02/12/2020 às 08h12min - Atualizada em 02/12/2020 às 08h12min

Minas completa 300 anos de história

Diário de Uberlândia traz reportagem sobre as mineiridades de uma terra reconhecida por suas riquezas naturais e culinária marcante

SÍLVIO AZEVEDO
Estado tem mais de 10 mil cachoeiras, o que fomenta ainda mais o ecoturismo local | Foto: Curupira Turismo de Aventura/Divulgação

Há 300 anos, no dia 2 de dezembro de 1720, o rei de Portugal, dom João V, criou a Capitania das Minas do Ouro, um grande território para a exploração de ouro e outras preciosidades, e deu o primeiro passo para a emancipação de Minas Gerais, que nesta quarta-feira (2) completa seus 300 anos.

Passados três séculos, Minas Gerais ainda é um dos estados mais importantes para o país, seja no aspecto econômico, político, social e cultural. Uma região que fica no coração do Brasil, rica pela sua potência agroindustrial, sendo o terceiro maior PIB do país em 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quando o assunto é mineiridade, vêm à mente diversos aspectos sociais dos moradores dessa rica terra. Cultura, arte, figuras importantes da política, turismo e culinária, que têm seus aspectos específicos na construção desta imagem mais “capiau”, do interior.

Porém, segundo o historiador Walderez Ramalho, que apresentou sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais com o tema “A historiografia da mineiridade: trajetórias e significados na história republicana do Brasil”, não é possível elencar uma única identidade que defina todos os mineiros, mas sim certos traços de sentido que foram incorporados historicamente no discurso da mineiridade. 

“Minas são muitas, com disse Guimarães Rosa. Você tem o Triângulo, que sofre influências de Goiás e São Paulo, o Norte, que tem influência da Bahia, região de Juiz de Fora, mais próxima do Rio de Janeiro, Sul, com São Paulo. Enfim, são várias Minas Gerais dentro de uma. Por esse fato sozinho já demonstra que qualquer tentativa de definir uma mineiridade única para todo mundo já está fadada ao fracasso”.

Para Walderez, a ideia do mineiro como uma pessoa ligada ao campo, calmo, tranquilo, desconfiado, tradicionalista, comedido e hospitaleiro, foram construídos, fundamentalmente nas primeiras décadas do século XX, com uma série de autores conservadores que escreveram ensaios de interpretação do Brasil e de Minas Gerais e que esses significados foram reforçados ao longo de muito tempo.

“Tem um texto da década de 1920 de um importante intelectual brasileiro chamado Oliveira Viana, chamado ‘Minas do homem e do pão’, em que ele caracteriza esse modo de ser mineiro baseado no campo, um ritmo mais lento da vida, ao contrário de centros mais cosmopolitas, como São Paulo e Rio de Janeiro. Por outro lado, tem outro autor importante na formação do discurso da mineiridade chamado Alceu Amoroso Lima, também conhecido pelo seu pseudônimo, Tristão de Ataíde, que no texto chamado ‘A voz de Minas’, da década de 1940, também reforça essa imagem e valoriza o modo de ser mineiro justamente por ele ser mais ligado ao campo, que preza pelo ritmo mais lento da vida e o apego à tradição”, destacou o historiador.

O conceito de mineiridade, com essa caracterização, segundo Walderez, pode-se observar a ideia constante no discurso da mineiridade de que os mineiros seriam, naturalmente, vocacionados para a política.

“Desde o segundo reinado, com o famoso Ministério da Conciliação, criado por D. Pedro II para pacificar o país, foi liderado por um político mineiro, isso em 1853, com Honório Hermeto Carneiro Leão, Marques do Paraná. Isso foi reforçado ao longo da história, desde a República Velha, com o chamado período café-com-leite, o fim da Era Vargas, que teve protagonismo de políticos mineiros, o famoso Manifesto dos Mineiros, que foi o gatilho para encerrar a ditadura do Estado Novo. Mas, também teve participação importante de Minas no Golpe de 1964 e também na redemocratização do país, se você pensar em figuras como Tancredo Neves e Itamar Franco. Nesse sentido, seriam relativamente constantes no discurso da mineiridade, é importante ressaltar isso, que todos os políticos mineiros compartilham desse significado e, mais ainda, se comportaram de acordo com essa imagem”.
 
ECOTURISMO
Localizada em uma região privilegiada, com diversas opções de lazer naturais, como rios, cachoeiras e balneários, Minas Gerais tem recebido cada vez mais visitantes que procuram, na natureza, uma forma de escapar da selva de pedra das grandes cidades. O estado possui mais de 10 mil cachoeiras, o que fomenta ainda mais o ecoturismo local.

Segundo o turismólogo Wesley Anastácio, havia uma a exploração turística maior nos rios, balneários, prainhas e cachoeiras do estado na década de 70, e nos anos 80 isso foi um pouco esquecido. Agora, nos anos 2000, o ecoturismo voltou muito forte. Nos últimos 10 anos, houve um crescimento ainda maior.

“Se pegarmos as cachoeiras do Triângulo Mineiro, em um raio de 120 km de Uberlândia, são 303 catalogadas no Instituto de Geografia da UFU. Em todo Estado, na região da Serra da Canastra, tivemos um boom no final da década de 1990, principalmente com o pessoal do motocross. Também houve um boom turístico na região de Capitólio no últimos seis, sete anos. Hoje, a cidade é uma das que mais recebe turista no estado. Melhorou muito a qualidade de hospedagem e restaurante para atender o turista. Na região Central, temos as serras do Cipó e do Rola Moça muito visitadas nos últimos anos, e outros parques que temos no estado”, afirmou.

Entre as regiões que oferecem atividades de ecoturismo, a mais recente é o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, que fica no Norte de Minas, na região de Januária e Itacarambi. “É um polo turístico que está recebendo investimentos. É uma região com índice de desenvolvimento humano muito baixo, mas que agora utiliza o turismo para se desenvolver”.

Ainda de acordo com Wesley, as cachoeiras de um modo geral trazem uma importância ecoturística muito grande para nosso estado, já que outras pessoas vêm de outras localidades, e que, em algumas opções, acaba envolvendo o turismo cultural. “Temos um circuito muito visitado, que é o da Estrada Real, que liga Diamantina até Parati (RJ), passando por cidades importantes, como Serro, Ouro Preto, Sabará, Mariana. É um misto de turismo cultural, histórico e ecoturismo”.
 
CULINÁRIA
Outra cultura marcante em Minas Gerais é a culinária. Bastante famosa por suas características, a comida mineira é representada pelo tropeiro, frango com quiabo e o mais famoso, o pão de queijo. Nas estradas da vida, se disser que gosta de pão de queijo vão perguntar se você é mineiro.

De acordo com a coordenadora do Projeto Primórdios da Cozinha Mineira, do Senac em Minas, Vani Pedrosa, a culinária mineira é herança de uma difusão de valores, utilizando temperos e formas de preparo herdadas dos nossos antepassados.

“Por sua situação geográfica, recebeu influências de várias regiões brasileiras quando era território de passagem. E no período colonial, de ocupação do sertão, quando foi encontrado o ouro, que trouxe consigo influências do entorno, além da influência africana, europeia e culturas que sabiam lidar com o metal, como os árabes, judeus, ciganos. Com eles, vieram os saberes da culinária e uma condição técnica para formação dessa cozinha com essa diversidade de ingredientes vindo de todos esses lugares”.

Com essas influências e técnicas que recebemos da ancestralidade do ouro, vindo dos religiosos, dos árabes, judeus, indígenas da terra, que mesclaram muito com o africano o seu componente cultural alimentar, a gente tem a cozinha mineira como uma forma única de fazer os seus pratos.

“O que nós temos de nosso é a nossa forma de fazer. Não nos importa saber se aquele prato é mineiro, é o jeito de fazer, é a identidade da alma do mineiro que é colocada naqueles pratos. Um exemplo é o pão de queijo. Ele é feito até na Colômbia, na Bahia, em todo lugar. Só que o pão de queijo mineiro é feito com queijo artesanal que só Minas conseguiu. Esse é o queijo que a gente não renuncia à nossa história, dos nossos ingredientes, da nossa forma de fazer”, diz Vani.

E os caminhos para se chegar a essa forma de produção vem de anos, antes mesmo do desembarque do império português em terras brasileiras. De acordo com Vani, começou com a chegadas dos moradores vindos da Bahia para o norte do estado, trazendo a cultura do boiadeiro, nordestina, dos alimentos da caatinga, as cactáceas que se comiam nessa região, verduras típicas desse tipo semiárido que temos no Norte. Além da forma de usar o peixe do Rio São Francisco, que também veio por esse caminho.

“Depois temos um segundo caminho, que é a Estrada Real, que vai de São Paulo para Minas. Esse caminho passava pela Serra da Mantiqueira, e a única forma de passar era no lombo de burro. Com isso, trouxe das colônias espanholas o burro, a prata, o porco, verduras portuguesas e o milho, principalmente”, disse.

 O terceiro caminho é um pouco mais tarde, a partir de 1808, com a chegada da família Real ao Rio de Janeiro. Foram 15 mil portugueses em uma cidade, até então pequena. “Esses portugueses tinham uma memória de uma comida do reino, e não de um lugar tropical. Então precisava de alguma coisa que parecesse com aquela comida. Por esse caminho foi vista a fertilidade de nossas terras e o clima semelhante ao de Portugal nas terras do Sul de Minas, na Serra da Mantiqueira, até Barbacena. Para ali, foi trazido o gado holandês, a técnica de fazer o queijo do reino e a plantação de frutas tropicais, também como a maçã, pêssego, pera e a uva”.

Ainda havia dois caminhos, um saindo do Espírito Santo até Minas Geais, com influência italiana, com o queijo parmesão, embutidos, formas de fazer linguiças mais diferenciadas. E a de Goiás, desenvolvendo condição técnica para a criação de gado.

“Cozinha mineira, que não é mais antiga, mas contemporânea, atende a baixa gastronomia dos bares, a típica e a alta gastronomia. O que sustenta é a técnica, é o modo de fazer e isso não é de mais ninguém. É de Minas Gerais”, finaliza Vani.


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