14/03/2019 às 10h20min - Atualizada em 14/03/2019 às 10h20min

Medo

IVONE GOMES DE ASSIS
“A depressão é o mal do século...”, estávamos a falar, não da Grande Depressão do mercado financeiro, entre os séculos XIX e XX, mas, sim, do constante tema na área da saúde, que busca resgatar o ser humano do labirinto em que se encontra. Apesar dos estudos feitos, ainda “não há” uma efetividade na prevenção, nem na cura. Que situações poderiam levar a tal quadro clínico? Acúmulo de doenças? Arestas no convívio?

Observando casos, relatos, estudos, poemas, filmes... que abordam a temática, nota-se que estudiosos atribuem o tratamento à rapidez da identificação do problema, o que facilita a relação familiar e social do acometido. Seria isso o Efeito de Arco, de Hacking? A exposição midiática poderia ser elo entre causa e cura? Sem nivelar ou classificar ofícios, creio que o enfrentamento fortalece.

Kafka encarou seus medos por meio da escrita. Criou a figura do pai em um inseto bestial. Em 1919, escreveu, “Querido pai, tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente”.
Descobrir-se é trilhar nos caminhos do tratamento. Montanhas de livros (teóricos, biográficos, literários, infantis...) anseiam descrever a mente humana, mas não há receita pronta. Eu mesma escrevi “O medo do escuro” e, mais tarde, organizei uma coletânea internacional, na temática medo. Do meu pequeno propósito, abriu-se um mundo.

O medo é o grande algoz do homem. Então, falando do meu ponto de vista pessoal e literário, a criança, embora nasça a partir do ponto zero, logo é iniciada no processo de “herança dos pais”. Há um repasse de vivências, que formam o medo e a defesa, por meio do “Não. Senão”: “Não chore, senão vai ficar feia”. “Não mexa aí, senão vai apanhar”. Igualmente, um estranho enfrentamento vem entoado na canção de ninar: “Boi, boi, boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta”. Isso é tão maluco como assistir a filmes de terror para pegar no sono. Mais tarde, criança, adolescente, adulto, idoso, todos irão lidar com seus medos. Medo da avaliação escolar, medo de brigas em casa, medo do mercado de trabalho, medo dos próprios erros, medo da solidão... medos diversos e terríveis. E se não houver sucesso nos enfrentamentos, muito possivelmente desencadeará, aí, um quadro depressivo.

René Magritte, aos 13 anos, assistiu a mãe mergulhar em uma viagem sem volta, no Rio Sambre. Matheus Nachtergaele, aos 3 meses foi privado do convívio com a mãe, que preferiu se transformar em saudade. A mãe de Magritte, virou pintura, a de Nachtergaele, poemas ao som do violão, talvez de uma nota Sol, que virou “só”. O primeiro, desabafou em tela, o segundo, em teatro.

Muitos, na incessante busca do amanhã, conforme vão alcançando seus propósitos, vão também ampliando a bocarra do querer, em um ciclo vicioso, em que se tem tudo e não se alcança nada, exceto a solidão. A depressão é um mal, que vai sendo construído dia a dia, e desconstruí-lo leva tempo. Há que se cuidar para que não haja desistência do acometido, porque, havendo-a, vem o suicídio. A morte antecipada parece alívio para quem vai, mas é tiroteio de pregos para quem fica. Pois, este passa a viver os “por quês” sem respostas. Inicia-se uma bipolaridade de culpa e justificativa, processo muito doloroso para quem o experimenta.

Se misturo a dor da alma à dor da arte, faço-a no maior respeito possível. Creio que ambas se resvalam, porque nosso infinito está na mente, mas os níveis de serotonina variam conforme o entorno de cada um. Há quem careça de um empurrãozinho, há quem se sobressaia, mas todos somos passíveis de adoecer e de se curar. Entre crises e insights, cada ser vai se virando como pode, diante de seus fantasmas. Ora somos rascunhos, ora documentários; mas há instantes em que somos pura poesia, outros, somos medo.
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