28/03/2019 às 09h39min - Atualizada em 28/03/2019 às 09h39min

Privatização entravada

JOÃO BATISTA DOMINGUES FILHO | CIENTISTA POLÍTICO

Presidência Bolsonaro familiar, Paulo Guedes, Moro e militares são promotores de um governo fraco. Ímpeto liberalizante de sua plataforma fracassa, retirando do mercado a crença infundada de que o presidente Bolsonaro executaria facilmente uma agenda liberal em economia porque o Congresso estaria em suas mãos, obediente à agenda de reformas engatilhadas. Paulo Guedes superestimou sua capacidade de submeter Bolsonaro à sua agenda liberal. Presidência Bolsonaro e filhos, falando mal dos políticos eleitos, tinham certeza que o Congresso, bovinamente, aprovaria sem mais suas reformas. Tudo neste governo marca passo, sem avanço algum, dado a paralisia deste governo fantasia.

Balanço do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) relacionou 87 projetos em estudos. Caso se concretizem, resultarão em R$ 150 bilhões em investimentos: rodovia (R$ 6,4 bilhões); ferrovias (R$ 31 bilhões); energia elétrica (R$ 21,5 bilhões); concessões de aeroportos (R$ 3,5 bilhões); portos (R$ 3,1 bilhões). Potencial de investimentos de R$ 291,6 bilhões em cinco anos, segundo Itaú BBA. Ambições infundadas, dado que faltam soluções para questões fundamentais para a ocorrência desses investimentos: agências reguladoras, regras para licenciamento ambiental e clareza em relação à divisão de responsabilidades dentro do governo entre o Ministério de Infraestrutura, Secretarias de Desestatização, Secretaria do PPI e Empresa de Planejamento e Logística (EPL/Infraestrutura). Enfim: não se sabe de onde virão os investimentos.

É curioso constatar que enquanto o Brasil vive seu delírio de liberalização econômica, EUA, Europa e Ásia estão em sentido contrário. O governo alemão vai proteger setores importantes de aquisições e concorrência estrangeira: governo compra participações em empresas estratégias, evitando o capital estrangeiro. Brasil na contramão dos países desenvolvidos. Embraer é um dos maiores sucessos privados da indústria brasileira inovadora. Mesmo assim, Acionistas da Embraer aprovaram a operação de venda para a Boeing. Donald Trump com seu mantra “América em Primeiro Lugar” e o Brasil com seu “Sem Privatização Geral, Sem Desenvolvimento”. É cegueira ideológica da governação do Estado brasileiro. Do encontro com Trump, o Brasil saiu de mãos vazias, sem apresentação de pauta de prioridades do país, entregando seu status especial na Organização Mundial do Comércio (OMC) em troca de “ouro de tolo”: promessa de apoio dos EUA para ingresso do Brasil como membro da OCDE, num futuro que a Deus pertence. Comércio brasileiro perdeu. Brasil pagou caro por promessas vazias, entregando, gratuitamente, os poucos benefícios que usufrui do comércio internacional. Um terço dos mais de 160 membros da OMC são países em desenvolvimento, como México, Chile e Colômbia: países membros da OCDE. É o clube dos países ricos: renda salarial média dos 35 países que integram o bloco é de US$ 40 mil anuais. Brasil é de US$ 8 mil (Valor/Data). Paulo Guedes na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos animou os investidores dizendo que os brasileiros são um “povo pacato” e, como tal, toleraria, bovinamente, sua agenda econômica liberalizante. A sua reforma da Previdência vai tirar R$ 150 bilhões do mercado de consumo, segundo o Instituto Fiscal Independente do Senado. Alavancar a economia retirando recursos do consumo: brilhante economista liberal. Ibope mostrou que a popularidade do presidente Bolsonaro em queda gradativa, em linha com a perda de capacidade de compra dos brasileiros. Tudo bem para Paulo Guedes: o mercado proverá empregos e renda para todos, com diminuição da proteção social e desregulamentação do trabalho. Reforma trabalhista em dois anos não resultou em nada disso. Mas se “a farinha é pouca, meu pirão primeiro” é o lema dos militares com sua reforma trabalhista: sua “contribuição” à reforma da Previdência.

Sem investimentos internos para o crescimento da economia brasileira e privatizações entravadas, presidente Bolsonaro está feliz, em estado de graça, em seu conluio com Trump contra os interesses dos brasileiros. Governo de fantasia paralisado com Presidência Bolsonaro, criando frustrações para os brasileiros. Brasil tem potencial para entrar na OCDE por seu próprio desenvolvimento socioeconônico. Com toda legitimidade das urnas, Presidência Bolsonaro do “Brasil Acima de Tudo” trava as privatizações e degrada a Presidência com seus complexos de inferioridade e subserviência aos EUA e aos demais líderes autoritários e populistas.
               

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