30/07/2017 às 05h15min - Atualizada em 30/07/2017 às 05h15min

Weliton Prado votará pela saída de Temer

Deputado Federal que já foi do PT defende eleições diretas e constituinte exclusiva para a Reforma Política

WALACE TORRES | EDITOR
Weliton Prado: "mantenho a mesma atuação e a coerência" / Foto: Walace Torres

 

Único deputado federal no Partido da Mulher Brasileira (PMB), o ex-petista Weliton Prado prefere esperar quais mudanças serão aprovadas na reforma política em discussão no Congresso Nacional para decidir em qual legenda disputará a eleição do próximo ano. Independentemente da decisão, ele afirma que irá votar pela abertura de processo contra o presidente Michel Temer, além de defender eleições diretas antes de 2018 e uma Constituinte exclusiva como forma de pacificar a disputa política no país.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Comércio, o deputado federal também falou sobre os motivos que levaram sua saída do PT e mencionou o “balcão de negócios” que se transformou a relação entre governo e o Congresso para tentar emplacar as reformas e evitar que o presidente sofra novo processo de impeachment.

 

Diário - Como defensor da redução da tarifa de energia elétrica, o senhor tem acompanhado a decisão do governo federal de leiloar três usinas daqui do Triângulo Mineiro (São Simão, Jaguara e Miranda) que hoje estão sob a concessão da Cemig? Se isso acontecer, pode significar um reajuste para o consumidor.

Weliton - Estamos acompanhando e inclusive fizemos uma solicitação junto com toda a bancada mineira, o presidente da Cemig esteve presente, defendendo Minas Gerais. Esperamos que a população saia vitoriosa e que não tenhamos mais um aumento da tarifa de energia, apesar de discordar, porque se vai ter um leilão esse recurso teria que ser utilizado para amortizar a tarifa, teria que ser utilizado a bem do consumidor. Esse ano nós conseguimos impedir mais um aumento. Mais uma vez fui o único parlamentar presente na reunião da Aneel. Houve uma redução média de 10%, para os consumidores residenciais a redução foi de 6% e para a indústria, em torno de 20%. É muito pouco, mas pelo menos conseguimos impedir que tivesse o aumento da energia em Minas, uma das mais caras do país.

 

Por falar em impostos, tem mais aumento por vir.

Aqui em Minas o consumidor é penalizado duas vezes. Teve esse aumento do governo federal para os combustíveis, mais de R$ 0,40, e a nível estadual teve o projeto do governo na Assembleia para aumentar o ICMS para os combustíveis, que vai ser um impacto maior ainda esse ano. Portanto, a sensação do aumento vai ser mais pesada para o mineiro porque aqui a nossa carga tributária é muito elevada e injusta. O grande problema em Minas Gerais é a questão dos impostos. Só de ICMS a gente paga mais de 43%, um absurdo. O atual governo prometeu reduzir ICMS e não cumpriu, inclusive entramos com ação no Ministério Público quando o governo apresentou o projeto de aumento do ICMS na Assembleia Legislativa.

 

Com esses aumentos, o governo corre o risco de perder a maioria na Assembleia? Em nível federal isso também pode acontecer?

Nós cumprimos o nosso papel institucional. Independente de quem seja o prefeito, o governador e o presidente, nosso desejo é de ajudar a cidade, o Estado e o País. Agora mesmo estamos contribuindo muito com o Estado em relação a rediscussão da Lei Kandir, porque o rombo de Minas é muito grande. Se você pegar o déficit que o governo federal tem com a Lei Kandir e fizer o encontro de contas, Minas Gerais deixa de ser um estado em situação deficitária e passa a ter crédito com o governo federal. Cumprimos o nosso papel, não entramos em nada pessoal, mas nenhum projeto que retira direito dos trabalhadores terá o nosso apoio, como a terceirização, a reforma trabalhista, a reforma da previdência em que a pessoa pode trabalhar uma vida inteira e nunca se aposentar. O governo poderia taxar os bancos, fazer auditoria da dívida pública, cobrar as grandes fortunas, cobrar dos sonegadores. Time de futebol não paga INSS, um verdadeiro absurdo. Os maiores sonegadores do governo são as grandes empresas, e o governo penaliza os mais pobres, os trabalhadores rurais.  Esse foi um dos motivos que me levou a sair do partido que fazia parte (o PT), justamente por causa das minhas votações. Eu votei de acordo com a minha consciência, e a gente vê as contradições, os partidos que no governo anterior eram contra a reforma da previdência e a reforma trabalhista, hoje são a favor. E os partidos que eram favoráveis, hoje são contrários. Ou seja, mudou o governo, mudou de lado. Muitos deputados viraram a cara pra mim porque eu votei contra o ajuste fiscal que criou o fator previdenciário, e outros projetos que prejudicavam os trabalhadores. Eu fui o único do partido que votou contrário. E quando o governo era do PSDDB, o PT era contra. Quando entrou a Dilma, eles foram favoráveis e eu fui o único que votou contra. Agora que o governo é do Temer, tá todo mundo contra (do PT). E aqueles que eram contra, como DEM e PSDB, hoje são favoráveis. É uma loucura que às vezes as pessoas não compreendem. Não tem uma coerência. Eu mantenho a mesma atuação e a coerência, não tinha nenhum cargo no governo antes e não tenho agora e a minha votação é da mesma maneira.

 

Sua saída do PT e a posição nas votações comprometeram de alguma maneira sua relação com seus eleitores, que eram do PT, e também suas articulações na região já pensando na reeleição no próximo ano?

Não. Nós fazemos um trabalho em conjunto com o deputado [estadual] Elismar Prado e praticamente não temos apoio de prefeitos. Fazemos um trabalho direto com o povo, então o que a gente faz é levar os recursos para as cidades e divulgar para o povo. Não ficamos reféns desse ‘toma lá, dá cá’ que muitas vezes é a realidade do sistema político no nosso país.

 

Mas vocês dependem de prefeitos para dar aval a uma emenda, com uma contrapartida, por exemplo.

Nós colocamos recursos de forma institucional, não vinculando à troca de apoio político que é o que acontece em mais de 90% dos casos. Em alguns projetos tem a necessidade legal de contrapartida, outros não. Por exemplo, a entrega de ônibus não tem nenhuma contrapartida do município. Nós colocamos ônibus pra mais de 80 municípios da região, e várias outras emendas para diversas áreas, e às vezes a contrapartida do ponto de vista legal é muito pequena, insignificante. Mas a contrapartida que eu falo é no sentido de apoio político. Muitas vezes, o parlamentar garante o recurso para determinada cidade com o compromisso do grupo político daquele prefeito. Eu e o deputado Elismar trabalhamos direto com o povo, a gente coloca o recurso naquela cidade e fazemos a divulgação sem depender do poder público municipal. Na Câmara são raríssimos os deputados que não têm essa vinculação direta com o prefeito.

 

Então boa parte dos parlamentares utiliza as emendas como moeda de troca?

Justamente, hoje é a prática política do nosso país. E nós não temos essa vinculação, nosso trabalho é independente. Na eleição passada acho que não tive nenhum prefeito me apoiando, e nessa próxima, até agora, nenhum prefeito falou ‘eu apoio o deputado Weliton Prado’. A gente tem o apoio do povo e vamos continuar nessa linha de atuação. Fazemos o trabalho voltado aos interesses da população. Vou dar um exemplo, no orçamento de 2016 eu coloquei 100% das minhas emendas para o Hospital do Câncer. Ao todo, foram empenhados mais de R$ 13 milhões, com o contingenciamento. Eu falo isso para outros deputados e eles não acreditam que isso é possível. Mas é justamente por causa dessa liberdade que temos de não ter essa relação com as prefeituras. Nesse orçamento agora, eu coloquei vários veículos (vans) para o transporte de pacientes com câncer.

 

Por falar em emendas, o Elismar tem emenda de 2008 para a educação, quando ainda era deputado federal, que não saiu do papel. Por que tanta dificuldade de fazer com que esses recursos sejam empregados nas respectivas obras?

A burocracia é muito grande e tem também a questão da vontade política. Eu participei recentemente da inauguração de unidade básica de saúde em Conceição das Alagoas, que era de um recurso que eu coloquei em 2013. Às vezes o processo é lento. Mas muitos recursos já foram aplicados na totalidade, como as emendas que destinei para reforma de UBSs em Uberlândia. Mas na educação teve todo aquele problema, já poderia estar pronto. As emendas do Elismar são de 2008, é um absurdo. Tem ainda R$ 5 milhões que coloquei em 2011 para uma escola de tempo integral em Uberlândia que também já poderia estar pronta. A prefeitura não apresentou toda a documentação, foi prorrogando o prazo. Mas as informações que tivemos é que as coisas agora estão caminhando, a prefeitura já vai dar ordem para licitação dessas creches e se comprometeu a dar andamento no processo para construção da escola de tempo integral.

 

Como está a relação com o prefeito Odelmo Leão?

É uma relação respeitosa, a gente sabe que a situação está difícil para os prefeitos de todo o país, e mais difícil ainda para a população, e nosso papel como parlamentar é ajudar a cidade. E é isso que estamos fazendo, colocando recursos para mais academias ao ar livre, para a construção das praças na região do São Jorge, a prefeitura se comprometeu a dar andamento nos projetos. Estamos vendo que está havendo boa vontade por parte da administração em cumprir a sua responsabilidade. E nós cumprimos a nossa, trazendo recursos para a cidade, como emendas para o Hospital Municipal já empenhadas para a compra de equipamentos, e também para UBS. Não sou da base nem a nível municipal, nem estadual, nem federal. Temos autonomia e independência.

 

O senhor vai votar pela saída do presidente Temer?

Vou votar pela saída dele. Independente de quem esteja no poder, nossa atuação política é a mesma. A mesma atuação que tive no governo anterior, eu tenho agora. Antes de ser candidato a deputado federal [pelo PT] eu fui no cartório, registrei o documento e protocolei no partido dizendo que não voto nenhum projeto que retira direito dos trabalhadores, não voto nenhum projeto que prejudica os servidores públicos, sou totalmente contra a reforma da previdência e não voto nenhum projeto que aumenta imposto para as pessoas mais pobres.  Disse que só sairia candidato nessas condições, foi isso que assumi com a população e é essa linha que eu mantenho como deputado federal, independente de ser situação ou oposição. Entrei com ações na Justiça contra a Cemig em relação ao aumento, tenho várias ações contra a Copasa, da mesma maneira que estou contribuindo com o governo em relação a essa questão das usinas da região e também em relação a Lei Kandir, que é a questão mais importante no momento para Minas Gerais. Não é porque entro com ação na Justiça contra o Estado que vou torcer para o ‘quanto pior, melhor’. Eu não faço esse tipo de política, mantenho a coerência na atuação. Não tenho nenhum cargo na administração municipal e nunca vou pedir nada para o prefeito. Só espero que ele cumpra a responsabilidade como administrador, que é fazer com que os recursos sejam bem aplicados.

 

Na sua percepção, o presidente Michel Temer termina o mandato?

Não dá para fazer previsão. Eu fui o primeiro a dizer há mais de um ano atrás que a única forma de pacificar o país seria eleições diretas e uma Constituinte exclusiva, e quem fizesse parte não poderia sair candidato na eleição seguinte para não advogar no interesse próprio. No meu posicionamento político eu coloquei que a Dilma não tinha mais governabilidade, o Temer também não e o Cunha não tinha a menor condição de presidir a Câmara. Eu dei cartão vermelho para os três. Não sei qual vai ser o cenário daqui pra frente, o Congresso virou um grande balcão de negócios em relação às emendas, e isso por parte desse governo e do anterior também, uma coisa escandalosa, absurda. Os fatos são graves e a população cobra por uma investigação. Então, quem vai julgar não somos nós, mas o Supremo Tribunal Federal. Sou a favor que os fatos sejam investigados e o Supremo cumpra seu papel de julgar. O meu voto é pela abertura de processo de investigação em relação ao presidente Temer e defendo eleições diretas como forma de pacificar o país.

 

O senhor votaria no Lula se ele for candidato em 2018?

É muito cedo ainda pra fazer previsões. A gente não sabe quem serão os candidatos. Não tenho dúvida que tem um legado nos governos do presidente Lula na área social, muitos investimentos, o país estava em crescimento, mas por outro lado temos que reconhecer que teve muitos erros nos governos do PT e o maior problema foi o PT se colocar como único portador da ética e da moral. E a gente vê que temos problemas no sistema político como um todo, por isso que defendo uma Constituinte exclusiva para fazer uma grande reforma política no país. Mas é muito cedo para fazer qualquer previsão, a crise política e econômica é muito séria. É triste ver a situação que o país está vivendo, essa intolerância, o ódio, a miséria e pobreza. Então acho que a saída é começar de novo.

 

O senhor é o único deputado homem no Partido da Mulher Brasileira (PMB). Pretende permanecer ou pretende buscar outra legenda para disputar a eleição?

Primeiro é uma honra estar no partido das mulheres, a gente vê o quanto que elas são discriminadas, ganham menos do que os homens para fazer o mesmo trabalho, tem a violência, a dificuldade de conseguir vaga na creche para os filhos, enfim, elas são guerreiras e nós temos que garantir a participação e ter mais mulheres na política. Mas todos sabem muito bem os motivos pelos quais eu filei no PMB, ficou insustentável a minha situação no partido que fazia parte justamente pelo meu posicionamento. Fui contra o fator previdenciário, a presidente anterior estava fazendo um ajuste fiscal que agora, no governo Temer, é uma continuidade piorada. Questionei também os aumentos injustificáveis na tarifa de energia, foram três só no início de 2015, contradizendo tudo aquilo que haviam dito. Foi um verdadeiro estelionato eleitoral. Isso tudo me fez sair do partido que eu estava, e pela legislação tinha um processo na justiça que me garantia ir para um partido novo sem perder o mandato. Agora, temos que esperar para ver o que vai acontecer com essa reforma política.


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