18/03/2018 às 05h01min - Atualizada em 18/03/2018 às 05h01min

As histórias e contradições da João Naves de Ávila

O trajeto de uma das principais vias da cidade se confunde com a própria narrativa de Uberlândia

WALACE TORRES | EDITOR
A avenida mais extensa do município representa um divisor no progresso e na transformação de Uberlândia | Foto: Daniel Peixoto/Divulgação

Onde hoje passa o ônibus, antes passava o trem. O mesmo imóvel que abriga uma igreja evangélica já foi palco de uma das mais agitadas casas de shows da cidade. O espaço que atualmente abriga uma concessionária de veículos já recebeu aviões. E a antiga sede de um curtume, se tornou o shopping de maior movimento da cidade.

Histórias e contradições. O trajeto de uma das principais vias da cidade se confunde com a própria narrativa de Uberlândia. Durante décadas, o trecho onde foi construída a avenida João Naves de Ávila era considerado um divisor da cidade por causa da linha de ferro da antiga Companhia Mogiana, que vinha dos lados de Araguari, atravessava toda a extensão da Monsenhor Eduardo e seguia pela João Naves em direção a Uberaba. A desativação do antigo percurso e a retirada dos trilhos, em 1970 na gestão do prefeito Renato de Freitas, também marcou uma divisão no ritmo de desenvolvimento da cidade. 

Se até àquela época a linha de ferro foi responsável por trazer o progresso, a saída dos trilhos da região central acelerou a mudança de cenário. No lugar de trilhos, abriu-se uma avenida que se tornou uma das mais movimentadas da cidade. 

Hoje, a João Naves de Ávila continua sendo o principal ponto de chegada a Uberlândia, via terrestre, para quem vem de Belo Horizonte, São Paulo e várias cidades da região. É também uma avenida que tem vida própria. Nela, se encontra de tudo um pouco. Ou muita opção de um mesmo segmento. Só de hotéis são pelo menos 10. Lanchonetes são dezenas, assim como bares e restaurantes. Tem também igrejas, unidade de saúde pú- blica (UAI Pampulha), academias, pizzaria, churrascarias, oficinas mecânicas, pet shop, floricultura, universidade (UFU), escritórios de advocacia, autoescolas, unidade de serviços (UAI Estadual), sede do Poder Legislativo Municipal, da Polícia Federal, base da Settran, postos de combustível, enfim, basicamente tudo que alguém precisa no dia a dia.

Pelas referências é fácil perceber que a João Naves de Ávila é uma via pública essencialmente comercial. Segundo dados da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano, são 1.040 CNPJs ao longo dos 8,5 quilômetros de extensão.

A via que inicia no cruzamento com a avenida Fernando Vilela, na praça Sérgio Pacheco, e termina na BR-050 recebeu o primeiro corredor de ônibus da cidade, implantado em 2006, com extensão de 7,5 km em cada sentido e conta com 13 estações que movimentam uma média de 450 mil passageiros/mês. O tráfego de veículos também é intenso, com média de 600 mil veículos por mês somente nos principais cruzamentos (com rua Prata, Floriano Peixoto e Nicodemos Alves dos Santos).

O advogado e consultor de imóveis José Maurício Borges trabalhou na empresa que construiu a avenida João Naves de Ávila, na dé- cada de 1970, na gestão do prefeito Virgílio Galassi. “Durante visita à obra, o prefeito me disse que tinha projeto de implantar na avenida o sistema VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) até a fazenda do Glória”, conta. A ideia, no entanto, não foi adiante nas administrações posteriores e acabou dando lugar ao BRT, um sistema integrado de transporte por ônibus – recentemente foi realizado pela Universidade Federal de Uberlândia um estudo de viabilidade sobre a implantação do VLT, passando ainda por outras avenidas.

CURIOSIDADES

Ao longo do tempo, a João Naves de Ávila acumulou histórias e curiosidades contadas por quem vivenciou os anos de progresso e transformação da cidade. O pai de José Maurício Borges era ferroviário e trabalhava na estação, que funcionava em prédio onde hoje está o Terminal Central. Ele conta que ia levar almoço para o pai e ficava acompanhando o serviço boa parte do dia. “Ele era responsável pela composição. Fazia o cálculo das cargas e a quantidade de vagões que seriam engatados na locomotiva”, conta José Maurício, frisando que aos sete anos de idade já sabia fazer contas matemá- ticas apenas observando o ofício do pai.

O radialista e ex-vereador Neivaldo Silva, mais conhecido como Magoo, morou na avenida João Naves de Ávila na altura do cruzamento com a Segismundo Pereira. “A avenida tinha um desnível de mais ou menos cinco metros de altura. Para atravessar, a gente descia o buraco do trem, passava em cima dos trilhos e subia. Brinquei ali muito tempo, jogava pedra e mamona no trem”, diz. 

Apesar de não ser perceptível para quem trafega, a avenida corta dois córregos: o Jataí (sob a avenida Anselmo Alves dos Santos) e o São Pedro (sob a Rondon Pacheco). No decorrer dos anos os dois córregos foram canalizados, o que segundo especialistas, têm contribuído para alagar alguns trechos de vias durante as chuvas mais intensas. 

Na época de construção da ferrovia, esses córregos foram um desafio para os engenheiros, que tinham que lidar ainda com o relevo ao longo do trajeto. Magoo lembra de uma história contada pelo avô para explicar o porquê da avenida ter um traçado sinuoso. “Para fazer a ferrovia, meu avó conta que eles enchiam as mulas de carga, soltavam e vinham atrás, porque elas, por instinto, pegavam os lugares mais rasos dos córregos”.

Outra curiosidade citada pelo radialista é o traçado da antiga rua Uberaba, que cruza com a avenida João Naves de Ávila três vezes, sendo que em cada trecho leva um nome diferente. A via começa na própria João Naves com o nome de rua Joaquim Cordeiro, ainda no Centro, depois recebe o nome de Nicodemos Alves dos Santos após o viaduto sobre a Rondon Pacheco, tendo sequência como travessa Uberaba após cruzar com a João Naves, à qual se encontra novamente no início do bairro Santa Mô- nica (na região do antigo Jardim Finotti).

ZONA DE MERETRÍCIO

Casas de programas disputavam concorrência

Antes mesmo da retirada dos trilhos da Mogiana, o caminho da futura avenida, nas proximidades do antigo fórum, era conhecido como uma zona de meretrício. Por ali, se instalaram cabarés, boates e casas de prostíbulos que atraíam não somente gente da cidade, mas também passantes, e que tiveram seu auge entre as décadas de 1970 e 1990.

O comerciante Jamel Aref morava na Cesário Alvim e brincou bastante nos trilhos, mas lembra que a partir das 19h o movimento na região da João Naves mudava completamente. Ele conta que um dos locais mais “agitados” era o “Bar do Tarcísio”, que funcionava onde hoje está o Edifício Uberlândia 2000. “O negócio era nervoso”, cita Jamel, que aos 7 anos de idade passava o fim de tarde na casa do filho do dono do bar só reparando a movimentação.

Hoje, aos 53 anos, Jamel tem uma lanchonete de comida árabe na mesma região da João Naves de Ávila onde cresceu. Quase de frente ao estabelecimento, ele conta que o prédio onde tem uma loja de roupas infantis já foi espaço para outra casa bastante frequentada, a da “Tia Rosa”.

Alguns metros dali, do outro lado da rua, a fachada de uma das boates mais conhecidas do “pedaço” ainda preserva as mesmas características. A Star Night marcou época na João Naves de Ávila ao exibir shows com strip-tease. “Não era lugar de programa. O pessoal frequentava e depois ia para o motel”, diz o empresário Nélio Bernardes, dono da boate. Ele conta que antes da boate, teve uma oficina mecânica na avenida em meados da década de 1970. “Depois abri a Star Night para fazer concorrência com outra (...) Era pequena, mas bem movimentada”.

HOMENAGEM A JOÃO NAVES

A avenida que seguiu o leito da antiga estrada de ferro é considerada a mais extensa de Uberlândia e homenageia um dos maiores pecuaristas do início do século passado. João Naves de Ávila nasceu em Dores de Santa Juliana – atual Santa Juliana – em 18 de agosto de 1892. Chegou a Uberlândia aos 17 anos com os pais José Esteves de Ávila e Joana Rosa Naves. Comprou um açougue e ao longo dos anos adquiriu várias fazendas até abrir o próprio frigorífico, Omega, às margens do rio Uberabinha, em sociedade com Nicomedes Alves do Santos.

João Naves de Ávila era casado com Alda Custódio Naves, com quem teve sete filhos - Iracema, Ubaldo, João Naves Filho, Maria Custódio, Cícero, José Naves e Ubaldina.

No início da década de 1930 foi nomeado Conselheiro do Município, o que lhe permitiu assumir interinamente a Prefeitura de Uberlândia durante licença do prefeito, em ato assinado pelo então presidente de Minas Gerais Olegário Maciel.

Em 1948 fez parte da primeira diretoria do Sindicato Rural de Uberlândia. Faleceu em 7 de maio de 1970. Em julho do mesmo ano, o vereador Adriano Bailoni Júnior apresentou projeto de lei que homenageava o ex-pecuarista na denominação da avenida. O projeto só foi aprovado no ano seguinte, mas precisou ser retificado três meses depois em nova votação porque o texto original previa apenas o nome João Naves.
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