02/12/2019 às 16h54min - Atualizada em 02/12/2019 às 16h54min

Em meio à maioria cristã, religiões minoritárias encontram espaço em Uberlândia

Umbanda, budismo e judaísmo são religiões presentes dentre a população local, que tem predominância cristã

NILSON BRAZ
Fausto fez pesquisa que identificou 218 locais ligados às matrizes africanas na cidade | Foto: Nilson Braz
Com seus quase 700 mil habitantes não é difícil encontrar templos religiosos em Uberlândia. Igrejas antigas, com construções características, outras mais novas, com estruturas modernas, outras mais simples, adaptadas em salas comerciais. No último Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), de 2010, uma maioria avassaladora se declarava católico. Na época, somavam mais de 330 mil pessoas que se declararam católicos apostólicos romanos, número que representava mais de 54% da população da época.

Mas hoje esta realidade pode não ser mais a mesma. De acordo com o teólogo e pesquisador da área Fausto Santos Ferreira, de lá pra cá existiu uma certa migração entre as religiões e no novo Censo, a ser feito em 2020, pode ser que tenha uma maior pluralidade de religiões sendo autodeclaradas pela população, mesmo sabendo que os católicos e evangélicos ainda representam a maioria.

Fausto é praticante da religião Umbanda e se autointitula Sacerdote Fausto d’Omulu. Ele integra o grupo de 1.665 pessoas que se declararam praticar o Candomblé ou Umbanda. Mas ele acredita que esse número era bem maior na época e explica o motivo que levou o Censo a não registrar o número real. “Ouço relato de seguidores que, quando passam pelo mercado de trabalho, não podem professar a própria fé. Então é difícil ser praticante de alguma religião de matriz africana. Não é fácil. A contradição dos números está aí, quando é perguntado qual a sua religião a pessoa fala que é espírita, porque é mais fácil do que dizer que é candomblecista, umbandista”, comentou Fausto.

Ainda assim, ele acredita que os números ligados às religiões de matriz africana devam mudar com a nova pesquisa. Fausto fez um levantamento próprio sobre quantas casas são frequentadas por estas pessoas em Uberlândia. Foram identificados 218 locais onde pessoas se encontram para praticar a fé vinda dessas religiões. “É muito difícil dar um número correto, mas somos muitos hoje. Só no segmento de Umbandista somos mais de 75 mil pessoas. Fora os outros 7 segmentos que possuem seguidores aqui em Uberlândia”.

Outra religião que se mostrou discreta na última pesquisa do IBGE foi o budismo. Nela, o número de seguidores na cidade era de 1.008 pessoas. Alexandre Chami Filho é budista mas não integrou esse número. Ele conta que é seguidor da religião desde 2014 e que se interessou pelo budismo pouco tempo antes. Ele faz parte de um centro de meditação onde outros budistas se reúnem para praticar a religião.

Alexandre Chami é seguidor do budismo desde 2014 | Foto: Nilson Braz


Alexandre conta que os praticantes do budismo são discretos com a fé. “Muitos grupos daqui da cidade se reúnem em locais que não são espaços destinados para a prática. Eles se reúnem mais em casa. Aqui em Uberlândia, local destinado para o budismo deve ser 4 ou 5 apenas. O budismo, como um todo, tem essa dimensão um pouco mais de estar disponível do que de ir até as pessoas. Então a comunidade se dá pelas pessoas que nos procuram pela curiosidade, querendo conhecer, também por causa da meditação. As pessoas procuram a meditação para fins terapêuticos, de saúde, e acabam se encontrando nesta fé”, disse Alexandre.

Ele explica ainda que o budismo é muito difícil de se categorizar, principalmente aqui no ocidente, porque não é uma prática unicamente pautada na espiritualidade, ela envolve outros aspectos. “O budismo tem aspectos de empreitadas diferentes na vida. Tem aspectos religiosos também, mas tem muitos aspectos filosóficos, intelectuais, tem aspectos que poderiam até ser considerados científicos, se aproxima, por exemplo, da psicologia.”

Ainda mais discreto nos números estão os adeptos da prática da religião judaica. No Censo de 2010, apenas 14 pessoas se declararam judeus em Uberlândia. O professor universitário Carlos Alberto Póvoa está entre eles. Nascido e criado dentro do judaísmo, ele levou a prática para os estudos também. Ele é pesquisador e desenvolveu muitos projetos sobre o judaísmo no Brasil. Porém, conta que ser judeu em Uberlândia é muito diferente de ser judeu nas grandes cidades, porque aqui não tem nenhuma sinagoga, que é o templo dos judeus.

“Para manter uma sinagoga, uma congregação, é muito caro. E pra rezar tem que ter mais de 10 homens, então para fazer a maioria das nossas práticas precisa dessa quantidade de pessoas e aqui não tem tanta gente para isso. Por isso tudo é feito em casa, porque em casa não tem problema fazer sozinho. O judeu não tem a necessidade do templo físico, do local apropriado para suas práticas”, comentou o professor.

Ele conta ainda que os judeus são conhecidos como “o povo dos livros”, já que para cada prática, para cada ritual, cada reza, tem um livro que conta sobre o porquê das ações, dos jejuns, dos alimentos que comem, das datas que comemoram, além das instruções do que fazer e como fazer. E que por isso acabam muito próximos do que é o judaísmo de fato, já que inclusive as rezas são em hebraico. “Independe da nacionalidade, do país onde vive, a raiz é a mesma”, conclui Carlos.

Carlos Alberto desenvolveu muitos projetos sobre o judaísmo | Foto: Nilson Braz





 
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