25/04/2019 às 09h04min - Atualizada em 25/04/2019 às 09h04min

Encrenca permanente

JOÃO BATISTA DOMINGUES FILHO | CIENTISTA POLÍTICO
Política do medo e do rancor elegeu o autocrata Jair Bolsonaro, resultante do antipetismo, lava-jatismo, antissistema, do voto nulo, do abstencionismo, do conservadorismo de costumes e do desejo de lei e ordem. Déspotas eleitos: Vladimir Putin na Rússia, Recep Tayyip Erdogan na Turquia, Nerendra Modi na Índia, Nicolás Maduro na Venezuela, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Benjamin Netanyahu em Israel, Matteo Salvini na Itália e Donald Trump nos EUA. Autocratas eleitos são projeções do destino de seus povos, cuja função é desinstitucionalizar a democracia liberal.

Capitão-presidente mimetizando Trump adota a democracia direta tuitada, cuja obediência cega às redes sociais cria em seus fiéis seguidores a certeza de participarem efetivamente da governança presidencial. Marcos Nobre (Piauí, Abril, p.33) constata: “a única forma de Bolsonaro se garantir no poder é mantendo ativamente em estado de colapso as instituições políticas do país, o mesmo estado de colapso que levou à sua eleição.” Nada muda sua governação: crise econômica criando sofrimentos sociais, queda de popularidade, mercado financeiro, indústria e movimentos sociais com suas reivindicações não são pressões suficientes para o capitão-presidente deixar de ser a fonte de encrencas permanentes para o Brasil.

Sistema político brasileiro colapsou em decorrência da corrupção sistêmica: não separação na gestão pública do que é interesse público e interesse privado. Disfuncionalidade acrescida da politização do judiciário: a justiça não é igual para todos. Brasil está dividido entre torcidas delirantes: não há convivência civilizada entre brasileiros. Daí se elegeu um déspota sobrevivente da facada que lhe rendeu muitos votos. Brasil vive à beira do abismo político, sem medo de ser feliz em sua beligerância permanente, com a “guerra de todos contra todos”, provida pelo competente capitão-presidente. PT, PSDB e MDB tornaram-se radioativos sem capacidade alguma de defenderem as instituições democráticas. Não se aproveita nada dos dezesseis anos de sucesso governativo para a maioria dos brasileiros nos governos FHC e Lula: ordem econômica e questões sociais, num período virtuoso da social-democracia brasileira. Sobraram os militares como esperança de governança democrática, na gestão Bolsonaro, para colocar ordem no caos Brasil: corrupção, degeneração do sistema político e crise econômica. Tudo isso é necessário para levar à reeleição do capitão-presidente. Ser a encrenca permanente faz com que a Presidência tenha método como loucura eleita governando o Brasil brasileiro. Poderá ter sucessos eleitorais em 2020 e 2022, mantendo seu padrão de governação em curso, como ocorreu em 2018, refugando os avanços da redução da desigualdade, consolidação de direitos civis, sociais e das liberdades individuais pós-1985.

A direita conservadora e liberal na economia, vencedora eleitoralmente com suas bandeiras dos costumes, reativa às mudanças sociais do mundo moderno contesta liberdades civis e direitos individuais com o clichê: “direitos humanos para humanos direitos”. Direita rude, folclórica e fundamentalista sempre beligerante contra todos que não rezem na cartilha: “Tradição, Família e Propriedade”, a TFP ultraconservadora fundada por Plínio Corrêa de Oliveira, em 1960. Antes: AIB – Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado; a União democrática Nacional – UDN de Carlos Lacerda e Gustavo Corção; a Aliança Renovadora Nacional – ARENA de Felinto Müller e dos generais presidentes da ditadura Artur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Mèdici. O janismo é fenômeno análogo ao bolsonarismo. Ainda temos o movimento evangélico reacionário ativo e politizado dos bispos e pastores com seus meios de comunicação de massa, substituindo os conservadores católicos. Advento das novas mídias e redes sociais indutoras dos comportamentos antipolíticos e antidemocráticos. Nosso passado recente do conservadorismo de direita, enraizado no Brasil desde sempre, faz do bolsonarismo mais uma onda de direita que renasce entre nós, com sustentação cultural, social, politicamente viável e competente para ser reeleita, crescendo nos Estados e Municípios. Esse capitão-presidente não surgiu por “combustão espontânea”.

Brasil, ainda, pode ficar muito pior em todos os sentidos, sem diminuir em nada o crescimento dessa direita conservadora em todas as instâncias da sociedade brasileira. A política do medo e do rancor nos coloca em sintonia fina com a era mundial dos déspotas eleitos.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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