21/08/2017 às 05h35min - Atualizada em 21/08/2017 às 05h35min

Desmatamento no norte de Minas ameaça rios e biomas

Januária teve área desmatada equivalente a seis mil campos de futebol

DA REDAÇÃO
Estudos indicam que a Mata Seca levaria cerca de 100 anos para se regenerar / Foto: Amanda Rossi via Visualhunt

 

Nos últimos três anos, o município de Januária foi o campeão absoluto em desmatamento entre 18 municípios localizados na Bacia do Médio São Francisco, na região norte de Minas Gerais. Os dados do monitoramento contínuo obtidos pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) por meio de imagens de satélite revelaram que, de 2014 até o último mês de junho, a área total desmatada em Januária alcançou 6.145,77 hectares, o equivalente a seis mil campos de futebol.

Em seguida, na lista dos maiores desmatadores da região, vêm os municípios de Chapada Gaúcha e Urucuia, no noroeste do estado, com respectivamente 2.287,09 e 1.801,19 hectares de vegetação nativa erradicadas para a implantação de culturas agrícolas extensivas, em especial para a produção de grãos.

Bonito de Minas e São Francisco, na mesma região, são os outros dois municípios que ultrapassaram milhares de hectares desmatados no período de 2014-2017, com áreas totais de 1.658,62 ha e 1.375,87 ha cada um.

"Os números chamam a atenção especialmente quando se considera que os seis municípios estão localizados em uma região que se caracteriza pelo clima seco e estiagem prolongada, problemas que o desmatamento só faz agravar", observa o procurador da República Sérgio de Almeida Cipriano, coordenador geral da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) de Minas Gerais.  Os municípios citados foram alvo da inédita operação de fiscalização realizada em julho por 160 agentes de 15 diferentes órgãos públicos federais e estaduais.

Naquele trecho da bacia do São Francisco predominam os biomas Cerrado e Caatinga, com alguns resquícios de Mata Atlântica. A região ainda apresenta fases de transição de difícil caracterização, às vezes como manchas inclusas em outras formas de vegetação, como é o caso da chamada Mata Seca, das veredas e campos de várzeas.

O procurador da República Antônio Arthur Barros Mendes, que também atuou na coordenação da FPI, lembra que a retirada da cobertura vegetal aumenta o processo erosivo, causando o empobrecimento dos solos e o assoreamento de rios e lagos em razão do aumento da sedimentação. "Além disso, com o rebaixamento do lençol freático, resultante da menor infiltração da água das chuvas no subsolo, reduz-se a produção hídrica e a evapotranspiração, ocasionando, por sua vez, diminuição dos índices pluviométricos e, por fim, elevação das temperaturas locais e regionais como consequência da maior irradiação de calor para a atmosfera a partir do solo exposto". 

Estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente ao governo mineiro, para o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN), divulgado há cerca de dois anos, apontou que diversos municípios do norte de Minas, incluindo as 18 localidades alvo da FPI, estão em acelerado processo de desertificação devido a ações antrópicas tais como atividades intensas de agricultura e pecuária, desmatamento indiscriminado e irrigação mal planejada.

Na prática, o que se vê é que, com o perecimento de vários rios que abastecem a região, tornou-se cada vez mais comum o abastecimento das cidades a partir de poços tubulares profundos, os chamados poços artesianos. Esse é o caso, por exemplo, dos municípios de Brasília de Minas, Lontra, Formoso, Pintópolis, Juvenília e Montalvânia.

Antônio Mendes ressaltou que a situação da bacia do São Francisco impõe uma tomada de posição não só dos órgãos de estado como de toda a população da região. "Por isso, os trabalhos empreendidos pela FPI abordaram várias frentes, entre flora, fauna, irrigação, captação irregular da água, além de problemas sanitários e de saúde pública, já que as questões ambientais não são isoladas ou estanques. Pelo contrário, elas se influenciam mutuamente", conclui o procurador da República.

 

BIOMAS 

De acordo com os órgãos participantes da Fiscalização Preventiva Integrada , o desmatamento atinge indiscriminadamente todos os biomas, provocando desequilíbrios ambientais que acabam se refletindo na crescente deterioração do rio São Francisco e de seus afluentes.

"O cerrado, por exemplo, é considerado o berço das águas brasileiras, especialmente porque é na sua área de ocorrência que estão localizados os três grandes aquíferos que abastecem boa parte do país: Guarani, Urucuia e Bambuí. Não é difícil concluir, portanto, que seu desmatamento acaba sendo uma das principais causas da crise hídrica em nosso país. Imagine então as consequências para uma região que, por suas características físico-climáticas, já se ressente da falta de água, como é o caso do Norte de Minas", lembra o superintendente em Estratégia e Fiscalização da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), Marcelo da Fonseca.

Marcelo afirma que o cerrado brasileiro está desaparecendo, restando apenas 20% de sua área original, sendo que esse processo acelerou-se fortemente nos últimos 50 anos, quando metade de sua vegetação original foi desmatada, em grande parte para a transformação da área em pasto. 

Uma das mais graves consequências do desmatamento do Cerrado é a destruição das nascentes. Durante o período de chuvas, a água penetra o solo e fica armazenada na rocha porosa, para, daí, ser distribuída. Estima-se que, em diferentes proporções, o Cerrado abasteça oito das 12 regiões hidrográficas do país. Essa água armazenada no subsolo ainda responde por cerca de 90% da vazão dos rios do bioma.

O problema é que, com o desmatamento, a água que deveria penetrar o solo, para alimentar aquíferos e lençóis freáticos, escorre pela superfície e se evapora, diminuindo a vazão dos rios, a produção de recursos hídricos e, consequentemente, a própria ocorrência de chuvas. "Ou seja, a falta de chuvas provocada pelo desmatamento acaba prejudicando a própria 

Os outros biomas existentes na região do Médio São Francisco também estão severamente ameaçados. A caatinga, por exemplo, é um bioma único no mundo, porque grande parte das espécies de animais e plantas endêmicos dessa região não é encontrada em nenhum outro lugar do planeta. Esse patrimônio ambiental ainda é pouco estudado e corre grande risco de sequer chegar a ser totalmente identificado, devido ao avanço do desmatamento sobre as áreas de sua ocorrência.

A Mata Seca, por sua vez, encontrada na zona de transição entre Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, é assim chamada pela aparência que adquire durante o período de estiagem, quando suas árvores perdem quase completamente as folhas como forma de se preservar diante da falta d'água e em decorrência de solos geralmente muito pobres em nutrientes. Com a chegada das chuvas, a Mata Seca se transforma em uma espécie de floresta tropical, com grande variedade de formações vegetais e fauna variada: nela habitam onças, antas, vários anfíbios, e alguns animais ameaçados de extinção, como os jacús-estalo e micos-prego-do-peito-amarelo.

Especialistas afirmam que, depois de derrubada, a Mata Seca, que é considerada parte do bioma Mata Atlântica, não se recuperaria em menos de 100 anos, o que demonstra a gravidade dos danos ambientais que decorrem de sua erradicação.

 

SAIBA MAIS

Números da fiscalização quanto ao desmatamento ilegal
 

- 109 propriedades rurais foram fiscalizadas, sendo 25 em função do desmate em lagoas marginais

- Área total embargada: 6.040 hectares

- Foram apreendidos 410 caminhões de lenha, 49 metros cúbicos de carvão, 160 stéreis de lenha, um trator e 275 cabeças de gado que se encontravam em área de lagoas marginais


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