25/11/2018 às 07h20min - Atualizada em 25/11/2018 às 07h20min

O fascismo se aproxima do poder?

Termo foi muito utilizado durante período eleitoral como forma de ataque, mas especialistas afirmam que país está longe de um governo fascista

VINÍCIUS LEMOS
Se fosse possível fazer uma contagem de quantas vezes o termo fascismo e suas derivações na língua portuguesa foram usados em 2018, provavelmente veríamos essas palavras na lista das mais lidas ou faladas por brasileiros no ano. Esse foi apenas mais um dos inúmeros assuntos suscitados pelo acirramento político no Brasil com a candidatura e posterior eleição de Jair Bolsonaro como presidente. Definido o resultado do pleito, e diminuído os ânimos da população, muitos eleitores por fim se questionaram: afinal, caminhamos mesmo em direção ao fascismo como concebido e adotado pelo Partido Fascista Italiano ainda no início do século 20? Consultados, especialistas de ambos espectros políticos ouvidos pelo Diário de Uberlândia responderam que não, o Brasil não ruma para um sistema de governo fascista. Apesar da unanimidade, houve opiniões divergentes sobre o cenário político brasileiro e o futuro governo, o que, no fim das contas, é saudável e faz parte de uma democracia.

Nascido na década de 1910, o fascismo teve início com a formação do grupo Fasci d’Azione Rivoluzionaria, em 1914, que se formalizaria como partido nos anos seguintes. Em 1919, o Manifesto Fascista é publicado por Alceste de Ambris e Filippo Marinetti. A figura de Benito Mussolini, então, se ergueu como central na política italiana da época em nome de uma nação unida e mais forte. O caso é que as medidas tomadas pelo “duce” (ou líder, em italiano) eram ultranacionalistas, autoritárias, imperialistas, antiliberais e antidemocráticas. 

O fato de o Brasil ter vivido sob um regime militar entre os anos de 1964 a 1985, somado à eleição de um capitão da reserva com forte apoio popular fez com que muita gente ficasse assustada e atenta aos detalhes da política proposta por Bolsonaro, o que poderia explicar as ligações que parte do eleitorado faz entre o discurso do presidente eleito e os princípios fascistas.

Para o mestre em Ciências Sociais Luiz Paulo de Melo Costa, ainda que exista ideais fascistas permeando certos comportamentos sociais e políticos no País, a exemplo do que ele chamou de política por meio da ação violenta e do autoritarismo, dificilmente um regime como o vivido pela Itália de Mussolini seria instaurado no Brasil hoje em dia. “Bolsonaro foi eleito por uma diferença de 10 milhões de votos e nem todo mundo concorda com autoritarismo. Há pessoas que votaram nele por conta de promessas de combate à criminalidade e à corrupção que permeia a política como um todo”, afirmou.

Para usar outra palavra da moda, a resistência, de acordo com o cientista social, seria real a um regime fascista, além do fato de que o momento histórico vivido no Brasil é outro. 

Luiz Paulo de Melo ressalta ainda que o argumento único de que o governo eleito é fascista se torna raso frente à situação política do País. Por outro lado, ele pondera que é preciso estar atento e observar quais serão os próximos passos do presidente eleito, além da reação da própria população frente a isso. “Temos que ser vigilantes e nos mantermos mobilizados. [O projeto] Escola sem Partido, por exemplo, é um elemento autoritário com opinião única. Isso é perigoso”, afirmou, ao citar exemplos de pensamentos considerados de aproximação fascista. “A questão é defender cada vez mais a democracia, mobilizar a sociedade civil e evitar a despolitização.”

ATITUDES FASCISTAS

O historiador João Gabriel do Nascimento Nganga afirma que dificilmente um sistema fascista clássico seria possível hoje no País, mas vê, ao mesmo tempo, atitudes que se aproximam do pensamento fascista presentes na sociedade. “Dentre ações está o racismo e o que chamamos, hoje, de homofobia. Houve muita perseguição aos homossexuais por regimes fascistas clássicos”, afirmou. Ele ainda cita como formas de aproximação a governos totalitários o apoio popular a discursos de solução rápida para problemas complexos, como a violência, e a xenofobia.

A preocupação de Nganga com o próximo presidente não está na instalação de um governo aos moldes de Mussolini, mas sim no que ele afirma ser suporte de atitudes discriminatórias. “Poderia dizer que há uma predominância de atitudes de características fascistas. O que eu avalio é que a partir do momento em que há uma figura pública que endossa o comportamento violento e discriminatório, isso faz com que a sociedade entenda que aquele que violenta tem poder para isso e aquele que é violentado por ser uma minoria não tem poder de reagir”, disse.

BANALIZAÇÃO

O filósofo e professor Dennys Xavier, que se denomina liberal e se mostra com pensamento político em espectro oposto aos demais entrevistados, não vê risco de um crescimento fascista e ditatorial no Brasil. Para ele, o indivíduo tem se tornado mais forte frente à coletividade. “Não vejo nenhum traço [do fascismo] hoje visível enquanto movimento histórico. Na verdade, temos a restauração da ideia de que o indivíduo é mais importante. Eu vejo a equipe que o presidente eleito vem fazendo apontar para um Estado que vai pensar o básico”, afirmou, destacando a característica liberal do governo Bolsonaro.

Ele citou a origem da palavra fascismo, que vem do termo italiano “fascio”, que significa “feixe”. O “fascio” era a composição de varas amarradas, geralmente ligadas a um machado de bronze, e que era utilizada durante o Império Romano para, dentre outras coisas, simbolizar o poder de punição de magistrados. A metáfora para o fascismo era que uma nação unida era mais forte que o indivíduo sozinho. O pensamento ganhou força na Itália recém-unificada, ainda na década de 1870, e que passou grandes problema durante a 1ª Guerra Mundial, terminada em 1918.

A crítica que Xavier faz à popularização do termo “fascismo” é o uso dele como narrativa política para contrapor a atual guinada conservadora da política nacional. “Há um perigo muito grande quando você passa a banalizar os termos, como, por exemplo, quando qualquer coisa que me desagrade passa a ser chamada de fascismo. Isso também é perigoso. A esquerda precisa criar um discurso do medo que, na verdade, reflete ideais práticos daqueles que por muitos anos ameaçaram nossas liberdades individuais. Durante cerca de 15 anos, o Estado foi aparelhado por um partido, que ultrapassava qualquer liberdade individual para se manter no poder.”
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