11/05/2019 às 09h40min - Atualizada em 11/05/2019 às 09h40min

Estupros de menores têm alta de 60% em dois anos em Uberlândia

Delegacia acredita que crescimento se deve ao aumento de denúncias e conscientização; encontro municipal ocorre na próxima semana sobre o tema

DA REDAÇÃO
Régia fez um debate na escola, o que contribuiu para alunas denunciarem agressores | Foto: Divulgação
Nos últimos dois anos (2018 e 2017), 193 crianças e adolescentes foram estuprados em Uberlândia e 8 foram vítimas de tentativa de estupro, segundo registros da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). O número é quase 60% maior se comparado com os dois anos anteriores (2016 e 2015), quando 123 menores foram abusados sexualmente e outras 3 sofreram por tentativa de estupro na cidade.

Segundo a Delegacia Especializada no Atendimento à Criança de Uberlândia, os dados, na verdade, não indicam um crescimento desse tipo de crime e sim o aumento das denúncias por parte de vizinhos, anônimos e principalmente das escolas, depois de campanhas de conscientização. Uma dessas iniciativas é o 2º Encontro Municipal Todos Contra a Pedofilia, marcado para os dias 14 a 18 de maio, na Câmara Municipal, Prefeitura e praça Tubal Vilela, com entrada franca.

O evento foi instituído por meio da Lei Municipal 12.874, de autoria do vereador Roger Dantas (Patri), promulgada pelo Executivo em dezembro de 2017. No ano passado, quando aconteceu a 1ª Semana de Combate à Pedofilia, além de alertar educadores e comunidade em geral sobre o problema, foi possível identificar crimes que vinham sendo cometidos há anos em Uberlândia.

“Não imaginei que teria tanta repercussão. Com as palestras, as crianças e adolescentes ganharam força para se abrir com alguém de confiança e pôr fim a tanto sofrimento. Independentemente de política, e apesar de ser um tema tão difícil, fico feliz que esse projeto venha ajudando a aumentar a conscientização e as denúncias”, disse Roger Dantas.

Em 2018, na Escola Estadual Ignácio Paes Leme, no bairro Martins, três alunas do ensino médio denunciaram abuso dentro de casa, quando a instituição de ensino recebeu a visita de profissionais da ONG Instituto Carrossel, parceira do evento e criada há 10 anos para assistir menores vítimas de violência sexual.


Evento foi instituído por meio de projeto de lei sancionado e de autoria do vereador Roger Dantas | Foto: Divulgação

“Eu participei das palestras na Câmara e fiz o convite para o Carrossel vir à escola e os profissionais abriram uma parte para os alunos falarem em particular. A gente percebe na hora que tem alguma coisa errada, elas mudaram o semblante. Por isso, é tão importante esse tipo de encontro. Todas as outras escolas deveriam fazer o mesmo durante todo o ano, para mais crianças terem o direito de denunciar. Vou sugerir à Superintendência de Ensino”, afirmou a diretora Régia Queiroz.

Segundo a delegada Alessandra Rodrigues da Cunha, a escola é a principal parceira da polícia e de onde vem o maior número de denúncias. Mas ao mesmo tempo, ela critica dizendo que muitas instituições ainda são omissas.

“É na escola que se percebe os principais sinais, mas, às vezes, por medo, não denunciam. Não existe um sinal específico da criança quando ela passa por esse tipo de situação, mas quem convive com ela, nota que ela fica diferente. Como em casa, onde elas deveriam ter mais segurança, não tem, e muitas mães também são omissas, cabe à escola ajudar a notar se algo está errado e denunciar”, afirmou a delegada.
 
DENTRO DE CASA
Ainda de acordo com Alessandra Rodrigues, 90% dos casos em Uberlândia ocorrem em âmbito familiar e os estupros são praticados pelo pai, padrasto, tio e avô, em grande parte das vezes com a conivência da mãe, que finge não perceber ou prefere não acreditar, e por isso esses crimes são muito difíceis de serem evitados.  Entre os casos denunciados na Escola Ignácio Paes Leme estava o de uma menina, de 14 anos, que ao ouvir a palestra contou o que vinha sofrendo há 4 anos para a colega de turma, e com a ajuda dela teve coragem de denunciar.

“Ela contou pra mim que o pai, um policial militar, a estuprava há 4 anos, toda vez que ela ia visitá-lo em outra cidade e ameaçava de matar a mãe e o irmão, caso ela contasse”, disse Danusa Biasi, presidente do Instituto Carrossel. “Foi a libertação. Ela andava com calça larga, com camisona, depois da denúncia ela mudou completamente, virou mocinha. Ela saiu da escola e, até onde sei, ele não foi preso, mas ela pelo menos se libertou dele”, contou a diretora Régia Queiroz.

Para Danusa Biasi, mesmo com o aumento no número de denúncias, ela acredita existir uma cifra invisível de casos ainda não descobertos. A presidente do Carrossel também critica a falta de um controle estatístico com o número de vítimas de abuso sexual e o acompanhamento desses menores, para saber se realmente procuraram ajuda. “É uma pessoa que precisa ser acompanhada para o resto da vida. Mas a gente não tem esses dados. O único dado que a gente tem é o do Conselho Tutelar, mas não dá para saber se é condizente com a realidade porque o sistema é muito falho”, disse Danusa. 
 
 
ENCONTRO MUNICIPAL CONTRA À PEDOFILIA

Dia 14 de maio – terça-feira
19h – Abertura oficial: Palestra com o Coronel Cláudio Vitor, comandante da Polícia Militar de Uberlândia
Depoimento de uma vítima
Local: Plenário da Câmara Municipal
 
Dia 15 de maio – quarta-feira
19h – Palestra “Todos contra a Pedofilia” - Carlos José e Silva Fortes (Casé), promotor de Justiça
Caso do professor universitário Apolônio do Carmo, condenado por estuprar a enteada - Moacir Henrique Júnior, doutor em direito, professor da UEMG e advogado da vítima
Local: Auditório da Prefeitura Municipal
 
Dia 16 de maio – quinta-feira
19h – Palestra Impacto psicológico do abuso sexual infantil na vida adulta – Thaís Clemente, psicóloga
Local: Plenário da Câmara Municipal
 
Dia 17 de maio – sexta-feira
19h – Aspecto psicológicos de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual – Caroline Ieza, psicóloga
Local: Plenário da Câmara Municipal
 
Dia 18 de maio – sábado
9h – Encerramento – Blitz Todos contra a pedofilia
Local: Praça Tubal Vilela
Para mais informações: 3239-1248

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