08/03/2021 às 12h16min - Atualizada em 08/03/2021 às 12h16min

Dia da Mulher: Diário traz relatos de profissionais da saúde em Uberlândia em meio à pandemia

Exaustão e conciliação da vida pessoal e profissional são desafios para mulheres que atuam na linha de frente contra a Covid-19

IGOR MARTINS
À espera de um bebê, Viviane Fernandes de Freitas Teles tem atuado durante a pandemia l Foto: Arquivo Pessoal

Encarar rotinas extenuantes, lidando com os obstáculos impostos pela pandemia da Covid-19. Atuar na linha de frente contra o vírus, com a incerteza do amanhã para si e para os pacientes. Se agarrar à fé e à ciência, com a esperança de dias melhores, buscando apoio nas amizades entre os corredores dos hospitais, pela impossibilidade de estar perto da família.

Comemorado em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, em 2021, chegou para reafirmar a importância das mulheres que atuam na linha de frente contra o coronavírus. Os desafios para as profissionais de saúde têm sido grandes, conciliando a vida profissional e a pessoal, além de passarem por um grande estresse psicológico decorrente do colapso no sistema de saúde em Uberlândia neste início de 2021, com o agravamento da pandemia.

“A situação para os profissionais de saúde está triste e exaustiva. É decepcionante ver como as pessoas não têm empatia umas com as outras, principalmente com nós, médicos e enfermeiros”. Este é o relato da técnica em enfermagem Lenízia Santos da Silva, que atua no combate à Covid-19 na rede privada desde o ano passado.

Em entrevista ao Diário, a profissional de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) falou sobre o colapso na saúde uberlandense, reflexo do aumento de casos do novo coronavírus na cidade. Ela conta que, em 11 anos de profissão, nunca imaginou que fosse passar pela situação atual, e que jamais havia visto tamanha quantidade de óbitos em sequência.

“Eu nunca imaginei que fosse ver tantos óbitos assim. É assustador. Eu estou acostumada a salvar vidas e ver as pessoas bem e recuperadas. Durante a pandemia, a sensação de impotência é gigante. Temos trabalhado pela fé e pedindo a Deus muita proteção. Estamos com o coração angustiado”, disse a profissional, de 31 anos.

A rotina depois do avanço do contágio em Uberlândia também precisou mudar. Com a apreensão de contaminar a família, Lenízia Da Silva disse que precisou levar o filho, de seis anos, para a casa de seu ex-marido, além de estar impossibilitada de ver o pai presencialmente. “Eu estou isolada em casa. Tem mais de 15 dias que não vejo meu filho. É uma apreensão muito grande”, afirmou.

Com as jornadas de trabalho exaustivas, a técnica em enfermagem fez um apelo à população e alertou sobre a superlotação nas redes pública e privada de saúde. “Estamos em guerra há 12 meses sem cessar e ninguém olha por nós. Os nossos soldados, os nossos médicos estão esgotados. Estamos muito cansados e estamos com medo de até quando isso vai durar. Será que a gente vai suportar a nossa missão? O colapso chegou, mas vai vir algo ainda mais difícil,” disse.
 
ESGOTAMENTO
Natália Rodrigues de Sá, médica especialista em terapia intensiva, passou a trabalhar cerca de 74 horas semanais dentro das UTIs com o agravamento da Covid-19 em Uberlândia. Segundo ela, o momento vivido tem prejudicado muito o estado emocional e físico dos médicos de todo o mundo.

“Estamos esgotados e há um estresse psicológico muito grande entre nós, principalmente agora, que muitos pacientes jovens estão sendo internados e evoluindo a óbito. A demanda está muito alta e tudo está muito complicado. Estamos sofrendo com falta de equipe e isso acaba sobrecarregando a gente”, detalhou.

Além disso, Natália de Sá contou sobre as dificuldades de conciliar a vida profissional e a vida pessoal. Mãe de uma menina de nove anos, a médica disse que a profissão toma muito de seu tempo, mas que sempre busca dar um jeito de trazer conforto à família. “É difícil conciliar casa, marido e filha. Minha família é a coisa mais importante na minha vida. A gente chega em casa muito cansado, mas quando vejo minha filha, a minha energia se renova”, falou a profissional.
 
ADAPTAÇÃO
Média cirurgiã vascular, Viviane Fernandes de Freitas Teles é preceptora e plantonista do serviço da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e tem atendido pacientes de urgência e emergência, seguindo todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Gestante, ela conta que a maneira de abordagem durante suas consultas e sua rotina foi drasticamente impactada pela Covid-19.

“Temos que tomar um cuidado no contato com os pacientes. Quando você está dentro de um hospital, onde o nível de contaminação pode ser maior, é preciso lidar com os pacientes como se eles estivessem contaminados. A mulher geralmente fica mais sensível e eu, como sou gestante, tive que tomar cuidados redobrados. A infecção pela Covid na gestação pode transcorrer em aborto prematuro, e com certeza você fica apreensiva e toma os cuidados”, afirmou Viviane Teles.

Ainda com relação à gestação, a médica, de 41 anos, afirmou que gostaria de passar por este momento junto de sua família, mas sabe que é preciso seguir respeitando as regras de distanciamento social. Segundo ela, uma “charreata”, um chá de bebê no formato drive-thru, foi organizada por seus parentes nos últimos dias.

“Eu sempre fui de reunir todo mundo em casa e eu queria que todos estivessem acompanhando de perto neste momento. A gestação toda foi baseada em enviar fotos e organizar chamadas por vídeo. Infelizmente, a pandemia afetou muito as nossas relações e isso gera um prejuízo emocional”, disse.




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