13/10/2019 às 09h31min - Atualizada em 13/10/2019 às 09h31min

Negócios aproveitam momento econômico adverso para aumentar faturamento em Uberlândia

Analista do Sebrae explica como alguns ramos conseguem driblar a crise

GIOVANNA TEDESCHI
Ortopedista Daniel Pereira destaca acesso de pessoas de baixa renda a serviços particulares de saúde | Foto: Divulgação
Todo empresário sonha em abrir um negócio que não entre em crise. Uma enxurrada de clientes, funcionários prestativos, equipamentos de ponta… Mas será que a existência de uma empresa perfeita é uma ilusão ou algo realizável? Segundo especialistas e empreendedores, embora seja impossível ficar totalmente imune aos altos e baixos da economia, existem ramos de negócios mais propensos a ter um bom desempenho durante crises como a que o Brasil atravessa.

De acordo com Marcílio Ribeiro Borges, analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as necessidades de produtos e serviços ofertados por empresas mudam de acordo com algumas variáveis. “As necessidades mudam em termos geográficos, com a idade das pessoas. Então a questão do que é mais durável ou não é muito sobre qual o produto que está sendo ofertado efetivamente. Ele é temporário? É um consumo que a pessoa vai mudar o hábito? Ou é uma estrutura permanente?”, questiona. Ou seja: o sucesso de um negócio vai depender do contexto em que ele está inserido.

“Por exemplo, uma loja de material de construção. Para um bairro que está começando, ela é necessária e vai ser demandada enquanto se estiver construindo. Quando o bairro estiver consolidado, essa loja de construção vai ter que mudar o perfil de trabalho”, explica Borges.

Irmãos, Thiago e Lucas Gomes são donos de um centro automotivo no bairro Santa Mônica, em Uberlândia. Para os sócios, esse tipo de negócio tem menos crises porque a quantidade de veículos tem aumentado. “A frota de carros vai só aumentando na nossa cidade. Para ser sincero, eu não senti tanto o efeito de crise no nosso ramo”, afirma Lucas. Apesar disso, ele diz que os clientes têm optado por fazer manutenções quando os veículos apresentam problemas, ao invés de revisões preventivas.

Irmãos, Thiago e Lucas Gomes são donos de um centro automotivo no bairro Santa Mônica | Foto: Divulgação


O estabelecimento funciona há seis anos. Thiago é formado em Engenharia Mecânica e Lucas em Administração. “A ideia surgiu devido a já termos o imóvel. Nós procuramos unir essas duas faculdades para poder engatar nesse negócio e atualmente temos dois funcionários. Não é um suporte tão grande, mas acredito que já estamos em um nível bem qualificado”, conta. O negócio cresceu tanto que foi necessário alugar o terreno do lado. Cerca de 50 carros passam pela oficina por semana.

Para Borges, do Sebrae, a crise faz com que a procura seja maior por locais que oferecem serviços de manutenção. “A pessoa estava acostumada a trocar de carro a cada tantos anos. Se ele sabe que para trocar de carro vai demorar um pouco mais, a tendência é gastar mais para manter esse carro melhor”, explica.

Negócios que consertam objetos como bolsas, roupas e sapatos também tendem a crescer em períodos de crise.
 
SAÚDE
Apesar das melhorias da saúde pública nas últimas décadas, grande parte da população investe em hospitais particulares. Ortopedista, Daniel Pereira é fundador de um hospital que fica na região central de Uberlândia. O local, fundado em 2002, passou por crises principalmente para se inserir no mercado, já que a concorrência sempre foi grande. “Tivemos fases ótimas, mas sempre intercalando com desafios, seja em lidar com a recessão econômica do país, inadimplência, necessidade de novos investimentos, seja em estrutura, tecnologia e pessoas. Mas acredito que isto faz parte de todos os negócios e este é o grande desafio de quem resolve empreender e se manter no mercado”, afirma o médico.

Apesar de serviços essenciais como os de saúde sofrerem menos com as crises econômicas, montar negócios desse tipo exigem planejamento, grandes investimentos e não podem ser feitos apenas porque a demanda aumenta. Se, por exemplo, uma pessoa decide abrir um hospital porque há uma necessidade grande da população, até o local ser construído e aberto, a demanda pode diminuir, e o negócio, fracassar. “São negócios que não se consegue montar de uma hora para a outra. Não é igual, por exemplo, um restaurante, que eu consigo rapidamente construir”, afirma o consultor Borges. Também é necessário pensar em como fazer com que clientes que estavam acostumados com a concorrência passem a comprar serviços de outra empresa.

Segundo o médico Pereira, os planos de saúde têm possibilitado o acesso de pessoas de renda mais baixa a hospitais particulares. “Pacientes de emergência são otimamente bem atendidos nos hospitais públicos. Agora, pacientes com patologias crônicas e não emergenciais sofrem para conseguir atendimento público e a maioria não consegue. Quem pode um pouco mais migra para planos de saúde”, diz
 
TECNOLOGIA
 
Fabricio Panice diz que empresas de TI sofrem menos com as crises | Foto: Arquivo Pessoal
 
Ainda que a tecnologia tenha diminuído a quantidade de empregos em algumas áreas, seu uso possibilitou a abertura de mais negócios criados especificamente para a manutenção de computadores, processamento de dados e aperfeiçoamento de softwares.

Fabricio Panice, cientista da computação e especialista em sistemas de informação, fundou uma empresa de Tecnologia da Informação (TI) em Uberlândia em 2003. Hoje, o negócio conta com 25 funcionários, cinco prestadores de serviço e um faturamento anual de R$ 120 mil. “Vejo que os negócios baseados em TI, em momentos de crise, vêm para apoiar na redução de custos, com automatização de processos melhorando a experiência do usuário. Com isso sofremos menos o impacto”, afirma o empresário. Ou seja, esse tipo de negócio acaba encontrando um nicho em meio à crise.

Apesar disso, o fechamento de outras empresas faz com que a quantidade de clientes diminua. A crise ainda faz com que profissionais informais assumam o serviço antes feito pelas empresas de TI. “Nas crises, ou deixam sucatear os equipamentos, ou chamam um parente ou alguém que trabalha em outra empresa e que atende fora do horário comercial”, conta Panice. “Nosso foco é infraestrutura tecnológica e na crise os empresários cortam investimentos nesta área, deixando de nos demandar”, disse. Para ele, a empresa sofre os efeitos da crise, mas não tanto quanto outros ramos.

Panice, em 2013, chegou a devolver a sala em que fica a sede, mas o negócio conseguiu se recuperar, voltar ao mercado e está crescendo, mesmo em meio à crise econômica. “Resolvemos investir na capacitação da equipe, mudamos de sede - fomos de 80 m² para 380 m²- e agora no segundo semestre sentimos uma melhora no mercado”, afirma.








 

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