11/09/2020 às 12h56min - Atualizada em 11/09/2020 às 12h56min

Estudante processa mercado ao ser ofendido e confundido com assaltante em Uberlândia

Fato ocorreu no dia 30 de agosto no comércio do bairro Umuarama; segurança do local barrou e discriminou vítima pela cor da pele

BRUNA MERLIN

O estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Marcio Henrique Oliveira, está processando o Mercadinho Umuarama e o segurança do estabelecimento por prática de injúria racial. O rapaz foi confundido com um assaltante e ofendido pelos funcionários, além de ser impedido de sair do comércio.

 

O fato ocorreu no dia 30 de agosto por volta das 19h e a vítima da ação, de 22 anos, compartilhou o relato nas redes sociais, nesta quinta-feira (10), relatando a situação que viveu no estabelecimento localizado no bairro Umuarama. Veja o vídeo abaixo. 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação compartilhada por Jornal Diário de Uberlândia (@diariodeuberlandia) em

Ao Diário, o universitário contou que estava na casa de alguns amigos e foi ao mercado com o objetivo de comprar alguns itens para fazer um jantar. “Entrei no mercado e fui direto para o açougue pedir algumas coisas. Quando estava me direcionando para o caixa, o funcionário e o segurança me barraram e me puxaram para o canto. Eles começaram a falar ‘foi você que assaltou o mercado hoje de manhã’”, disse. 
 

Ainda de acordo com Marcio, ele tentou mostrar documentos aos funcionários e chegou a dizer que era estudante de Medicina, mas foi ofendido pelos funcionários devido à cor da sua pele. “Eles me falaram que eu não tinha cara de estudante de Medicina e começaram a gritar. Tive que me humilhar e mostrei até minha conta bancária para mostrar que eu não precisava roubar nada. Foi terrível”, complementou o estudante.

 

Foi Marcio quem acionou a Polícia Militar para tentar resolver a situação. As autoridades solicitaram a presença do proprietário do comércio que não estava no local e pediram para ver as gravações das câmeras de videomonitoramento. O estudante conta que os policiais tentaram abafar o caso de racismo e registraram o boletim de ocorrência com base nos relatos dos funcionários e não da vítima.

 

“Eu consegui ver as imagens das câmeras e a única semelhança com o assaltante é a cor de pele. Mas, no BO. eles disseram que eu me pareço com ele. Os policiais nem fizeram questão de me ouvir, somente tiraram foto dos meus documentos e me liberaram. Quando peguei o BO em mãos fiquei tão indignado com a forma que eles conduziram que decidi ir à Delegacia de Polícia Civil e fazer outro boletim”, relatou Marcio.

 

Em seguida, o estudante procurou o auxílio de um advogado para tomar as medidas cabíveis.
 

“Todos os dias sou olhado de forma diferente quando chego em um estabelecimento devido à minha cor, mas essa foi a primeira vez que fui barrado. Vivemos em um medo constante de ser abordado pela polícia e de apanhar na rua por causa da nossa cor. Não existe isso de dizer que a ação que sofri não foi por racismo”, finalizou ele. 


A reportagem procurou a PM para se manifestar sobre as críticas da vítima à conduta dos militares que registraram o primeiro boletim de ocorrência. Por meio de nota, a corporação informou ainda não foi informada oficialmente sobre este fato até o momento. “Contudo, se o solicitante desejar formalizar uma denúncia sobre o ocorrido, ele poder fazer através do site www.ouvidoriageral.mg.gov.br, também pelo 181 – Disque Denúncia Unificado (DDU) ou ainda pessoalmente na Subcorregedoria da 9ª RPM, na avenida dos Eucaptos, 800, bairro Jardim Patrícia”.

 

AÇÕES JUDICIAIS

O advogado Marcos Rodolfo Araújo Fá explicou à reportagem que foram protocoladas duas ações judiciais em relação ao caso. O primeiro processo foi instaurado na área cível e é contra o estabelecimento comercial por danos morais, solicitando uma indenização de R$ 100 mil devido à humilhação que o estudante sofreu dentro do estabelecimento. 

 

“O segundo processo é da esfera criminal por injúria racial e é contra o segurança do local que barrou Marcio e o ofendeu com palavras de discriminação”, ressaltou o advogado de defesa.

 

RESPOSTA

Por meio de nota, o Mercadinho Umuarama lamentou o ocorrido e informou que a intolerância não faz parte dos valores do estabelecimento. Disse ainda que não é conivente com o ato, mesmo que seja um caso isolado provocado por alguém sem qualquer orientação por parte dos proprietários. 

 

“Somos um comércio local, que vem atendendo a comunidade do bairro e região nestas 3 décadas. Em nossa porta já entraram milhares, pra não dizer milhões, de pessoas diferentes. Não condenamos quem se posiciona nas redes sociais contra atos preconceituosos, muito pelo contrário, estamos aqui para nos posicionar igualmente contra. Só se vence esta questão histórica combatendo-a de frente e com coragem. Pedimos apenas que a indignação de todos seja contra atos e fatos, e não contra aqueles que não teriam participação ou controle sobre algo supostamente causado por um terceiro, o que não nos impede de tomar atitudes para que isso não aconteça no interior de nossa loja”, informou em trechos da nota.

Por fim, a empresa reforçou que irá colaborar para a apuração dos fatos.

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