

O filme toma um rumo radical e definitivo quando o personagem principal, ao ser humilhado por três jovens, revida com violência, assassinando os personagens. Como resposta à todo sofrimento vivenciado por Arthur, a população que está pressionada e sem vislumbrar perspectivas de futuro melhor, vê a morte dos três homens como uma motivação, transformando Coringa no símbolo de resistência para novos protestos e manifestações. O palhaço se torna então a representação do ódio das minorias -setores vulneráveis, contra a elite burguesa.

O protótipo dessa mídia conservadora, Thomas Wayne, ao estilo de muitos midiáticos atuais, no final da estória é morto pelo Coringa, durante uma entrevista ao vivo. Surgem indagações que poderão incidir na escolha das pessoas segregadas do convívio social e da paz psicossocial e essas pessoas sempre serão vistas como violentas pela grande mídia e pelos endinheirados:

- a opção escolhida é matar todos os que impedem os seres fragilizados e vulneráveis de usufruir a vida decentemente e dignamente ?

- a opção de matar os comunicadores que controlam os meios de comunicação e fazem com que as pessoas se omitam e acatem as decisões que interessam às corporações dos bilionários ?
 
Tais ameaças pairam e são possíveis de serem aplicadas quando se estabeleça uma convulsão social! As elites econômicas serão capazes de encontrar alternativas para controlar os ânimos sociais, evitando a evidente convulsão que se aproxima? Será pela ditadura das armas?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 

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