10/01/2019 às 08h49min - Atualizada em 10/01/2019 às 08h49min

Assombrações de Bolsonaro

JOÃO BATISTA DOMINGUES FILHO | CIENTISTA POLÍTICO
Sessenta e três mil pessoas foram assassinadas no Brasil em 2016. É o país mais assassino do mundo. O esfaqueado e da periferia ideológica brasileira foi eleito presidente do Brasil. Posição convincente em temas de segurança e combate à corrupção padrão Lava-Jato garantiram sua vitória. Colapso moral e político, em situação de declínio econômico, o fez conquistar os votos necessários para chegar à Presidência. Jair Messias Bolsonaro, nas mentes e corações de seus eleitores, vai construir o Brasil a partir das cinzas, pois não temos um Estado de direito democrático eficiente e eficaz para cumprir suas funções constitucionais. A guinada à direita da governação do Brasil decorreu da desigualdade, falta de confiança na política e na justiça. O populismo de Trump anima a festa dessa direita vitoriosa no Estado e na sociedade.

As “assombrações” que tiram o sono do Presidente Bolsonaro, ao juízo de Renato Lessa, filósofo, (Folha de S. Paulo, Ilustríssima, 6/1/2019,p.6), são definidas em termo do “Presidencialismo de Assombração”, empossado no Brasil, é composta de quatro núcleos (1) “Paradigma da Ponta da Praia (PPP): trata-se de alusão a lugar de ‘desova’ de cadáveres de opositores políticos à ditadura...O então candidato prometeu a seguidores enviar a esquerda ‘para a Ponta da Praia’”; (2) “o Paradigma do Horror à Mediação (PHM): exortação ao poder popular...celebração dos valores e dos instintos pré-políticos...elogio da autenticidade...livres da ação de mecanismos de contenção e a necessária identificação com um chefe”; (3) “o Paradigma Patriótico (PP): antiglobalismo...oposição moral entre o local/nacional e o global, pela qual os valores positivos encontram-se no primeiro par...a primazia do local: da família”; (4) “o PAM – Paradigma Antimodernista – pretende reinventar o país...desfazer os efeitos dos últimos 30 anos...de maior liberdade política e cultural vividos pelo país.” A prática de exorcismo dessas “Assombrações” (PPP, PHM, PP, PAM) é a manifestação crua e consistente da governança Bolsonaro, em curso inicial. Vendem, despudoradamente, um purismo ideológico, fazendo ideologia explícita, manquejando em teorias cambetas, denominada de “Presidencialismo de Assombração”, operando esse governo civil-militar. “Descapetamento” do Brasil promete a restauração da Família, Igreja, Escola, Estado e Pátria: é a “revolução restauradora”, como condição para vencer os “capetas-Chefes” no inferno Brasil: piratas privados, burocratas corruptos e criaturas do pântano político, nas pajelanças do Paulo Guedes. A maioria dos brasileiros frui esse espetáculo pirotécnico presidencial, com a certeza de que resultará em inclusão social e economia de mercado, decorrente do ciclo de crescimento sustentável, dado que a vitória sobre os demônios: rentistas, burocratas e políticos são “favas contadas”. Euforia patológica de que tudo é possível, em termos de que os problemas do Brasil de décadas ou séculos estão ao alcance das mãos dos “operadores do Presidencialismo de Assombração”. É a desconsideração do Brasil real, com estrutura fundiária do período colonial, convertidos em agronegócio, transmutados em “capitalistas modernos”, sem democratização da estrutura fundiária do país, criando essas elites junkers do bolsonarimo no Congresso.

Fábio Wandereley Reis Explica “os ingredientes populistas da política que temos vivido... (devem) ser vistos com fatalidade da democracia nas sociedades desiguais...concepção de populismo...algo inerente à operação da democracia em condição de desigualdade.” (Reis, F.W., Encruzilhadas da Democracia. Miguel, L.F. & Biroli, F. Porto Alegre: Zouk, 2017. P. 15-44). Sociedades desiguais, como o Brasil, estão condenadas à corrupção e populismo. Vivemos o capitalismo patrimonialista e financeirizado: frutos do crescimento concentrado nas mãos dos detentores das carteiras de títulos: direitos a apropriação da renda e da riqueza. Receita Federal diz que temos baixa carga de impostos sobre renda, lucro e ganhos de capital. Esses são impostos necessários para aumentar os recursos da receita fiscal. Brasileiros têm desemprego, crescente insegurança, precariedade trabalhista, exclusão social, pendurados na esperança cega no “Messias” Bolsonaro como a solução para seus sofrimentos. Besteiras ditas pela Presidência Bolsonaro são “Assombrações”, ainda. Dada Maravilha não fez seu gol e ao descrevê-lo, comunicou, talvez, como se dará o insucesso do Bolsonarismo: “Fiz que fui, não fui. Acabei não fondo.”



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