24/04/2017 às 08h40min - Atualizada em 24/04/2017 às 08h40min

Indignação com a política domina classe empreendedora

ESCÂNDALOS ENVOLVENDO BOA PARTE DOS PARTIDOS E POLÍTICOS TORNAM CENÁRIO PARA 2018 NEBULOSO

Walace Torres – editor
Da Redação
Fabio Pergher

A repercussão causada pela divulgação do conteúdo das delações premiadas dos dirigentes e ex-dirigentes da Odebrecht, dentro do processo de investigação da Operação Lava Jato, tem provocado indignação nos diversos setores da sociedade e contribuído para aumentar a insatisfação do cidadão de bem com o meio político. Em Uberlândia, não é diferente. Representantes de diversos setores ouvidos pelo Diário do Comércio apontam a decepção e a preocupação com os rumos do país a pouco mais de um ano e cinco meses para as eleições que vão definir os novos governantes e legisladores nas esferas estadual e federal.

Um dos pontos de consenso é que os escândalos de corrupção praticamente travaram a pauta no Congresso Nacional e criaram um ambiente ingrato, justamente no momento em que o governo federal propõe reformas que vão contribuir para o processo de retomada do desenvolvimento econômico. O ambiente de negócios se tornou nebuloso diante das incertezas, em especial nas relações com investidores estrangeiros.

A percepção é de que já havia um conhecimento de que o caixa dois era algo corriqueiro nas campanhas em todo o país, mas não na proporção e na dimensão com que os fatos foram expostos. “Já se sabia que havia corrupção no país, mas nada perto do que estamos vendo.

Precisamos que as instituições retomem a confiança do setor empresarial com as reformas urgentes e com a limpeza da classe política. Hoje a política no Brasil está podre”, diz o presidente da Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (Aciub), Fábio Pergher.  O empresário aponta que além da corrupção, a burocracia está travando o setor produtivo. “Ainda não temos a confiança necessária para a retomada de investimentos e isto reflete como somos vistos lá fora, e impacta diretamente no fluxo de capital a ser investido no Brasil”, avalia. “Por que um empresário alemão ou americano colocaria seu capital aqui num momento de extrema incerteza?”

E se o ritmo de trabalho no Legislativo for influenciado pelo desempenho da força-tarefa em torno da Lava Jato, a luz no fim do túnel ainda pode demorar para se acender.

Até agora, foram ouvidos os envolvidos no esquema de apenas uma das empreiteiras investigadas, o que deixa a classe política ainda mais em alerta, e a sociedade cada vez mais frustrada diante do que ainda possa vir pela frente.

Só para se ter uma noção do que o tsunami de depoimentos já provocou no cenário político, até o momento já tem 108 políticos investigados em várias instâncias do Judiciário e 16 partidos citados de um total de 35 legendas atualmente em atividade. Já há inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal contra oito ministros, 24 senadores, 39 deputados e três governadores. Em tribunais de instâncias inferiores, ainda serão alvo de investigação outros sete governadores e três ex-presidentes da República. Há ainda outros 23 nomes, entre prefeitos, vereadores, deputados estaduais, marqueteiros, que são alvos de inquérito e que estão na chamada “lista de Fachin”.

“Estamos numa crise perpetuada e criada pela política. Um período conturbado e difícil de fazer previsões para 2018 cujo panorama é turbulento, pois temos partidos demais, coalisões que não foram resolvidas e reformas que deveriam ser mais profundas, mas que não estão acontecendo. Como a maioria dos políticos está envolvida com alguma ilegalidade, eles estão se autoprotegendo, e negociando as reformas em troca de favores que não seriam adequados num outro momento”, avalia o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Uberlândia, Cícero Heraldo Novaes. Segundo acredita, cabe à classe empreendedora se unir e tornar forte o suficiente para manter a economia pulsando e cobrar dos poderes constituídos condições favoráveis para que o país volte a se desenvolver. “Como entidade e como brasileiro não podemos nos calar, temos que fazer o processo de união de forma que tenhamos voz e capacidade de fazer o contrapeso para que a Justiça funcione e pegue quem precisa ser pego”, completa.

 

Repúdio

Instituições respondem com manifestos e conscientização

 

Desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, na década de 1990, e mais recentemente com o escândalo do mensalão, as instituições organizadas da sociedade civil tem manifestado publicamente seu repúdio com a falta de ética na política, bem como a falta de iniciativas que propiciem um cenário de destravamento da burocracia.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) nacional, e as demais subseções país afora, chegaram a soltar manifestos e campanhas pela ética tanto no impeachment de Collor quanto no de Dilma Rousseff, ano passado. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), também publicou cartas de repúdio contra atos que considerou abusivos do Governo do Estado.

Já a CDL Uberlândia encabeçou a campanha “Estamos de luto pelo nosso Brasil”, que se alastrou pelo país em 2015 e criou um clima de indignação contra a classe política. Mesmo diante das revoltas das entidades representativas, os desmandos e escândalos na política continuaram.

“Para o próximo ano o brasileiro terá que ter muita consciência antes de votar. Há o receio de que os parlamentares no Congresso arrumem alguma maneira de permanecer, façam alguma ‘maracutaia’ para se safar. A população tem que estar atenta e não deixar que isso aconteça”, diz o presidente da Fiemg regional, Éverton Magalhães. Ele conta que os industriários serão sensibilizados a conscientizar seus familiares sobre a importância de escolher candidatos honestos. “A classe empresarial e industrial está indignada. Sabíamos que a coisa era podre, mas não sabíamos que era tanto”, observa.

A OAB também tem feito um trabalho de conscientização do eleitor em palestras e debates, reforçando a necessidade de conhecer melhor a pessoa que se lança como candidato. “Estamos indo para uma eleição sem saber em quem votar e a descrença é muito grande. O que está aí não serve mais, a política brasileira precisa ser reestruturada”, diz a presidente da OAB Uberlândia, Ângela Parreira de Oliveira Botelho, ressaltando que a política brasileira retroagiu “uns dez anos ou mais” diante do volume de escândalos que vieram à tona. Apesar do cenário nebuloso, a presidente da OAB aponta que o indivíduo que tem um histórico de lisura, trabalho sério e que seja um empreendedor pode ser acompanhado com mais atenção. “Um cidadão comprometido com sua vida social, com o país, que administrou sua vida pessoal sem nenhum arranhão, é nesse que eu acredito”, diz.

Cícero Heraldo

 

Éverton Magalhães

 

Ângela Parreira


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