11/12/2020 às 08h26min - Atualizada em 11/12/2020 às 13h35min

Vereadores de Araguari são alvos do Gaeco em esquema de "fura-fila" na saúde pública

Foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão nesta sexta-feira (11), sendo dois deles em Uberlândia

CAROLINE ALEIXO E SÍLVIO AZEVEDO
Parte dos mandados foi cumprida na Câmara Municipal de Araguari | Foto:MPE/Divulgação
Treze vereadores de Araguari foram alvos da operação Fura-Fila, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Uberlândia em conjunto com a Promotoria de Justiça da comarca, na manhã desta sexta-feira (11). A ação apura um suposto esquema de favorecimento na fila de procedimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Segundo o Gaeco, os parlamentares estariam facilitando marcações de exames, consultas e procedimentos médicos eletivos de média e alta complexidade de pessoas indicadas por um grupo criminoso, sem respeitar a ordem cronológica de entrada de usuários do SUS.

"Nós temos uma regulação central que deve organizar os pacientes de acordo com o critério de entrada e pedido para que todos sejam atendidos na ordem certa, salvo critérios médicos que justifiquem a urgência no atendimento do paciente. O que pode acontecer é porque, por fatores políticos ou qualquer outra influência, a pessoa é atendida à frente de outra que estava na fila”, explicou o promotor de Justiça de Defesa da Saúde, Fernando Henrique Zordan. 

Foram ao todo 43 mandados de busca e apreensão, sendo dois deles cumpridos em Uberlândia, na casa da sogra de um dos vereadores e na residência de uma assistente social suspeita de integrar o esquema. Os locais não foram informados. 

Dos demais 41 endereços de Araguari, 13 correspondem a gabinetes de vereadores do município. Durante busca na casa de um assessor político, os policiais apreenderam diversos medicamentos que eram distribuídos ilegalmente à população. A reportagem do Diário apurou que o assessor chegava a prescrever medicamentos, mesmo sem qualquer habilitação para fazê-lo. 

A operação Fura-Fila contou com a participação de quatro promotores de Justiça, 115 policiais militares, dois policiais civis, dois servidores da Receita Estadual. 

De acordo com o promotor de Justiça e membro do Gaeco, Thiago Ferraz, as apreensões deverão resultar em novas investigações a fim de identificar a participação de servidores públicos, incluindo da Saúde, e investigar as empresas credenciadas para atender pelo SUS na cidade. 

 
“A partir do momento que um grupo de vereadores influencia na fila para dar prioridade para essas cirurgias e exames, em um município de 100 mil habitantes, pessoas que realmente precisam vão morrer. É um verdadeiro desmonte do SUS em Araguari”, comentou o promotor de Uberlândia.  


INVESTIGAÇÕES

As denúncias, inicialmente apuradas pela Polícia Civil, apontam que os parlamentares tinham cotas com a possibilidade de indicar até 10 cirurgias e exames, cujas indicações eram distribuídas entre familiares e eleitores. Durante o período eleitoral, houve candidatos à reeleição que chegavam a negociar os exames em troca de os eleitores adesivarem os veículos com a propaganda do vereador. 

Os policiais também cumpriram mandados na Secretaria Municipal de Saúde. De acordo com o Ministério Público, a rede municipal deveria fazer a atualização correta do software a fim de evitar fraudes na liberação dos procedimentos gratuitos, o que não ocorria. Por isso, está sendo investigado o crime de peculato eletrônico.

Foram apreendidos diversos HDs, celulares, documentos, guias de exames e prontuários médicos. Há informações de que foram apreendidas guias em branco, porém já com a assinatura de médicos, e outras que constavam ainda o nome do vereador que havia indicado aqueles determinados procedimentos via SUS.

Além do peculato eletrônico, os promotores apuram na primeira fase da operação os crimes de associação criminosa e corrupção. Além dos parlamentares, servidores públicos do Município de Araguari e do Legislativo também são suspeitos. Conforme apurado pelo Diário, os vereadores da Câmara de Araguari investigados são:
 
  • Ana Lúcia Prado
  • Cláudio Coelho
  • Douglas Tosta
  • Giuliano Tibá
  • Jander Patrocínio
  • Leonardo Mulata
  • Levi Siqueira
  • Luiz Construtor
  • Lucio Flavio “Quejeirinha”
  • Wanderlei Inácio “Mãe Preta” 
  • Warley Maravilha
  • Wellington Das Botinas
  • Wesley Lucas

A reportagem tentou contato com os alvos, mas somente Wanderlei Inácio, conhecido por Mãe Preta, conversou com o Diário afirmando não saber por qual motivo seu nome está envolvido. 
 
“Foram na minha casa e não acharam nada. Não sei porque vieram até mim, pois eu não devo nada. Quem deve não sai para pescar, e eu vou pescar todo fim de semana”. Questionado se a população vai ao seu gabinete solicitar pedidos de ajuda para furar filas em procedimentos e consultas, foi enfático ao negar. “Aqui não chega por que sabem que eu não faço isso”, afirmou Wanderlei. 

A assessoria do vereador Douglas Tosta afirmou que não poderia falar, pois no momento estavam cumprindo o mandado no gabinete naquele momento. Já uma servidora que trabalha com Flávio Quejeirinha disse que ele não estava no local e não poderia passar o contato pessoal. Os demais parlamentares não foram encontrados para comentar.

Questionada sobre os mandados cumpridos na sede da Secretaria Municipal de Saúde e sobre as denúncias iniciais que indicam envolvimento de servidores municipais no esquema, a assessoria da Prefeitura de Araguari informou que o único posicionamento no momento era de que os mandados foram cumpridos contra os 13 vereadores e o secretário Municipal de Saúde, Fabrízio Alves Martins, está afastado das funções em razão da Covid-19. 

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