21/05/2018 às 09h36min - Atualizada em 21/05/2018 às 09h36min

Uberlândia é a 3ª cidade com maior número de imigrantes em Minas

Dados do Governo de Minas e da Polícia Federal estimam que cerca de mil estrangeiros vivem aqui atualmente

MARIELY DALMÔNICA | REPÓRTER
O senegalês Biram Ba vive atualmente em Uberlândia | Foto: Mariely Dalmônica
 
Sotaques internacionais vêm se misturando ao linguajar de Uberlândia. Haitianos, libaneses, venezuelanos e outros imigrantes vieram para a cidade em busca de uma vida melhor, de um novo emprego ou apenas para conhecer e acabaram ficando. Estima-se que cerca de mil estrangeiros tenham escolhido aqui como moradia. É o caso de Biram Ba, de 37 anos, que nasceu no Senegal, na África Ocidental e que já morou algumas vezes na França. Mas quando ele conheceu o Brasil decidiu ficar por aqui. “Eu cheguei em 2009 sem saber falar português, mas achei as pessoas muito acolhedoras e recebi muita ajuda”, disse.
 
Mesmo contra a vontade da família, Biram Ba veio. Primeiro ele chegou a Fortaleza, depois foi para São Paulo encontrar alguns amigos e por último tomou o destino de Uberlândia para trabalhar em uma empresa de alimentos. “Na época, também comecei a dar aulas de francês em algumas escolas e só depois abri a minha própria escola. Eu gosto muito do que faço e quero sempre compartilhar o que sei”, afirmou o senegalês formado em seu país em Comércio de Exterior e em Letras.
 
Ele tem familiares no Senegal, na França e no Canadá. Nenhum veio ao Brasil ainda e nem conhecem a sua esposa, a uberlandense com quem ele se casou há quase dois anos. “Acredito que parte da minha família venha em julho e depois eu e minha esposa vamos visitar a França”, disse o professor que já se naturalizou Brasileiro.
 
Como mora na cidade há nove anos, ele é bastante procurado por outros imigrantes que se mudam para cá. “Eu ajudo eles a se regularizarem aqui e a encontrarem emprego. Nada chega tão fácil na vida, tudo é preciso lutar, e eu penso grande”.
 
 
PROCESSO

Maioria dos que chegam são haitianos

Imigrantes que chegam à cidade devem procurar a Polícia Federal (PF) para regularizarem a sua documentação. De acordo com Eduardo Silva, gerente administrativo do posto da Polícia Federal que fica na Unidade de Atendimento Integrado (UAI), cerca de quatro mil imigrantes já buscaram regularizar a situação junto à PF em Uberlândia. “Não temos um número exato, porque alguns imigrantes podem se mudar daqui e outros podem ainda não ter feito o cadastro. Mas atualmente cerca de mil imigrantes residem aqui. Nos últimos anos houve um crescimento grande de venezuelanos na cidade, devido à crise por lá. Mas a maioria dos imigrantes são haitianos”.
 
Esse número está de acordo com uma pesquisa realizada pelo Governo de Minas Gerais. Segundo dados de uma pesquisa do Estado, cerca de 16.550 imigrantes vivem no estado e a maioria é do sexo masculino. Belo Horizonte é o município com a maior concentração (36,9%), seguido por Contagem (8%) e depois Uberlândia (5,8%).
 
Ainda de acordo com o levantamento, Minas Gerais desperta interesse nos imigrantes por questões de oportunidades de estudo e profissionais, clima e belezas naturais.
Quase 30% dos imigrantes que vivem em Minas trabalham em indústrias e grande parte também está presente no setor de serviços, no comércio e na construção civil.
 
Esse levantamento foi feito pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac) e pelo Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação do Trabalho Escravo (Comitrate).
 
Rodson Belizaire, de 20 anos, está em Uberlândia há cerca de um ano. Ele saiu do Haiti, seu país natal, em busca de uma vida melhor e um bom emprego no Brasil. Atualmente mora no bairro Custódio Pereira, zona leste, onde também se concentram muitos haitianos. Ele veio para a cidade justamente porque já sabia de outros estrangeiros viviam aqui. “Para mim, Uberlândia é um lugar tranquilo, muito bom para trabalhar e perfeito para quem quer mudar de vida. As pessoas são felizes aqui”, contou Belizaire que fala o idioma crioulo, mas faz aulas de português duas vezes na semana para aprender o nosso idioma.
 
Rania Alwan morava no Líbano e se mudou para Uberlândia há 11 anos em função de uma guerra em seu país. “Eu e meu marido viemos para cá e nos mudamos para a casa do meu cunhado, que já morava aqui”. Há 10 meses Rania abriu uma lanchonete que vende comidas típicas libanesas no centro da cidade e se diz feliz com os elogios dos seus clientes.
 
Ela escolheu a cidade para ficar perto de um familiar e atualmente já domina bem o idioma português. Ela e o marido tiveram uma filha e a família gosta bastante de Uberlândia. “Eu voltei ao Líbano só para visitar a minha família. Minha mãe também veio para cá, mas ficou apenas três meses para nos ver e conhecer a cidade”, contou Rania.
 
Ainda segundo a pesquisa realizada pela Sedpac, os imigrantes que moram em Minas vieram de 10 diferentes países. A maioria deles veio do Haiti (11,3%), seguidos da Colômbia (8,2%), Portugal (7,2%), China (7,1%) e Itália (7%). A pesquisa também destacou que há 183 refugiados ou solicitantes de refúgio registrados no estado.


Rania Alwan, do Líbano, hoje tem uma lanchonete em Uberlândia | Foto: Mariely Dalmônica
 
ACOLHIMENTO

Imigrantes têm apoio do Governo e de ONG

Imigrantes que se mudam para a cidade também têm direito ao Cadastro Único para programas sociais do Governo Federal. De acordo com informações da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação, até abril deste ano, 36 imigrantes procuraram a Prefeitura Municipal de Uberlândia para se cadastrarem no CadÚnico. No ano passado, a Prefeitura atendeu haitianos, venezuelanos e argentinos.
 
Ainda de acordo com a Prefeitura, imigrantes em situação de rua são atendidos como qualquer outro cidadão e são acolhidos em albergues subvencionados pelo município. Eles também são orientados a retirar documentos pessoais e encaminhados para vagas no mercado de trabalho.
 
O pastor Assis Marques coordena um programa para haitianos junto à Fundação Filadélfia, organização sem fins lucrativos que tem uma unidade em Uberlândia. Ele disse que os imigrantes chegam na cidade em busca de novas oportunidades e procuram a igreja. “Nós os acolhemos, damos apoio espiritual e suporte para conseguirem documentação e emprego”.
 
Ainda segundo Marques, o programa atende cerca de 170 haitianos que frequentam igrejas nos bairros Tocantins e Tibery. O pastor contou que alguns imigrantes procuram a igreja para se casarem em Uberlândia. “Eles formam famílias e têm filhos aqui na cidade”.
 
A Organização Não Governamental (ONG) Enactus, composta por estudantes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), acompanha 15 haitianos no projeto Nidus. Ruth Montecino é gerente do projeto e dá aulas para os imigrantes. Ela explica que o objetivo do grupo é praticar o empreendedorismo social. “Nele a gente auxilia imigrantes e refugiados a terem um lugar na sociedade com dignidade. Nós ensinamos língua portuguesa, legislação e cultura.”
 
Atualmente, o projeto conta com cinco estudantes da UFU que dão aulas duas vezes por semana na Escola Estadual João Rezende, no bairro Custódio Pereira. O local foi indicado por uma assistente social da Prefeitura e os próprios alunos procuram a escola para participarem das aulas.
 
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