05/10/2021 às 14h43min - Atualizada em 05/10/2021 às 14h43min

Grupo investigado teria enviado 500 fuzis para facção no Complexo da Maré, aponta Polícia Federal em Uberlândia

Em coletiva, responsáveis pela operação também divulgaram que uma grande quantidade de cocaína estava sendo distribuída; membros da facção criminosa ostentavam crimes nas redes sociais

SÍLVIO AZEVEDO
Representantes da operação concederam coletiva de imprensa nesta terça-feira (5) | Foto: Sílvio Azevedo

Em coletiva realizada na Delegacia Regional da Polícia Federal em Uberlândia, foi divulgado um balanço parcial da Operação Balada, deflagrada nesta terça-feira (5), para desarticular uma organização criminosa especializada em tráfico de drogas e armas de grosso calibre, além de lavagem de dinheiro. Entre os investigados estão donos de postos de combustíveis, lojas de comércio de veículos, da construção civil e hotelaria. Conforme aponta a investigação, a facção enviava armas para o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Estiveram presentes na coletiva o superintendente Regional de Polícia Federal em Minas Gerais, Marcelo Sávio Rezende Vieira, o delegado Regional de Combate ao Crime Organizado, Rafael Caldeira, o delegado-chefe da Delegacia de PF em Uberlândia, Almir Clementino Soares, Renato Beni da Silva, supervisor do Grupo de Investigações Sensíveis da PF, e o agente Atila Afonso da Cunha, responsável pela investigação.

A operação, que segue sendo realizada ao longo do dia, conta com 850 policiais federais, divididos em 230 equipes, sendo 166 no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, mais especificamente em Uberlândia e Ituiutaba, além do apoio de 35 policiais penais. 

Em uma das maiores operações da Delegacia Regional da Polícia Federal em Uberlândia, estão sendo cumpridos 247 mandados de prisão, sendo 151 preventivas e 96 temporárias, e 249 de busca e apreensão em Uberlândia e outras cidades de Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Alagoas, Tocantins e Espírito Santo, determinados pelo juiz da 4ª Vara Criminal da Comarca de Uberlândia.

De acordo com o balanço parcial divulgado pela polícia, até às 12h, 101 equipes já retornaram para a Delegacia da Polícia Federal em Uberlândia, com 95 prisões efetivadas, 115 carros apreendidos, aproximadamente R$ 850 mil em espécie e cinco flagrantes lavrados por posse de armas e drogas, além do sequestro de bens e bloqueios de contas correntes. 

Entre os bens apreendidos estão ranchos localizados na Represa de Miranda e Cachoeira Dourada, além de nove lanchas e um número não calculado de motos aquáticas. Segundo informações da PF, o grupo movimentou cerca de R$ 2 bilhões nos últimos dois anos. Entre os investigados, estão donos de postos de combustíveis, lojas de comércio de veículos, da construção civil e hotelaria.

“Para se ter uma ideia do poderio econômico do grupo, foram sequestrados cerca de 100 imóveis de padrão ‘hollywoodiano’, para vocês verem o padrão das pessoas que utilizavam essa cadeia do tráfico para turbinar o patrimônio que já era grande. É um golpe duro nessa engrenagem de multiplicar o dinheiro através do narcotráfico”, contou o superintendente Marcelo Sávio.

De acordo com o delegado Renato Beni, que coordenou o trabalho de investigação, em março de 2020, chegou uma informação de que outra organização criminosa fazia o tráfico de armas, vindo de Ponta Porã (MS).

“Essas armas eram transportadas para Uberlândia e, posteriormente, distribuídas para outros estados. Constatamos que os destinos principais eram Uberlândia e o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, onde eram entregues a membros de uma facção criminosa. Em abril, aprendemos oito fuzis e 14 pistolas aqui em Uberlândia, que pertenciam a esse grupo investigado”.

O grupo contava com veículos preparados exclusivamente para o transporte das armas, que geralmente eram fuzis calibre 762 e pistolas 9 mm, e envolvia batedores, que vão na frente para informar sobre qualquer ação policial. Segundo o agente Átila, o grupo enviava remessas quinzenais de armas para o Rio de Janeiro.

“As viagens chegavam a ocorrer até duas vezes por mês. A estimativa, que fizemos por baixo, é que essa organização deve ter enviado, pelo menos, 500 fuzis para o Rio de Janeiro desde o conhecimento do tráfico de armas, transportadas da mesma maneira”.

COCAÍNA
Com o aprofundamento das investigações, descobriu-se uma conexão com outros grupos do tráfico de drogas, principalmente, cocaína, que era distribuída para cidades do Triângulo e nos estados de Goiás, Rondônia, Espírito Santo, Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Alagoas.

Ainda foi possível constatar outro esquema de desvio de produtos químicos, com a utilização de empresas devidamente cadastradas junto à Polícia Federal, para adquirir insumos e enviá-los para laboratórios de manipulação de cocaína, principalmente no Triângulo Mineiro.

“Para se ter uma ideia, em apenas sete meses, as organizações criminosas adquiriram no comércio formal quase quatro toneladas de insumos, entre a fenacetina, lidocaína e cafeína, utilizados na manipulação da cocaína, para o aumento de volume da droga. Com isso, eles conseguiriam manipular até 11 toneladas de cocaína”, explicou o delegado Renato Beni.

Entre os presos estão também os financiadores do esquema de tráfico de drogas. São empresários e profissionais liberais que teriam disponibilizado uma grande quantidade de dinheiro, geralmente em espécie, para que os traficantes fizessem grandes compras de entorpecentes.

“Empresários e profissionais liberais que dispõem de uma grande quantidade de dinheiro, um poderio econômico alto, deliberadamente forneciam esses valores para que os traficantes efetivassem a compra de drogas nos estados do Pará, Rondônia, Mato Grosso. Eles financiavam, o que é um crime mais grave que o próprio tráfico de drogas”, explicou o delegado Renato Beni.

Investigações mostraram ainda que muitos imóveis de traficantes estavam registrados em nome de empresários envolvidos no esquema.

A operação foi deflagrada com apoio da Polícia Penal da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Estado de Minas Gerais, que colaborou com um efetivo de 35 policiais penais para a custódia e transporte dos presos.  

“Foi um planejamento bem complexo com 230 equipes no Brasil inteiro. Começamos a planejar há quase dois meses. Contamos com o apoio de diversos estados, que mandaram efetivo para o Triângulo. São mais de 400 policiais que vieram de outros estados. Tivemos o apoio da Coordenação de Aviação Operacional (Caop) da PF, jatos estão pousando desde domingo trazendo efetivo e vão levá-los de volta. Outros, como os de São Paulo, vieram de viatura. Foi uma logística bem complexa”, contou o delegado Rafael Caldeira.

Ao longo do dia, a Polícia Federal deverá atualizar o balanço da operação Balada, que recebeu esse nome pois os investigados ostentam em redes sociais a organização de diversas festas de luxo, inclusive em outros países, realizando gastos elevados em tais eventos, com uso de iates e carros esportivos.

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