14/03/2019 às 10h16min - Atualizada em 14/03/2019 às 10h16min

Presidência desnorteada

JOÃO BATISTA DOMINGUES FILHO | CIENTISTA POLÍTICO
Brasil tem 120 milhões de pessoas conectadas à internet. Presidente Jair Messias Bolsonaro tem 3,7 milhões de seguidores no Twitter. Bolsonaro chegou a tanto com a divulgação da “performance” do casal do bloco Blocu, amealhando 66 mil “curtidas” e 11 mil compartilhamentos. Em média, Bolsonaro tem 9 mil “curtidas” e 4 mil compartilhamentos em 500 postagens. Presidente sem dúvida: sua estratégia de campanha funciona para governar o país. A postagem de vídeo amealha convertidos mais radicalizados do bolsonarismo, mobilizados com a pauta moral e de costumes, num cenário de antilulismo e população cansada de corrupção e violência. Presidência deixa de lado problemas sem solução: 12 milhões de desempregados e PIB de 1,1% de 2018, igual ao de 2017. No padrão da obscenidade do bloco Blocu, Presidência vai queimando seu capital político necessário para aprovação de reformas prometidas para recolocar a economia de volta aos trilhos.

Esfera pública mediada pelas redes sociais corrói a popularidade do presidente, retirando legitimidade oriunda da opinião pública de carne e osso. Debates na “boca do povo” não se revelarão como adesão efetiva à sua governança presidencial. São desgastes desnecessários com custos altos para aprovação das reformas, cujas ações desnorteadas prolongarão as turbulências impeditivas da eficiente articulação política do Presidente com o Congresso, sem estratégia, organização e planejamento.

Presidente se submeteu, inutilmente, por dois anos ao psicanalista, fazendo psicanálise que não o colocou nos eixos para exercer a Presidência para todos os brasileiros, não só para os bolsonaristas radicalizados nas redes sociais. Presidente tem seu mantra reativo: sempre é “mal compreendido, para variar”. Tática ridícula: presidente solta insólito em sua “live” no Facebook e em seguida busca ser seu próprio tradutor ou transfere para os generais dizerem o que disse “de verdade” o presidente da República Federativa do Brasil. De Generais, a meros tradutores últimos do que disse a Presidência tresloucada nas redes sociais. Miscelânea caótica o Presidente falando com os brasileiros: atento a cada detalhe do cotidiano e com pregação aleatória da diminuição do Estado na vida do povo. Presidente está se provando desnorteado a cada falação no mundo virtual e real, sem projeto para a nação, em troca de 3,7 milhões de seguidores na rede social. Brasileiro é um povo singular: modos de ver, de viver, de pensar, de reagir, sem indignação construtiva para contrapor ao presidente das redes sociais. Brasil com Presidência em permanente déficit de legitimidade, com seu presidente desnorteado, premiando o rentismo do lucro fácil, sem participação social e democrática, enriquecendo alguns e empobrecendo muitos. Presidência com esse padrão de modus operandi coloca em risco no Brasil a reprodução capitalista do capital. É o Capitalismo sem capitalista, cangado na democracia sem instituições democráticas.

Brasil vive verdadeira tempestade perfeita: Presidência em guerra permanente com quem não mimetiza os pensamentos do presidente, existindo em meio à crise econômica com desigualdade social absurda e destruição do sistema partidário. Para piorar tudo: Presidência gerando por si guerras culturais para atrapalhar a execução das reformas estruturais do Estado. É a Presidência desnorteada em ação plena. Presidência comemorou o resultado primário positivo registrado pelo governo central: R$ 30,2 bilhões em janeiro passado, o que não muda nada nas contas públicas para iniciar crescimento da economia e investimentos. Em 12 meses, o resultado primário do governo central é negativo em mais de R$ 120 bilhões. Presidência feliz com o que é improdutivo: tuítes carnavalescos e declarações infelizes sobre as funções das Forças Armadas para a Democracia, ignorando o jogo de vida ou morte da economia brasileira envolta na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) enviada ao Congresso. Persiste deslumbrado com agenda presidencial: moral e costumes.

Incerteza global: EUA e China em guerra comercial; Brexit com Reino Unido tentando sair do bloco europeu; Venezuela com superpotências num drama bíblico; e Rússia com nova crise dos mísseis. Bancos centrais mundiais diminuindo estímulos anticíclicos. Incerteza global desaquece a economia brasileira, distante do pleno emprego. Fato irrefutável: as maiores ameaças à economia brasileira são endógenas: produzidas internamente por uma Presidência desnorteada.
              

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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