18/11/2018 às 07h51min - Atualizada em 18/11/2018 às 07h51min

Um grande mundo invisível aos olhos

Em Uberlândia, existem catalogados 136 terreiros de Umbanda com alvará de funcionamento; vários outros celebram em segredo

NÚBIA MOTA
Foto: Núbia Mota
Em um terreiro de Umbanda tem macumba sim. Nada mais é do que um instrumento musical formado por uma caixa grande com um reco-reco embutido, utilizado durante as cerimônias religiosas. Com o passar do tempo, o termo passou a ser usado de forma pejorativa para se referir àquilo que não se enquadrava nos ensinamentos impostos pelo catolicismo. Na terça-feira (20), é Dia da Consciência Negra, e o Diário de Uberlândia aborda essas e outras questões dessa religião afro-brasileira, surgida nos subúrbios cariocas e que completou 110 anos na última quinta-feira (15). Em Uberlândia, existem catalogados 136 terreiros, todos com alvará de funcionamento, mas a estimativa é que tenha pelo menos o dobro de locais onde é realizada a prática às escondidas, devido ao preconceito da população leiga e até dos próprios praticantes, além da falta de políticas públicas de incentivo à Umbanda. 

Segundo dados do último IBGE, feito em 2010, desde que foi utilizada a autodeclaração, pouquíssimas pessoas se identificaram como umbandistas, não chegando a 3% da população uberlandense, em grande parte católica. Mas segundo o professor e pesquisador das práticas religiosas afro-brasileiras, Cairo Mohamad Ibrahim Katrib, muitos praticantes preferem se identificar como kardecistas ou católicos para o recenseador, como forma de evitar julgamentos. Na próxima quarta-feira (21), Cairo vai defender o pós-doutorado na Universidade Estadual de Maringá (UEM), e traz a pesquisa sobre onde estão os umbandistas e a Umbanda em Uberlândia a partir das políticas públicas nacionais e municipais. “Em virtude de preconceito e discriminação, muitos pais ou zeladores dos santos preferem que isso aconteça na sala ou em um cômodo no fundo do quintal e não é divulgado. As pessoas que sabem, vão participam, mas não tem placa e nem controle da Prefeitura. A gente só percebe pelos atabaques tocados à noite. Essas pessoas estão escondidas nos bairros periféricos”, disse Cairo.

Ainda de acordo com o pesquisador, hoje, a maioria dos participantes da Umbanda é da raça branca e muitos são evangélicos, católicos e espíritas, e tem ainda membros de classes sociais altas, que chegam inclusive a pedir sessões particulares, para ficarem no anonimato. Tem também políticos, principalmente em época de campanha, pedindo ajuda espiritual. Mas além desse preconceito dos próprios praticantes, o professor cita a falta de interesse do poder público em incentivar essa prática religiosa. “Segundo a Constituição, vivemos em uma país laico, em que todos têm o direito de expressar a sua fé. Mas Uberlândia é uma das cidades mais racistas do Brasil e isso ficou arraigado na cultura da cidade. As pessoas desconhecem a prática da Umbanda e do Candomblé e acham que é para o mal, que tem relação com o demônio, o que é uma construção muito mais europeizante do que acontece na verdade”, afirmou o professor de pedagogia da UFU.

A Umbanda traz consigo a história da formação do Brasil, em uma junção de catolicismo, kardecismo e práticas de cultos de matrizes africanas e indígenas. No terreiro mais antigo de Uberlândia, a Tenda Coração de Jesus, fundada em 24 de junho de 1947, por Irene Rosa, no bairro Martins, o altar é composto por santos católicos, como São Jorge e Nossa Senhora Aparecida, e os orixás de referência. Iemanjá, por exemplo, é representada por Nossa Senhora da Conceição, Ogum é São Jorge e Oxalá é Jesus. “Um não é o outro, existe uma correspondência. Por exemplo, sabemos que São Jorge foi um soldado, que venceu muitas batalhas, que não temia a guerra. Esse santo católico foi correspondido pelos negros ao orixá Ogum, que tem essas mesmas características. Quando os negros descobriram quem Nossa Senhora da Conceição era uma mãe amorosa corresponderam a Iemanjá, que também é essa mãe acolhedora”, disse Mirelli Arantes Silva Ferreira, chamada no santo de mãe Mirelli de Oxossi.

Essa correspondência entre santos e orixás, de acordo com mãe Mirelli, se deve ao sincretismo religioso, e remete a história da escravidão, quando os negros vieram para o Brasil com suas próprias crenças e lhes foi imposta a religião católica, assim como ocorreu com os índios. “Eles sofriam vários castigos e por isso eles faziam os altares dentro das senzalas com os santos católicos e por baixo do altar, eles colocavam os assentamentos dos orixás, como uma indumentária, uma pedra da natureza, porque na África não existiam imagens. O culto ao orixá é feito com elementos da natureza. A igreja católica queria exterminar qualquer religião que não fosse ela, mas acabou ajudando a formar a Umbanda”, disse Mãe Mirelli. Além da cultura negra, a Umbanda herdou do catolicismo, por exemplo, o hábito de rezar o Pai-Nosso, a Ave-Maria, os hinos da igreja; do kardecismo, herdou a crença na reencarnação e o diálogo com os espíritos e dos índios, a utilização das folhas, ervas, o cachimbo e o fumo.

Hoje, o termo mais utilizado no lugar de sincretismo religioso, segundo o professor Cairo Katrib, é bricolagem ou hibridismo, com a mesma ideia da manta de patchwork, em que cada pessoa vai incorporando algo diferente na religião e a recriando com o passar dos tempos. “Isso também acontece em outras religiões. Em uma missa, por exemplo, você vê o padre defumando o espaço, vê o padre rezando uma Ave-Maria, um Pai-Nosso, e na Umbanda também tem isso. O que diferencia é que dos lados das imagens dos santos católicos tem também os orixás”, disse Cairo.

CELEBRAÇÃO
O culto na casa, terreiro ou barracão


Durante o rito umbandista, assim como nos centros espíritas, o médium incorpora a entidade, que dá o passe, a consulta e conversa com as pessoas, dando orientações. O local para a realização das cerimônias da Umbanda chama-se casa, terreiro ou barracão, onde também é celebrado batizado, consagração e casamento, mas há várias celebrações ao ar livre, junto à natureza, em rios, cachoeiras ou na praia. Essas cerimônias são presididas por um pai ou mãe,  zeladores dos santos e comandantes da casa, sendo responsáveis também por ensinar a doutrina e os segredos da Umbanda aos discípulos.  “É igual uma consulta do médico. Você fala o que está sentindo, ele avalia e passa o medicamento. Aqui, a pessoa passa o problema para o espírito através do médium, ele faz a avaliação e vê se precisa de uma água fluidificada ou um outro trabalho particular e vai fazer um tratamento. Geralmente, não é mandado fazer nada em casa, porque as pessoas são leigas e não dá resultado. Aqui, no nosso terreiro, quem determina é o preto velho”, disse Mãe Irenê de Nanã, nome dado no santo para Maria Irene Arantes, neta da fundadora da Tenda Coração de Jesus, Irene Rosa.

As vestes mais usadas nestas cerimônias são de cor branca porque é a cor neutra que agrada todos os orixás e guias. Na Umbanda, diferentemente do que muitos imaginam, não se pratica mais o sacrifício de animais. Há muitos anos, o sangue foi substituído por azeite de dendê.

Não se pode pisar em um terreiro de Umbanda com os pés calçados e os ritos são musicalizados com instrumentos de percussão, como o atabaque e a macumba. Como é importante conhecer o ritmo de cada orixá, este aprendizado começa desde a infância. “Eu sou o macumbeiro”, brincou Walisson Arantes Resende, que no santo é pai Walisson de Ogum, responsável por tocar a macumba durante as cerimônias. “No Rio de Janeiro é bem comum chamar a pessoa de macumbeira porque toca o instrumento, mas estamos tentando desmistificar aqui em Minas”, disse ele.

Aos 34 anos, o analista de suporte técnico, assim como todos da família, nasceu no terreiro e conta que o preconceito tanto religioso, como de raça é ainda velado. “Mas estamos aqui para mostrar que a Umbanda é uma religião do bem e dou minha cara a tapa. Quando faço uma entrevista de emprego, faço questão de contar que sou umbandista. Sou muito bem resolvido”, afirmou Walisson.

Diferentemente do que se fala, não existe macumba. O termo correto é oferenda ou trabalho, que é oferecido a um orixá para conseguir emprego, saúde, uma gravidez, entre tantos outros desejos. São feitas, em grande parte, sobre a folha de bananeira, para não degradar a natureza, onde são colocadas comidas, bebidas e cigarros. “Não é feita para prejudicar ninguém. E é feita na encruzilhada, porque representa o universo, com direções para todos os lados. A gente geralmente não faz dentro da cidade, porque respeitamos as outras religiões e para não ter pensamento negativo sobre nossa oferenda. Fazemos na natureza, onde é casa dos orixás e, em 90% dos casos, o pedindo é por saúde física e psicológica”, disse mãe Mirelli de Oxossi.
 
COMPORTAMENTO
Preconceito também no mundo espiritual


De acordo com um programa de cadastramento do Instituto Federal Goiano (IFG), foram mapeadas cerca de 600 casas de religiosidade em Uberlândia, desde de nação, onde é praticado o Candomblé, entre terreiros de Umbanda e espaços kardecistas que também trabalham com entidades da Umbanda. Só de Umbanda, foram catalogados 136 terreiros, mas acredita-se que esse número pode ser o dobro, pois nem todos os locais são regularizados pela Prefeitura e cadastraram no programa.

Hoje, a maioria dos frequentadores da Umbanda são brancos, mas a formação desses locais na cidade se deu pelos negros, onde há suposição de quilombos urbanos como o bairro Lagoinha e o Patrimônio, com um Carnaval de rua representativo e a Festa da Congada, famosa pelo Brasil afora. “Da Congada saíram vários terreiros de Umbanda. Na casa das famílias congadeiras, que trouxeram a festa para Uberlândia, tinha sempre uma salinha com benzeção, para curar quebranto, uma espinhela caída, e essas pessoas acabaram indo para o kardecismo, onde também tinha o preconceito com as entidades da Umbanda, principalmente contra os pretos velhos, que os kardecistas chamam de figuras não desenvolvidas”, disse o professor e pesquisadora Cairo Katrib.

Foi exatamente isso que aconteceu com a fundadora da Tenda Coração de Jesus, Irene Rosa. Em 1939, aos 15 anos e até então católica, ela veio do distrito de Miraporanga, na época chamado de Santa Maria, depois de apresentar problemas de saúde.  Ao ser desenganada pelos médicos, foi levada pelos vizinhos para um centro espírita no bairro Bom Jesus, naquele ano ainda conhecido como Tabocas, e se curou depois de passar por tratamentos espíritas. “Depois disso, ela passou a frequentar outro centro na rua padre Pio, onde devolveu a parte espiritual com o preto velho Pai João da Bahia, mentor da Tenda de Jesus, que pediu que ela construísse um templo na cidade. Ela comprou esse terreno em 1939, fez uma casa de quatro cômodos e a tenda foi fundada em 1947. Construíram um cômodo, que ficou pequeno e foi feito um leilão, cada um trouxe um fecho de lenha, um bolo, uma dúzia de ovos, leiloava e compravam os materiais e os carpinteiros e pedreiros doaram a mão de obra”, disse Mãe Irene, de 65 anos, hoje a figura principal dentro do terreiro mais antigo de Uberlândia, frequentado todas as quartas-feiras, às 19h30, por dezenas de pessoas e com um corpo mediúnico de cerca de 100 integrantes.

DEPOIMENTO

Nasci católica e assim permaneço até hoje, com quase 40 anos de vida. Já fui em igrejas evangélicas e, recentemente, o Diário de Uberlândia me deu de presente a pauta de conhecer uma casa budista. Nunca pisei em um centro espírita e muito menos tinha ido em um terreiro de Umbanda. Cheguei curiosa. Deixei todos os meus “pré-conceitos” de fora daquela casa simples no bairro Martins, a Tenda Coração de Jesus, mas esqueci de tirar os sapatos. Na verdade, não sabia que era preciso entrar descalça no terreiro e cometi essa gafe. Lá, naquele altar cheio de cores, estavam imagens muito familiares na minha formação, como São Jorge montado em seu cavalo, Nossa Senhora Aparecida, Santa Luzia, São Lázaro e Jesus Cristo. Os outros, eu não conhecia. Tinha um índio com o um cocar grande, umas imagens sem rosto e uns pretos velhos de roupas brancas, chapéu de palha e cachimbo na boca. Também vi alguns copos com água e muitos cajados com os nomes das entidades escritos neles.  Pelo calendário de orixás, como nasci em uma segunda-feira, o meu é o Omulú, responsável pela cura das doenças. Se eu fosse uma zeladora do santo, me chamaria mãe Núbia de Omulú. A Umbanda não é uma religião cristã como a minha, mas trabalha em mim a prática do ecumenismo e do respeito pelo diferente, mesmo quando não se trata de fé. Conhecer mãe Irene de Nanã, assim como conhecer a Monja Myoden meses atrás, foi enriquecedor como profissional e pessoa. Não sei se me tornei alguém melhor, como Mãe Irene com certeza é em relação a mim, mas a partir de hoje, nunca mais vou usar a palavra macumba de forma errada. É um instrumento bem parecido com o reco-reco que tocam na Folia de Reis do meu falecido vô Zeca Mota. Sai do terreiro e não encontrei mais os meu “pré-conceitos” aqui  fora. Mãe Irene é especial.
 
UMBANDA

A Umbanda é uma religião afro-brasileira surgida em 1908 fundada por Zélio Fernandino de Moraes. Completou 110 anos na última quinta-feira (15). A palavra umbanda pertence ao vocabulário quimbundo, de Angola, e quer dizer arte de curar.

Origem
A Umbanda é uma religião surgida nos subúrbios do Rio de Janeiro. Em 15 de novembro de 1908, Zélio Fernandino de Moraes, nascido em São Gonçalo, teria incorporado do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Este espírito o teria ajudado a criar a religião de Umbanda. Rapidamente, ela se espalhou por todo Brasil e outros países da América Latina.
 
Crença
As crenças da Umbanda misturam elementos afro, do espiritismo e do catolicismo. Como todas as religiões politeístas, a Umbanda não adora um único deus, e por isso não é considerada cristã. Acredita-se na personificação de vários elementos da natureza e de energia chamadas de orixás. Porém, existe o conceito de um Deus supremo, denominado Oxalá. Os umbandistas creem na imortalidade da alma, na reencarnação e nas leis kármicas.

Orixás
Os orixás são deuses africanos que correspondem a pontos de força da natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas forças. Os orixás encontrados na Umbanda são Oxalá, Xangô, Iemanjá, Ogum e Oxossi, Oxum, Iansã, Omulú e Nanã. Eles são considerados como uma espécie de santos ou anjos e podem se incorporar durante as cerimônias e vir a terra para ajudar as pessoas que necessitam. Oxalá é sincretizado com Jesus, porque é o espírito mais antigo e elevado.

Entidades
São guias espirituais incorporados durante as cerimônias, já que os orixás não incoporam.
As principais entidades que manifestam na Umbanda são:
Caboclos: são espíritos de índios que voltam ao mundo terreno para ajudar pessoas com problemas de saúde.
Pretos velhos: são pessoas que foram trazidos da África para serem escravos no Brasil. Apesar de terem sofrido em vida, agora são espíritos ditos evoluídos que dão ótimos conselhos a quem os procuram.
Baianos: pessoas que viveram na Bahia e que escolheram serem guias e ajudar a quem precisa. Trabalham com emprego, saúde, força moral.
Erês: são os espíritos das crianças. Risonhos e adoram brincar. Consolam os aflitos, os pais e mães e, às vezes, cometem algumas travessuras.
Tem ainda os Boiadeiros, Baianos, Ciganos, Malandros, Exus, Pombagiras, entre outros.

Tipos de Umbanda
Dentro dessa religião existem algumas vertentes, são elas, Branca e Demanda, Kardecista, Mirim, Popular, Omolocô, Almas e Angola, Umbandomblé, Eclética Maior, Aumbhandã, Guaracyana, dos Sete Raios, Aumpram, Ombhandhum, Sagrada, que trabalham em diferentes linhas.
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