10/11/2019 às 15h00min - Atualizada em 10/11/2019 às 15h00min

Canais ideológicos

JOÃO BOSCO

Levanto-me no escuro. A cidade ainda dorme. Na mesa da sala, o smartphone. Parece até que me vê — hum, hum, hum — Não! Não vou ver mensagens. Resisto. Tenho gostos mais prosaicos. A pia está cheia de louças amanhecidas. Gosto de lavá-las, quando quero, naturalmente. Eu me encosto a pia, primeiro tiro o grosso das louças, depois as classifico por peças. Abro a torneira mansamente e deixo a agua encher o receptáculo das minhas mãos, sinto o frescor e em seguida borrifo as peças. Fecho a torneira e parto para o esfregar de bucha com sabão, num movimento leve, circular, relaxante e reflexivo. Lá fora, o dia clareia, o pé de manga dança a valsa dos ventos e os pássaros gorjeiam... Abro a torneira, dou pressão ao enxague. Alheio a tudo, num burburinho frenético a água que escorre pelo ralo, segue em dutos morro abaixo e por canais que fazem curvas e vai se juntar a outras águas até formarem um rio caudaloso, se não todo: meio poluído. Acho que o mesmo acontece com a cabeça de quem se deixa levar pela correnteza moral dos canais ideológicos.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 

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