06/07/2020 às 15h30min - Atualizada em 06/07/2020 às 15h30min

Farmácias de Uberlândia registram aumento na procura por ivermectina

Médico veterinário diz que eficiência do remédio ainda não foi comprovada em humanos e ingestão pode acarretar riscos à saúde

BRUNA MERLIN
Medicação foi liberada pelo Governo Federal para ser vendida com o objetivo de combater a Covid-19 | Foto: Divulgação
Cerca de cinco meses já se passaram desde que o primeiro caso do novo coronavírus foi confirmado no Brasil. Desde então, inúmeros estudos sobre possíveis medicamentos que coíbem ou tratam a contaminação estão sendo realizados e a ansiedade da população pela cura cresce a cada dia. A ivermectina é um desses remédios e já tem grande procura pelo medicamento, causando desabastecimento nas farmácias de Uberlândia.

A medicação, cuja venda não necessita de prescrição médica, está passando por pesquisas mundiais e teve a liberação do Governo Federal para ser vendida com o objetivo de combater a Covid-19. 

O responsável pelo setor de Compras de Medicamentos da rede Drogalíder na cidade, Luiz Fernando de Oliveira, disse que o número de vendas do ivermectina teve um crescimento exponencial. De acordo com ele, antes do coronavírus a rede de farmácias vendia uma média mil caixas do remédio por mês e, agora, são comercializadas cerca de 4 mil caixas por dia.

“A procura aumentou mesmo antes do governo federal ou do Município liberar as vendas para o controle da Covid. As pessoas ficaram sabendo através das redes sociais sobre a possibilidade do remédio e já começaram a procurar”, explicou.

Luiz Fernando ressalta ainda que por ser um medicamento considerado barato e de livre demanda as pessoas estão aproveitando para comprar várias caixas e distribuir para os membros da família e amigos. Além disso, o representante da Drogalíder diz que a maioria dos interessados compra o remédio visando prevenir a doença. 

“A ivermectina é produzida em caixas que vêm com dois ou quatro comprimidos. O preço pode variar de R$ 14 a R$ 30. Não conseguimos manter o estoque desde o início da pandemia. Tudo que chega sempre acaba em um ou dois dias”, detalhou Oliveira.

O Diário de Uberlândia também conversou com representantes de outras duas drogarias da cidade, que preferiram não identificar os estabelecimentos, e informaram que a procura pelo medicamento em suas lojas também aumentou nos últimos dias. Durante entrevista, o responsável por uma farmácia, localizada próximo ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), disse que espera a chegada de novos medicamentos do laboratório porque o estoque já acabou.

“Os fabricantes não estão conseguindo atender a demanda. Se pedirmos 10 mil caixas, eles entregam metade disso por não estarem conseguindo produzir o suficiente”, finalizou.

FARMÁCIAS MUNICIPAIS
No dia 30 de junho, o prefeito de Uberlândia Odelmo Leão anunciou que os medicamentos hidroxicloroquina e ivermectina foram disponibilizados nas farmácias populares da cidade. Os remédios estão sendo ofertados sob prescrição médica tanto para pacientes com Covid-19 atendidos na rede pública de saúde, quanto na privada.

Segundo o coordenador da rede de urgência e emergência da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Clauber Lourenço, a necessidade de prescrição do medicamento será avaliada por cada médico, seguindo o protocolo municipal de atendimento aos pacientes diagnosticados com a doença. 

“A eficácia ainda é muito controversa, sendo assim, o médico pode ou não prescrever o remédio. É um direito e uma escolha dele. O papel do Município é deixar isso claro à população e de indicar o uso da ivermectina somente sob laudo médico”, disse.

A reportagem entrou em contato com a SMS para saber quantas caixas de hidroxicloroquina e ivermectina foram liberadas nas farmácias populares. Além disso, o Diário também questionou quantas já foram retiradas pela população, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. 

Pesquisador alerta para riscos do medicamento

De acordo com o médico veterinário e mestre em imuno-parasitologia, Geraldo José Arantes, a ivermectina foi descoberta na década de 70 e lançada em 1982 no mercado brasileiro como um produto veterinário para o controle de ectoparasitas, como carrapatos e vermes, em animais. Anos depois, o medicamento começou a ser utilizado em humanos com o objetivo de combater endoparasitas, como áscaris, e ectoparasitas, como piolho.

Com a chegada da pandemia da Covid-19, a ivermectina está sendo utilizada em estudos científicos como um possível medicamento para combater o vírus no mundo. “A molécula ivermectina foi utilizada em pesquisas in vitro na Universidade Hebron, na Austrália. Esse primeiro estudo indicou que a molécula atingiu 93% de eficácia nas primeiras 24 horas de aplicação no combate ao vírus e 99% em 48 horas”, ressaltou. Entretanto, o resultado desse primeiro estudo não comprova a eficiência da solução.
 

“Ainda não existem estudos clínicos sobre esse medicamento, ou seja, ele não foi testado em humanos. Não existe ainda um estudo finalizado apontando  quais poderão ser as doses eficazes para combater o coronavírus e nem tampouco os seus eventuais efeitos colaterais. Não podemos jamais dizer que a ivermectina tem eficácia no combate à doença se os estudos não passaram nem da primeira fase”, complementou. 


Geraldo José Arantes explica ainda que a falta de informação das pessoas está fazendo com que elas procurem e comprem o remédio como prevenção do vírus. Segundo ele, a população está cometendo um erro gravíssimo e colocando a saúde de todos em risco.

“Não existe comprovação que o remédio combate o vírus muito menos que ele previne o vírus. O que previne é vacina e não medicamento. A ivermectina fica no organismo por cerca de dois dias, portanto, um dos principais erros é as pessoas acharem que tomando os comprimidos de uma caixa estarão imunes e começarão a sair de casa sem máscara e desrespeitando o isolamento social”.

Outro problema encontrado é o uso do medicamento sem acompanhamento médico e sem um estudo que comprove seus benefícios, bem como a quantidade de dose que deve ser ingerida. O médico veterinário ressalta que a dose informada na bula da ivermectina de uso humano é indicada para combater os ecto e endoparasitas e não o coronavírus causador da Covid-19.

“Se ingerido de maneira errada, em doses altas, todos os dias ou com uma alta frequência, isso poderá trazer uma série de problemas neurológicos. Na bula dos medicamentos humanos, informa que o medicamento pode aumentar os sintomas adversos de pessoas que já sofrem com distúrbios neurológicos”, detalhou.

Por fim, Geraldo orienta que as pessoas devem ter paciência porque a busca pela cura não é um processo rápido e fácil, mas que ela será encontrada. “A nossa opinião nunca pode se sobressair em relação à comprovação científica. Diversos estudos ainda estão sendo feitos para que a melhor solução seja encontrada, mas nenhum deles ainda têm comprovação para ser aplicado no mundo como cura”, concluiu.

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