27/10/2019 às 14h27min - Atualizada em 27/10/2019 às 15h27min

Hipnose ganha espaço em consultórios médicos e de psicologia em Uberlândia

Recurso tem sido utilizado por profissionais para tratamentos de problemas psicoemocionais

GIOVANNA TEDESCHI
Lucas Cárpio trabalha com hipnose há 1 ano em consultório em Uberlândia | Foto: Arquivo Pessoal
Quando se pensa em hipnose, a imagem que vem na cabeça é, geralmente, de um ilusionista segurando um relógio e fazendo a plateia comer cebolas como se fossem maçãs. Sair colando mãos por aí apenas com o poder da palavra e fazer com que pessoas esqueçam o próprio nome também é uma possibilidade.

Menos conhecida e ainda encarada com estranhamento é a hipnoterapia: o uso da hipnose para tratar problemas psicoemocionais, como fobias, vícios, depressão, ansiedade, disfunção sexual, síndrome do pânico e outros transtornos. Em 2000, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) aprovou o uso da hipnose como recurso auxiliar do trabalho do psicólogo, desde que esteja capacitado na área por meio de cursos e treinamentos. Em 2008, o Ministério da Saúde incluiu a hipnose nas práticas de terapias integrativas e complementares oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas psicólogos não são os únicos que podem fazer tratamentos utilizando a hipnose. Médicos, fisioterapeutas, dentistas ou outros terapeutas que têm capacitação técnica na área também podem utilizar o recurso. Justamente por essa gama de possibilidades, se torna mais difícil saber quem são os profissionais realmente habilitados a fazer este tipo de trabalho.

Erick Heslan é presidente da Associação Brasileira de Hipnose (ABH), que busca, justamente, facilitar a identificação dos especialistas. Para participar, é necessário enviar certificados que comprovem a formação na área. “Não é para ser algo legalmente obrigatório, mas um modelo de orientação para quem se dispor a ser membro. E a ideia é que as pessoas que querem atendimento passem a valorizar mais o profissional que está habilitado”, explica. Em 2018, a organização lançou um código de ética com o objetivo de dar mais segurança a pacientes e hipnoterapeutas.

O terapeuta Lucas Cárpio utiliza a hipnose para atender pacientes em Uberlândia há um ano. De acordo com o profissional, a mente se divide em três partes: o consciente, que é a que pensa efetivamente, o inconsciente, que lida com as funções vitais do corpo (como batimento do coração e a renovação de células), e o subconsciente, que é onde acumulamos experiências de vida, o foco da hipnose clínica.

“Nós temos um contato subjetivo através de metáforas, promovendo, assim, o que é terapêutico. Por exemplo: se uma pessoa tem muito medo de altura. No estado de relaxamento, em que a pessoa tem toda a atenção voltada para as suas experiências, nós conseguimos identificar a exata lembrança que construiu aquele medo”, conta Cárpio. O paciente pode perceber que aquele medo vem de uma queda que aconteceu na infância, por exemplo. “A pessoa cresce com essa experiência de que altura é igual a dor e quando chega na fase adulta ela não consegue lidar mais com a altura porque tem a crença de vai se machucar.”

A partir de descobertas como essa, o hipnoterapeuta e o paciente conseguem mudar o conceito referente ao trauma. “Quando a pessoa entra em contato com essa lembrança, eu poderia dizer a ela, que se ela tivesse cuidado e habilidade para lidar com a altura, ela poderia subir e descer de onde ela caiu quantas vezes fossem necessárias e não se machucaria”, explica o terapeuta. A ideia é entrar em contato com experiências que causam transtornos, como ansiedade e depressão, e ressignificá-las.

A analista de recursos humanos Jenniffer Bergory, de 30 anos, procurou a hipnose após passar por tratamentos como homeopatia e psicoterapia e não conseguir se curar. Ela conheceu o método por um comentário de um primo, que conhecia o terapeuta Cárpio. “Confesso que inicialmente eu imaginava que era uma pessoa com um relógio na minha frente e eu nem coloquei muita fé”, relembra. “Era como se fosse um bate-papo: ele perguntava com era o meu dia, como eu me sentia diante de algumas situações”, conta. No total, foram quatro sessões.

Perguntada sobre os transtornos que queria curar, Bergory cita baixa autoestima, problemas familiares e não saber o que fazer na vida profissional. “Quando fui, eu tinha acabado de ter um relacionamento tóxico e não queria lembrar da pessoa. Eu falei que queria esquecer. Ele [o terapeuta] fez um exercício comigo e eu nunca mais lembrei da pessoa. Claro que eu lembro os momentos, mas não é aquela coisa de antes”, diz.

A psicóloga Sirlei Giannini, de 56 anos, além de aplicar a hipnose nos próprios pacientes, utiliza a técnica para tratamento de ansiedade e depressão. “Em uma pesquisa na internet procurei sobre os benefícios da hipnose e foi ótimo, tenho me sentido mais leve e tranquila. Fiz algumas sessões, mas pretendo fazer outras pois sei que pode me ajudar bastante em vários aspectos de minha vida”, conta.

O conferente Mitchel Souza, de 24 anos, também descobriu a técnica por meio de pesquisas na internet. “Estava depressivo, sem ânimo para fazer nada, sem vontade de sair de casa, tudo estava ruim, nada me agradava. No YouTube, pesquisei a fundo sobre benefícios que a hipnose tem a oferecer, e encontrei muitos resultados animadores”, explica.

Ao contrário de grande parte dos pacientes, que busca a hipnoterapia como último recurso, este foi o primeiro tratamento feito por Souza, que passou por três sessões. “Meu ânimo mudou, estou mais motivado, até mesmo minha memória está melhor, algo que era muito ruim”.
 
CONEXÃO
Eneida Fernandes aplica hipnose para tratar pacientes com doenças psicossomáticas | Foto: Arquivo Pessoal


A homeopata Eneida Fernandes já fez três capacitações e trata pacientes em Uberlândia utilizando a hipnose. De acordo com ela, na área médica, utiliza-se o tratamento em doenças psicossomáticas e crônicas. “Exemplo: um homem de 52 anos com diagnóstico de ‘boca ardente’. Após anamnese [entrevista sobre o histórico do paciente] e conhecimento de sua história pessoal, fizemos um transe hipnótico. Ele foi descobrindo a causa de seu verdadeiro sofrimento e como sentir-se mais saudável e tranquilo. Os sintomas foram diminuindo completamente”, conta.

O transe hipnótico, citado pela médica, é um estado que geramaior percepção e conexão com o inconsciente. Ele acontece por meio de várias sugestões indiretas dadas pelo terapeuta. “No transe há uma interação de informações subjetivas e profundas entre a mente consciente e a mente inconsciente. Não há interpretação como na psicanálise. Aqui o terapeuta, através de inúmeras técnicas de indução, age facilitando a ampliação e aprofundamento desse estado”, explica Fernandes.
 
PSICOLOGIA
Anderson Garcia explica como a hipnose auxilia nos estudos de psicologia | Foto: Arquivo Pessoal

Anderson Garcia é, além de psicólogo, pós-graduado em Terapia e Hipnose Ericksoniana. Esse tipo de hipnose foi proposto pelo psiquiatra Milton Erickson e parte do princípio de que cada indivíduo é único, sendo responsável por reverter seus conflitos internos. “O papel do hipnoterapeuta portanto é apenas orientá-lo como um facilitador desse processo. Uma característica dessa abordagem é sugestão indireta através do uso de histórias e metáforas”, explica Garcia.

O psicólogo ainda explica que o uso do clássico relógio, bastante famoso em shows, funciona como forma de fazer o paciente se concentrar em uma única coisa. Uma vela acesa, por exemplo, teria um efeito parecido. “Relógio balançando e fazendo tic tac traz um estímulo ritmado que ajuda as ondas cerebrais atingirem o transe hipnótico”, diz. Objetos como esse não são utilizados na hipnose ericksoniana.

Ainda sobre diferenças entre a hipnose clínica e a de entretenimento, Garcia diz que há confusões quando se espera o uso de mágica para solucionar problemas no consultório. “Acredito que em shows é usada de forma mais sensacionalista, o que faz ser mais fascinante para diversão e não tem a intenção de intervir na saúde mental. Já a hipnose utilizada na psicoterapia tem o objetivo de trazer mudanças cognitivas e comportamentais no indivíduo”, explica.









 
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