14/11/2018 às 07h51min - Atualizada em 14/11/2018 às 07h51min

PMU veta participação de alunos em feira de ciência

Proibição foi motivada por pais que reclamaram de tema sobre ideologia de gênero

MARIELY DALMÔNICA

Alunos e professora de escola do distrito de Martinésia estiveram na feira ontem | Foto: Mariely Dalmônica
Alunos de escolas municipais foram impedidos de apresentar trabalhos na Feira Ciência Viva, realizada na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) na segunda-feira (12) e na terça-feira (13). De acordo com professores e estudantes participantes, a Prefeitura de Uberlândia havia vetado dois trabalhos que falavam sobre identidade de gênero, mas antes do início da feira, foi pedido que nenhum grupo da rede municipal participasse da exposição.

A reportagem do Diário procurou a Prefeitura na segunda e na terça, mas até o fechamento desta edição não havia recebido nenhum posicionamento.
A Ciência Viva é uma exposição anual e municipal aberta ao público, em que estudantes da educação básica das instituições de ensino público e privado de Uberlândia, nas modalidades de ensino regular (ensino fundamental e médio), educação profissional técnica de nível médio e educação de jovens e adultos (EJA), compartilham suas experiências e apresentam trabalhos científicos.

Segundo Adevailton dos Santos, professor do Instituto de Física da UFU e organizador da Feira Ciência Viva, 35 grupos da rede municipal foram selecionados para a edição deste ano. “A Prefeitura é uma parceira da feira, nós tentamos entrar em contato, mas não tivemos retorno. Segunda de manhã nenhum aluno apareceu, à tarde nove vieram apresentar, e taparam o nome da escola.”

De acordo com o organizador da feira, o tema do evento é “Ciência para a redução das desigualdades”. “É uma temática nacional feita pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A palavra ciência engloba todas as ciências, humanas, sociais, exatas. Às vezes as pessoas confundem, pensam que é só Biologia, e as discussões de gênero poderiam fazer parte da temática sim. Também tinha trabalho sobre adoção, sobre economia doméstica, para redução de consumo de energia”, afirmou Adevailton.

A questão que gerou polêmica foi levada ao conhecimento da Prefeitura na última sexta-feira (13). O vereador Doca Mastroiano (PR) disse que recebeu reclamações de três pais de alunos de escolas públicas que não teriam concordado com pelo menos dois temas abordados na feira – ambos relacionados à ideologia de gênero. Ainda segundo o vereador, os pais – cujos filhos não eram necessariamente das turmas que apresentariam esses temas – não tiveram acesso ao conteúdo dos trabalhos, o que gerou a preocupação.

“No mesmo espaço iria ter crianças de 8 e de 18 anos, quem garante que elas (as de 8 anos) não veriam isso?”, disse Doca.
Após receber a queixa dos pais, o vereador se reuniu com o prefeito Odelmo Leão e disse que na reunião ficou definido que somente os trabalhos que tratavam da questão de ideologia de gênero é que seriam vetados. “Depois que fiquei sabendo que nenhuma escola municipal participou”.

Segundo a mãe de uma aluna da Escola Municipal Professor Sérgio de Oliveira Marquez, antes de serem levadas para o evento, as temáticas são apresentadas para a escola e para a Prefeitura previamente. “Inicialmente foi vetado um trabalho sobre gênero na escola. Mas na segunda-feira vetaram todos os grupos, cerca de 15. Os projetos foram realizados em um longo processo, tem aproximadamente cinco meses”, disse ela.

Lucimeire Cardoso, professora de Geografia da Escola Municipal Antonino Martins da Silva, do distrito de Martinésia, disse que foi à feira como visitante, co-orientadora de um aluno “e pelo compromisso que tenho com a ciência. A gente se dedica e vem pensando nos trabalhos desde o início do ano, toda a escola estava envolvida. Hoje [ontem] só veio um grupo. Nossos alunos estão desolados, desmotivados e decepcionados. Como eles estão na zona rural, acham que a universidade é muito distante para eles, mas a gente não pode desanimar”, afirmou a professora.

Luan Pereira é aluno do 9º ano do distrito de Martinésia e bolsista de um projeto da UFU. Ele foi apresentar o trabalho sem representar a escola e sem o apoio da Prefeitura. “Eu liguei na Prefeitura, na inspeção, e falei com uma mulher. Ela disse que eu iria poder apresentar, mas fiquei esperando a liberação e nada. A gente veio mesmo sem transporte”, disse o estudante.
 
POSICIONAMENTOS
 
Cláudia Guerra, doutora, voluntária do Núcleo de Estudos de Gênero, vice-presidente do Conselho dos Direitos das Mulheres e presidente da ONG SOS Mulher e Família, disse que a atitude da Prefeitura viola os direitos humanos. “Fico indignada com tanta distorção. Cabe à educação tratar dessas questões, para promover a igualdade de gênero. Foi um desserviço, por desinformação, desconhecimento ou por má fé.”

Para Cláudia, discutir gênero promove informação e reduz desigualdade. “A gente discute gênero para ter salários iguais, para não ter violência doméstica, para saber dividir as tarefas em casa. Desde quando mãe, vereador e prefeito definem grade de escola?”

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFU publicou uma nota de repúdio sobre o assunto no Facebook. Nela, o diretório afirmou que os alunos possuíam um termo com autorização dos pais para a participação e os projetos haviam sido submetidos a avaliação antes de serem apresentados.
“A ação se deu por conta de uma família que entrou em contato com alguns vereadores da cidade solicitando intervenção nos projetos sobre gênero, por não estar satisfeita com o tema, que sequer pertencia ao trabalho da criança pela qual é responsável e pautado numa feira que discutia justamente a Redução de Desigualdades sob diversos meios”, diz a nota.

Na publicação também consta que o Diretório “lamenta ainda mais por algo assim ter se passado dentro de nossa universidade, que em seu próprio regimento tem como princípios e objetivos ‘pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; orientação humanística e a preparação para o exercício pleno da cidadania; preservar e difundir os valores éticos e de liberdade, igualdade e democracia’.”

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