05/10/2021 às 18h43min - Atualizada em 05/10/2021 às 18h43min

Gestantes reclamam de atendimento na rede municipal de saúde

Município possui programa de apoio, mas mulheres relatam que atendimento é precário e não humanizado

LORENA BARBOSA
UAI Martins é a unidade referência para atendimento de urgência e emergência de gestantes | Foto: DIVULGAÇÃO
Cerca de 9.565 crianças nascem por ano em Uberlândia, segundo os dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos de 2019. A cidade conta com um programa municipal de apoio a gestantes chamado Mãe Uberlândia, que tem como objetivo oferecer uma série de ações que acolhem as mães desde o pré-natal até o pós-parto. Contudo, para muitas mulheres, esse programa não consegue cumprir com todos os objetivos traçados e muitas grávidas ficam desamparadas em um momento tão esperado.
 
A dona de casa Fernanda Mendonça é mãe da recém-nascida Sara. No dia 25 de outubro, ela sentiu um mal-estar e foi até a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Martins, unidade médica referência para atendimento de urgência e emergência de gestantes. Ela deu entrada com uma dilatação de cerca de 2 centímetros. Os médicos a mantiveram internada por algumas horas. Segundo ela, por mais que o atendimento da equipe tenha sido bom, o local não é nada adequado para gestantes.
 
“O lugar é muito quente, faz muito calor. As gestantes ficam num quartinho. Eu fui transferida para o Hospital Municipal e o parto foi normal, então foi muito sofrido. Eu senti muita dor”, contou Fernanda.
 
Mesmo com todas as dificuldades, Sara veio ao mundo com saúde. Mas, quem não teve a mesma sorte foi a maquiadora Caroline Finamor. Grávida de vinte e quatro semanas de gêmeas, ela perdeu as bebês por trombofilia há cerca de um ano. Ela contou que, mesmo com um histórico familiar complicado, os médicos não pediram exames no pré-natal que poderiam ter evitado a perda das bebês.
 
A maquiadora disse que em um dia, sentiu uma dor lombar e no quadril e percebeu que a barriga apresentava uma rigidez. Ela foi até a UAI Martins e realizou alguns exames e foi medicada, mas a situação só piorou. Ela pediu um encaminhamento para o Hospital Municipal, mas foi levada para o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU).
 
“Assim que eu cheguei no hospital eu fui atendida por quatro médicas. Depois dos exames elas me disseram que pelas bebês não poderiam fazer nada, apenas nas próximas gestações” relatou Carolina.

Ela contou ainda que foi tratada com muita frieza pela equipe médica e por alunos do Hospital de Clínicas. Mesmo com a companhia do marido, o casal disse não ter sido corretamente orientado sobre o que estava acontecendo, quais os procedimentos seriam realizados e os motivos de cada um deles. Horas depois, ela entrou em trabalho de parto induzido.

“Eu me senti um objeto de estudo. Algo que eles poderiam fazer o que quisessem. Hoje, cerca de um ano depois, eu sei que nada e nenhum lugar faria que minhas filhas sobrevivessem, mas no momento em que tudo aconteceu ninguém me deu o amparo necessário”, desabafou Caroline.
 
A conselheira municipal de saúde Tânia Lúcia dos Santos explicou que as gestantes fazem o pré-natal e são atendidas e acompanhadas nas unidades básicas. A partir do último mês de gestação elas são direcionadas para a UAI Martins. Por mais que no local não sejam realizados partos, em alguns casos, bebês já nasceram na unidade.
 
“Lá não é o lugar adequado para isso, não tem UTI neonatal. Já aconteceu de crianças nascerem enquanto as mães aguardavam por transferências, mas lá não é adequado para o trabalho de urgência e emergência”, destacou Tânia.
 
Outro problema é que homens não são autorizados a estar com as grávidas na unidade de saúde. Pela lei, a mulher em trabalho de parto deve estar em um lugar adequado e com quem ela escolheu para estar junto durante esse momento. Segundo a conselheira, seis mulheres morreram na cidade após problemas no parto em 2019.
 
“A gente precisa direcionar esse trabalho de urgência de gestantes para o Hospital Municipal. Porque caso aconteça algo e ela entre em trabalho de parto, ela está em um local adequado para que tudo aconteça, com segurança para a mãe e a criança”, afirma Tânia.
 
Para Tânia, é necessário que seja aberto um pronto socorro no Hospital Municipal para as gestantes. Além disso, é necessário a classificação e direcionamento adequado de grávidas de alto risco, a realização de exames específicos e a adoção de atendimento humanizado para que os partos sejam seguros e que as gestantes possam vivenciar um momento que é único na vida das mulheres.

“Eu e vários outros conselheiros entendemos que é preciso mudar o programa de atendimento às gestantes no município. É um sistema inseguro e que gera transtornos. As políticas públicas precisam se adequar às necessidades das gestantes e não elas se adequarem ao que é oferecido” finalizou Tânia.
 
O Diário de Uberlândia procurou a Prefeitura de Uberlândia e solicitou um posicionamento sobre a questão dos atendimentos de urgência e emergência serem passados para o Hospital Municipal, mas até o fechamento desta edição não houve retorno. A reportagem também procurou o HC-UFU e abriu espaço para que a unidade se posicionasse sobre a situação envolvendo Caroline, mas também não houve resposta.

*Matéria atualizada às 16h56 do dia 06/10/2021 para correção de informação.


 

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