18/08/2018 às 08h55min - Atualizada em 18/08/2018 às 08h55min

Um olhar sobre os papéis de gênero

Estudo aponta que uberlandense ainda relaciona mulher a atividades domésticas

DIELEN BORGES | COMUNICA UFU
MARCO CAVALCANTI/DIRCO UFU
O que os uberlandenses pensam sobre divisão de papéis de gênero na família? Para responder a essa pergunta, o grupo de pesquisa Eclipse, do Laboratório de Ideologia e Percepção Social da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) entrevistou, no ano passado, 649 pessoas nas ruas da cidade. O resultado confirmou o referencial teórico sobre o tema: os homens são predominantemente vistos como provedores e as mulheres como cuidadoras.

O estudo foi defendido como dissertação de mestrado pela psicóloga Raianne Silva Calixto, orientada pelo professor João Fernando Rech Wachelke, no primeiro semestre deste ano, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, na área de Psicologia Social. O trabalho completo está disponível no Repositório Institucional.

A PESQUISA

Os questionários foram aplicados a 366 mulheres e 283 homens nas ruas de Uberlândia, em locais de grande circulação, em diferentes horários e dias da semana. Foram maioria os católicos (44,2%), com renda entre dois e cinco salários mínimos (23,8%), que estudaram até o ensino médio (58,7%), solteiros (33,1%) e sem filhos (60,5%). O recorte da pesquisa foi a família nuclear, composta por pai, mãe e filhos, devido à “prevalência e importância desse modelo, mesmo nos dias atuais”, afirma a psicóloga.

“Os participantes avaliaram atividades realizadas por pais e mães em famílias, e indicaram se correspondem, em suas opiniões, a atribuições do homem ou da mulher. Foram apresentadas 12 atividades ou situações, divididas em três categorias: divisão de despesas e trabalho, tarefas domésticas e cuidado e educação dos filhos”, explica Calixto.

Havia cinco opções de resposta: quase sempre do homem, quase sempre da mulher, mais do homem, mais da mulher e de ambos igualmente. Além de opinar, os participantes descreviam uma família concreta que conheciam, dando exemplos de práticas. “Assim, seria possível caracterizar opiniões próprias que podem ser idealizadas e também práticas de grupos familiares concretos do contexto do participante”, esclarece a pesquisadora.

"As respostas foram submetidas à análise de correspondência, que relacionou as variáveis de respostas com os dados demográficos, e a partir dela foram realizados cruzamentos entre as variáveis demográficas e as respostas de opinião que representaram maior contraste", explica Calixto.

As atividades mais associadas às mulheres foram: cozinhar no dia a dia, limpar a casa, levar os filhos ao médico, lavar a louça e acompanhar as atividades escolares dos filhos. Os itens mais relacionados aos homens foram: realizar consertos em casa, pagar as despesas da família e trabalhar fora de casa.

Relacionados a ambos os gêneros, mesmo que predominantemente às mulheres, estiveram: fazer compras no supermercado, interferir quando os filhos fazem algo errado, levar os filhos à escola e brincar com eles. “Foi onde a gente questionou: será que esse ‘ambos’ significa que os dois fazem igual, demonstrando uma postura igualitária, ou que quando o homem faz, ele faz como uma ajuda?”, problematiza Calixto.

A análise de correspondência revelou alguns detalhes importantes. “As pessoas mais novas, de 20 a 29 anos, tendem a ser mais igualitárias, tendem a responder mais como sendo ambos [os responsáveis por cada tarefa] do que as pessoas de 40 a 49 anos, que opinam mais como ‘mais o homem’ ou ‘mais a mulher’”, observa a pesquisadora.

“Não conseguimos mensurar, e fica como sugestão para uma próxima pesquisa, se isso significa que as pessoas mais novas estão pensando de forma mais igualitária, e que isso vai se refletir futuramente, ou se, quando elas ficarem mais velhas, elas vão pensar como as atuais de 40 a 49 anos”, afirma Calixto.
A psicóloga acredita que a pesquisa possa contribuir para discutir “um modelo cultural quase impensado, automático, e forçar uma reflexão a respeito dessa realidade”.

Segundo Calixto, a pesquisa demonstra que há maior sobrecarga às mulheres no que se refere às atividades familiares. “Talvez constatar isso pode justificar medidas para promover mudanças”, afirma.
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