31/07/2020 às 14h17min - Atualizada em 31/07/2020 às 14h17min

Afastamento de profissionais e sobrecarga de leitos impactam rede de saúde

Pandemia do novo coronavírus acende alerta para o futuro; Diário de Uberlândia mostra atual situação da Saúde na cidade

CAROLINE ALEIXO E DHIEGO BORGES
Rede municipal recebeu nas últimas semanas pacientes que não conseguiram atendimento em hospitais particulares | Foto: PMU/Divulgação
Apesar da possível estabilização de contágio por coronavírus, divulgada pela Prefeitura na terceira semana de julho, Uberlândia ainda segue em alerta contra a doença e tem sofrido com os impactos na rede de saúde. Entre os principais problemas enfrentados pelas unidades de atendimento estão o alto índice nos afastamentos de profissionais, contaminados pelo vírus ou com sintomas semelhantes, e a demanda crescente por leitos. 

Segundo dados do último boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), desta quinta-feira (30), a cidade tem mais de 12,6 mil casos confirmados de Covid-19 e outros 2.633 ainda em investigação. A capacidade limitada de leitos de UTI na rede pública municipal aliada ao índice de ocupação - que está em torno de 78%, mas já chegou a 100% durante a pandemia - sugere que a cidade não suportaria um surto da doença que demandasse internação em massa de pacientes graves.  

Ainda segundo o boletim, a cidade tem apenas 32 leitos de UTI disponíveis na rede pública. Outros 114 seguem ocupados, considerando todos os tipos de enfermidade. Ao todo, 235 pacientes permanecem internados nas redes pública e privada. Destes, 100 em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e 135 em leitos de enfermaria. 

HC-UFU
No Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), a situação não é muito diferente. Segundo a assessoria de comunicação do HC, até o dia 14 de julho, a UFU tinha 44 leitos de UTI ativos, com uma taxa de ocupação oscilando entre 93% e 100%. O HC precisou afastar 30 servidores com suspeita de Covid-19 e tinha, até 14 de julho, 13 pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva, sendo 12 confirmados pelo novo coronavírus e um suspeito. 

Segundo dados disponíveis no departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (Datasus), Uberlândia tem atualmente 1.368 leitos de internação, considerando todas as categorias, sendo 465 na rede particular e 903 na rede pública. De fevereiro até junho, foram abertos 63 novos leitos na rede pública, ainda de acordo com o Datasus.  

Apesar do número limitado de leitos, considerando que a cidade tem quase 700 mil habitantes, o procurador da República, Cléber Eustáquio Neves, disse que a situação do município é controlável, mas para um cenário futuro, avaliando o crescimento da cidade, seria necessária a ampliação da capacidade de atendimento. 
HC precisou afastar 30 servidores com suspeita de Covid-19 | Foto: Arquivo Diário de Uberlândia

“Uberlândia precisa de pelo menos mais 700 leitos por uma questão populacional. Ouvi dizer que o prefeito deve construir um novo hospital na região do bairro Luizote, e isso poderá ajudar, mas a cidade precisa de um hospital regional do estado”, destacou.  

ALERTA
Em entrevista recente ao Diário, a presidente do Conselho Distrital do setor Oeste, Tânia Lúcia dos Santos, disse que a situação do município já era preocupante muito antes da pandemia. “Antes da Covid, já tínhamos um déficit de mais de 850 leitos e isso é muito preocupante. A gente vê tantos gastos da Prefeitura com obras, mas e se houver necessidade de se montar uma outra estrutura de campanha, será que vamos ter recursos?”, questionou. 

Em busca de informações para a população sobre a atual realidade da rede de saúde do município, a reportagem do Diário de Uberlândia procurou a Prefeitura para saber a respeito da ocupação de leitos e capacidade de atendimento na cidade. 

Também questionamos sobre a quantidade de profissionais de saúde afastados por suspeita de contágio e como o Município tem suprido a demanda crescente por atendimento na rede pública considerando os possíveis afastamentos. Os questionamentos, no entanto, não foram respondidos até a publicação desta reportagem. 

Cabe ressaltar que em lives realizadas pelo prefeito Odelmo Leão nas últimas semanas, o chefe do Executivo externou preocupação com a taxa de ocupação de leitos em toda a rede. Disse ainda que havia casos de pacientes com plano de saúde vigente procurando a rede pública, por não conseguir atendimento na rede particular. 

Em conversa anterior com a coordenação da Rede de Urgência e Emergência, no dia 9 de julho, o Diário questionou sobre a situação, sendo confirmados pelo menos dois casos até a data, de pacientes procurando a rede municipal em razão da falta de cobertura em hospitais particulares. Foi dito ainda que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) faz o monitoramento diário do índice de afastamentos na rede municipal para eventuais remanejamentos dos profissionais, a fim de minimizar os impactos nos atendimentos.  

Contudo, ao solicitar os dados e informações oficialmente à Secretaria Municipal de Comunicação, mediante a duas semanas de prazo, a reportagem não obteve retorno.  


Atendimentos fora da cidade
A Secretaria Municipal de Saúde de Uberaba informou que alguns moradores de Uberlândia procuraram atendimento
 na rede pública da cidade nas últimas semanas. Os pacientes foram recebidos em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para atendimentos de urgências, porém, no curso da investigação clínica, se levantou as suspeitas de Covid-19.

Eles foram transferidos para o Hospital de Referência da cidade no atendimento a casos suspeitos do novo coronavírus. O Município, no entanto, informou que não é possível vincular o fato de os pacientes terem sido atendidos no município de Uberaba por desassistência na rede pública de Uberlândia.


REDE PARTICULAR
O Diário também fez um levantamento com os principais hospitais particulares da cidade sobre o impacto da Covid-19. Das cinco principais instituições privadas procuradas pela reportagem, somente o Madrecor e o Santa Marta quiseram prestar as informações. 

De acordo com o Hospital Santa Marta, até 14 de julho, havia apenas cinco leitos disponíveis para atender pacientes suspeitos e ou confirmados por Covid-19. Ainda segundo o hospital, o índice de ocupação de leitos de UTI cresceu 50% nos últimos quatro meses por conta da doença. O hospital também esclareceu que chegou a ter 100% de ocupação por conta da pandemia, hoje esse índice é de 80%.

A respeito do impacto da pandemia na operação, o Santa Marta esclareceu que toda a estrutura foi readequada e readaptada para atender à demanda, considerando o número de leitos e de colaboradores, que atualmente está acima do dimensionamento obrigatório. A ocupação, segundo o hospital particular, aumentou consideravelmente bem como os atendimentos diários no Pronto Atendimento. 

Também houve necessidade de criação e atualização praticamente diária de protocolos clínicos de manejo do coronavírus. O hospital também alegou impacto pela necessidade de compras de EPIs, além da dificuldade para aquisição de alguns medicamentos. Sobre o afastamento de funcionários, o Santa Marta disse que afastou todos os colaboradores com suspeita ou que testaram positivo, sendo seis gestantes, oito menores aprendizes e outros seis com idade superior a 60 anos. 

Para suprir a demanda, foram realizadas sete contratações extras para a enfermagem, além de dois colaboradores para a área administrativa, exclusivos para a UTI. Até a data da apuração, o Santa Marta não estava recebendo pacientes encaminhados da rede pública por não ter leitos disponíveis. 

O Hospital Madrecor informou que dos 108 leitos de UTI e enfermaria, 77 estavam disponíveis até 14 de julho. O índice de ocupação de leitos de UTI no hospital atualmente é de 75%. Dos pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva, 50% estão em tratamento de Covid-19. Ainda segundo o Madre Cor, por conta da pandemia houve uma queda de 30% na receita bruta e redução de 45% na ocupação geral do hospital.

A respeito da rotina, o hospital esclareceu que houve um aumento considerável no consumo e nos custos de EPIs, além da dificuldade na compra de medicamentos para entubação, como sedativos, analgésicos e bloqueadores musculares. Ao todo, 18 colaboradores contaminados pela doença, suspeitos ou do grupo de risco tiveram que ser afastados. Ainda segundo o Madre Cor, o hospital ainda não recebeu nenhum paciente encaminhado da rede pública. 

Os hospitais Santa Clara, Santa Genoveva e Uberlândia Medical Center (UMC) não responderam aos questionamentos. 


Avaliação do Ministério Público
O procurador Cléber Eustáquio Neves disse ao Diário que o Ministério Público Federal (MPF) não recebeu nos últimos quatro meses nenhuma solicitação mais grave com pedido de disponibilidade ou transferência para leitos de UTI na cidade, mas o que preocupa, segundo ele, é a retomada dos atendimentos ambulatoriais para continuar atendendo pacientes com outras patologias. 

No mês passado, o MPF recomendou que a Prefeitura de Uberlândia e o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) apresentassem um cronograma para retomada de cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais na rede pública, suspensos desde março após determinação do Comitê Municipal de Enfrentamento à Covid-19. Os ofícios atenderam a um pedido feito por três membros de Conselhos Distritais que integram o Conselho Municipal de Saúde da cidade.

De acordo com o procurador, a UFU ainda não apresentou o documento ao Ministério Público Federal. Já a Prefeitura anunciou na última semana que a Secretaria Municipal de Saúde está retomando o atendimento das consultas com especialistas, que estavam suspensas desde março.

Mais transparência
Outra ação aberta pelo MPF, segundo o procurador, é um inquérito civil público que visa dar mais transparência aos gastos públicos durante a pandemia. O objetivo é apurar os recursos recebidos pela Prefeitura e sua aplicação no combate à Covid-19 na cidade.  

 
“Já pedimos informações à Prefeitura e estamos apurando. Queremos saber quais recursos foram recebidos da União e do Estado de Minas Gerais. Tendo noção do que foi recebido, vamos obter da Prefeitura informações de onde os recursos foram aplicados”, afirmou Cléber Eustáquio.

Além disso, o Município também é obrigado a repassar para apreciação da Câmara Municipal os relatórios trimestrais dos gastos durante o período de calamidade pública, conforme foi estabelecido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O estado de calamidade foi reconhecido pelo Legislativo Estadual no dia 16 de julho. 

O Diário procurou a Câmara Municipal que informou que, mesmo passado o prazo dos 90 dias para apresentação dos primeiros relatórios, ainda não recebeu os documentos. O vereador Thiago Fernandes (PSL), responsável pelo requerimento que pedia a criação de uma comissão de vereadores para poder acompanhar a execução orçamentária e financeira do Município durante o período de calamidade, informou que iria cobrar a presidência da Casa retorno sobre o assunto. 

O Município também foi questionado sobre a previsão para remeter as informações à Câmara e ao MPF, mas novamente não respondeu ao pedido de informação. 

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