O desempenho recorde da agricultura brasileira ocorre em um ambiente internacional significativamente mais complexo do que há uma década. A fragmentação do comércio mundial, a disputa estratégica entre Estados Unidos e China, a reorganização das cadeias globais de suprimentos e o avanço das barreiras regulatórias transformaram o agronegócio em um ativo estratégico. Produzir alimentos deixou de representar apenas uma vantagem econômica para integrar as estratégias de segurança alimentar, estabilidade dos mercados e influência internacional das grandes economias.
Nesse cenário, a China permanece como principal destino das exportações brasileiras de soja, milho, carnes e celulose, enquanto o Brasil consolida sua posição como maior exportador mundial de soja e um dos principais fornecedores globais de milho, carnes e açúcar. Essa liderança amplia oportunidades comerciais, mas também aumenta a exposição às oscilações da economia chinesa, às mudanças de sua política agrícola e às tensões geopolíticas entre as maiores economias do mundo.
Paralelamente, Estados Unidos, Argentina e outros exportadores fortalecem seus setores agropecuários por meio de crédito subsidiado, seguros agrícolas, investimentos em inovação, infraestrutura e acordos comerciais. A União Europeia, por sua vez, amplia exigências relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e redução das emissões de carbono, estabelecendo novos padrões de acesso aos mercados. Nesse contexto, a posição competitiva brasileira passa a depender não apenas de produtividade e custos, mas também da capacidade de atender requisitos regulatórios, ambientais e comerciais cada vez mais rigorosos. Preservar a liderança nacional exigirá diplomacia comercial ativa, diversificação de mercados, ampliação de acordos internacionais e maior previsibilidade institucional.
infraestrutura, logística e custo brasil: Os gargalos que limitam a competitividade
Os avanços obtidos dentro da porteira contrastam com limitações estruturais que ainda reduzem a capacidade concorrencial do agronegócio brasileiro. Embora o produtor tenha incorporado elevados padrões de tecnologia, gestão e eficiência, parcela significativa desses ganhos continua sendo comprometida pelos elevados custos logísticos e pelas deficiências de infraestrutura.
A limitada capacidade de armazenagem obriga muitos produtores a comercializar a produção logo após a colheita, período de maior oferta e menor remuneração. Ao mesmo tempo, a predominância do transporte rodoviário, associada às restrições das malhas ferroviária e hidroviária, eleva os custos de escoamento e reduz a posição do Brasil diante dos principais concorrentes internacionais.
A modernização dos portos, a expansão das ferrovias, hidrovias e corredores logísticos, bem como o aumento da capacidade de armazenagem, constituem investimentos indispensáveis para reduzir o "Custo Brasil". A melhoria da infraestrutura diminui desperdícios, fortalece as cadeias produtivas e amplia a capacidade do país de responder às oscilações da demanda mundial.
Também merece atenção o ambiente financeiro. Juros reais elevados aumentam o custo do crédito rural, enquanto a cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) permanece insuficiente diante da frequência crescente de eventos climáticos extremos. Essa combinação amplia a exposição financeira dos produtores e limita investimentos em inovação e expansão sustentável.
O ambiente institucional e a necessidade de políticas de estado
Os sucessivos recordes do agronegócio brasileiro refletem a competência dos produtores, a capacidade empresarial do setor e a contínua incorporação de ciência e tecnologia ao processo produtivo. Nesse contexto, a Embrapa consolidou-se como um dos maiores patrimônios estratégicos da agricultura nacional, desempenhando papel decisivo na adaptação de cultivares ao ambiente tropical, nos ganhos de produtividade e na construção da vantagem comparativa que distingue o Brasil no cenário internacional.
A Constituição Federal, especialmente em seus artigos 170 e 187, estabelece que a política agrícola deve contemplar planejamento, crédito, seguro rural, pesquisa, assistência técnica e infraestrutura. Esses princípios são reforçados pela Lei nº 8.171/1991, pela Lei nº 8.427/1992, pela Lei nº 14.515/2022 e pela Lei Complementar nº 214/2025, que introduz mudanças relevantes para as cadeias produtivas.
Todavia, a existência desse arcabouço legal não assegura, por si só, competitividade. Sua efetividade depende de políticas permanentes, planejamento de longo prazo, estabilidade regulatória e segurança jurídica. O agronegócio não pode permanecer sujeito às alternâncias de governo ou às oscilações conjunturais da economia; trata-se de uma agenda estratégica de Estado.
Conclusão
A estimativa de uma safra recorde de 360,1 milhões de toneladas reafirma a extraordinária capacidade produtiva do agronegócio brasileiro e consolida o país entre os protagonistas da segurança alimentar mundial. O resultado evidencia a competência técnica dos produtores, a incorporação permanente de inovação e a contribuição decisiva da pesquisa científica.
Entretanto, os desafios da próxima década ultrapassam os limites da produção. Mudanças climáticas, disputas geopolíticas, exigências ambientais, concentração dos mercados compradores, volatilidade cambial e competição crescente entre grandes exportadores tornam infraestrutura, logística, crédito rural, seguro agrícola, diplomacia comercial, previsibilidade institucional e segurança jurídica fatores tão importantes quanto a produtividade.
Nesse cenário, tornam-se evidentes as limitações das atuais políticas públicas para sustentar, de forma permanente, o desempenho do agronegócio. Embora o Plano Safra continue relevante, persistem gargalos estruturais relacionados ao volume de recursos, ao custo do crédito, à cobertura do seguro rural, à armazenagem e à infraestrutura logística. Sem uma estratégia nacional integrada, baseada em políticas de Estado, parte da vantagem competitiva construída nas últimas décadas poderá ser reduzida diante da evolução das políticas agrícolas dos principais concorrentes e da crescente imprevisibilidade climática.
O protagonismo agrícola brasileiro foi construído pelo talento de seus produtores, pela excelência da pesquisa científica e pela capacidade de inovação do setor. Preservá-lo dependerá da capacidade do Estado de oferecer infraestrutura moderna, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e inserção estratégica nos mercados globais.
O Brasil já demonstrou que sabe produzir alimentos para o mundo; agora precisa construir um ambiente institucional capaz de transformar produtividade em competitividade sustentável e liderança duradoura no comércio internacional.
Fundamentos legais e referências: Constituição Federal de 1988, arts. 23, 170, 174, 187 e 225. - Lei nº 8.171/1991 (Lei da Política Agrícola). - Lei nº 8.427, de 27 de maio de 1992 (Política de Garantia de Preços Mínimos). - Lei nº 14.515/2022 (Programa de Autocontrole e modernização da defesa agropecuária). - Lei Complementar nº 214, de 2025 (Regulamentação da Reforma Tributária). - Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) – 10º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26. - Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). - Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). -Banco Central do Brasil. -Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
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