24/08/2021 às 12h00min - Atualizada em 24/08/2021 às 12h00min

Mesmo com deliberação do MS, cadastro para vacinação de crianças e adolescentes com deficiência ainda não foi aberto em Uberlândia

Público é considerado grupo prioritário desde 30 de julho; pais e responsáveis cobram Estado e Município

LORENA BARBOSA
Gabriela Bernardes teme pela saúde do filho Gabriel que tem paralisia cerebral | ARQUIVO PESSOAL
Desde o dia 30 de julho, crianças e adolescentes com deficiência permanente e com comorbidades fazem parte do grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19 pelo Plano Nacional de Imunização. O Distrito Federal e cidades dos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul já começaram a imunização de jovens prioritários a partir de 12 anos. Na capital mineira, Belo Horizonte, o cadastro foi aberto desde a semana passada. Em Uberlândia, no entanto, nenhum movimento para a imunização desse grupo aconteceu ainda.
 
O Governo Federal incluiu o grupo de crianças e adolescentes com deficiências permanente na Lei 4.124, que trata do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação. Na época, o público foi incluído no grupo de prioritários da imunização junto às gestantes, puérpera e lactantes.
 
A assistente social, Gabriela Bernardes Batista, é mãe do Gabriel, de 17 anos, que tem paralisia cerebral. Ela até manteve o filho isolado em casa por mais de um ano para evitar que ele fosse infectado pela Covid-19, mas a falta de tratamento adequado trouxe alguns agravantes à saúde do Gabriel. A mãe, mesmo com medo devido a baixa imunidade do adolescente, precisou voltar com o acompanhamento presencial para a paralisia cerebral.
 
“Infelizmente ele adquiriu uma deformidade na coluna que ele não tinha. Sou mãe solo e ele é um rapaz de 17 anos, eu não consigo fazer os exercícios que são feitos na clínica. Ele perdeu muita massa muscular, antes ele conseguia ficar de pé com o meu apoio. Agora ele não tá conseguindo mais. Ele iria definhar em casa”, explicou a mãe.
 
Gabriela é uma das coordenadoras do movimento Empurro Essa Causa, de Uberlândia, e junto a outros pais enviou um ofício para a Prefeitura Municipal e ao vereador Raphael Leles, que é o presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Câmara Municipal, solicitando a vacinação para crianças e adolescente com deficiência, mas não obtiveram resposta.


 
“Nós protocolamos os ofícios para saber quando é que a Prefeitura vai começar a abrir cadastro, porque no site tem o link para cadastrar pessoas com deficiência e comorbidade. Então só tem que incluir o crianças e adolescentes”, explicou.
 
Quem também está preocupada é Zeiza Matildes da Silva. Ela é presidente da Associação Zeiza Dojo, do segmento dos autistas em Uberlândia, vice-presidente do Conselho Municipal  da Pessoa com Deficiência (Compod), e mãe do Flávio, de 14 anos, que tem autismo, epilepsia refratária, um pequeno déficit cognitivo e má formação neurológica. Ela explica que o risco de contaminação para as crianças autistas é bem mais alto.
 
“Como eles não tem filtro, eles não conseguem ter essa capacidade de entender que não pode pegar, não pode pôr dedo no olho, não pode pôr mão e objeto na boca. Então facilita o contágio de uma criança dessa.  E se ela estiver vacinada a gente vai ter uma segurança maior com relação a imunidade dela”.
 
Zeiza acredita que o problema seja o não encaminhamento de mais vacinas por parte do Estado ao Município. “É necessário que o Governo Estadual se sensibilize e encaminhe mais vacinas para Uberlândia para que essa classe de crianças e adolescentes com deficiências sejam vacinados. Elas já foram incluídas no Plano Nacional de Imunização, mas Uberlândia não tem a quantidade necessária de vacinas”, explicou Zeiza.
 
Enquanto o impasse não se resolve, mães e responsáveis de crianças com deficiência permanente e comorbidades seguem aflitos aguardando a vez em que o grupo seja imunizado para que possa, entre outras coisas, seguir com os tratamentos que garantem uma melhor qualidade de vida.
 
“A gente não quer vacina para passear, para viajar, nem para ir para barzinho. Nossa luta é pela saúde e qualidade de vida deles. A gente queria pedir para Uberlândia olhar com carinho para isso”, concluiu Gabriela Bernardes Batista.
 
POSICIONAMENTOS
Em nota, o Município informou que segue diretrizes do Ministério da Saúde e Secretaria de Estado de Saúde. Conforme nota técnica de 27 de julho, emitida em conjunto com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), ficou recomendado que uma vez já cumprida a distribuição de ao menos a dose única para os grupos prioritários e toda população adulta, serão incluídos no cronograma de vacinação adolescentes de 12 a 17 anos, com prioridade para aqueles com comorbidades.
 
O Diário de Uberlândia também entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde e solicitou um posicionamento sobre a situação. A reportagem contatou ainda o vereador Raphael Leles e pediu uma resposta sobre o ofício enviado pelo grupo de pais e responsáveis. Contudo, ambos não responderam até a publicação desta matéria.


Por sua vez, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que orienta aos municípios seguirem as diretrizes do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação (PNO) contra a Covid-19, do Ministério da Saúde. "O referido plano, atualmente, não recomenda vacinação para menores de 18 anos. De acordo com o 31º Informe Técnico do PNO,  após a conclusão do envio de doses para a população adulta, serão incluídos os adolescentes de 12 a 17 anos, com prioridade para aqueles com comorbidades", constou a nota enviada.

A SES-MG disse ainda que o Governo de Minas pretende vacinar todas as pessoas acima de 18 anos com pelo menos uma dose até a primeira quinzena de setembro, conforme a previsão de envio de imunizantes pelo Ministério da Saúde. Ressaltou também que a forma de operacionalizar a campanha de vacinação, bem como de traçar estratégias que contemplem as pessoas incluídas nos grupos prioritários, são de responsabilidade dos municípios, seguindo as recomendações do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação.

Também por meio de nota, o verador Raphael Leles disse que, no mês de junho solicitou a inclusão dos “pais, cuidadores e responsáveis” no grupo prioritário da vacinação. "O assunto foi tratado com o promotor de Justiça do Ministério Público Estadual, Fernando Martins. que inclusive expediu uma recomendação para que o município fizesse a inclusão no plano municipal de operacionalização de vacinação. No início do mês de agosto, solicitamos, também, a inclusão das crianças e jovens (12 a 17 anos) no grupo prioritário de vacinação tendo em vista que a ANVISA autorizou a aplicação da vacina da marca Pfizer para essa faixa etária. Até o presente momento não temos conhecimento do atendimento desses pedidos", afirmou o parlametar. 

*Matéria atualizada em 24/08/2021, às 13h50, para acrésimo de informações.



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