01/08/2019 às 08h06min - Atualizada em 01/08/2019 às 08h06min

Democracia dilacerada

JOÃO BATISTA DOMINGUES FILHO

Bolsonarismo é a manifestação perfeita da visão de mundo perversa da cultura brasileira neopopulista de extrema-direita: é o novo conservadorismo vivenciado pelo Brasil, cuja lógica de guerra constante contra as instituições democráticas, com respostas fáceis a problemas complexos só faz aumentar os problemas estruturais socioeconômicos do país. O modus operandi do capitão-presidente é mequetrefe, mas funciona bem para seus dois únicos objetivos na Presidência: dilaceramento da democracia inscrita na Constituição Federal de 1988 e sua reeleição em 2022. Acumula contradições e conflitos entre conservadorismo bolsonarista e o liberalismo econômico em sua governança presidencial. Diuturnamente obtém sucessos contra o bom funcionamento das instituições democráticas e na captura recorrente de seu eleitorado baba-ovo, com agenda de costumes na ponta da língua.

Atores sociais relevantes no ecossistema político brasileiro sob a batuta do capitão-presidente vivem da esperança fútil: a possibilidade, para o bem do Brasil, de que a governação Bolsonaro gere externalidade positiva: equilíbrio entre conservadorismo dos costumes e liberalismo econômico. Democracia constitucional não resistirá por muito tempo à reorganização corporativa e autoritária que a Presidência Bolsonaro representa na prática governativa do Brasil. Instituições democráticas (Legislativo, Executivo e Judiciário) e Congresso Nacional são dilacerados, sistematicamente, por esse capitão-presidente que tudo o faz para tornar disfuncional o Estado em sua relação complexa com a sociedade civil brasileira. Capitão-presidente tem essa competência administrativa destrutiva, em tempo integral, da democracia no Brasil, avançando sempre com seu corporativismo autoritário, atendendo seus eleitores, empresários e mercado financeiro. O “resto” do Brasil que se exploda em desigualdade, violência e corrupção. Consensos democráticos e valores compartilhados pela maioria dos brasileiros são substituídos por governança autoritária com ameaças e retaliações para quem se arrisca a não se submeter aos caprichos desse capitão-presidente.
Agenda neoconservadora de extrema-direita no campo dos costumes e agenda liberal no plano econômico capturou apoio dos setores empresariais e mercado financeiro, apostadores de momento no sucesso dessa junção instável entre liberalismo econômico e ideário neopopulista de extrema-direita. A realidade brasileira composta da pluralidade de crenças e valores democráticos é excretada, insistentemente, pelo capitão-presidente, alegremente. Políticas públicas são desenhadas, intencionalmente, para produzirem desigualdades socioeconômicas, refugando o desenvolvimento virtuoso possível da interação entre mercado e pluralismo político, cultural, há pouco tempo atrás vivenciado pela maioria dos brasileiros, com liberdade individual no plano moral, com a imprensa e ciência funcionando plenamente para controle da gestão pública estatal.

Presidência Bolsonaro chafurda em êxtase: revisionismo sádico da tortura bárbara da ditadura militar; tem verdadeiro escárnio pelas pautas progressistas; deseja transformar índio em garimpeiro; não existe fome; minorias não têm direitos civis; ecologia é farsa; igualdade entre gêneros é coisa do capeta; e racismo é ilusão dos negros. Capitão-presidente mente sobre tudo isso e, sem vergonha alguma, confessa sua ignorância sobre o Brasil brasileiro em todos os sentidos. Bocarra presidencial, com língua presa e dentes tortos berra incivilizadamente contra: ciência, educação, imprensa e artes. Capitão-presidente objetiva impunimente: morte ao Inpe, ao Ibama, à Ancine e às federais.

No capitalismo com democracia as políticas públicas são resultantes das vontades públicas difusas, mal informadas e com paixões antidemocráticas: são produtos institucionais da democracia eleitoral e da CF/88. Crise econômica somada à crise de legitimação do sistema de representação partidária implodiu o presidencialismo de coalizão, parindo capitão-presidente. Manifestações populares pós-junho de 2013 originaram organizações não partidárias de apoio às candidaturas eleições 2018: Bancada Ativista, MBL, Vem pra Rua, Nós, Raps, Livres, Ocupa Política, Acredita, Agora, Renova, BR, Vote Nelas e Muitas, elegendo: 29 deputados estaduais, 27 federais, 04 senadores e um governador. São movimentos de renovação da participação política partidária, com a expectativa positiva de transformação criativa do ecossistema político partidário.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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