22/07/2026 às 08h00min - Atualizada em 22/07/2026 às 08h00min

Safra de grãos 2025-26: Recorde histórico, mas expõe os limites da estratégia nacional

ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA
O Brasil colhe resultados, mas o futuro exige mais do que produtividade
A estimativa consolidada da safra brasileira de grãos 2025/26, divulgada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), confirma mais um capítulo da extraordinária capacidade produtiva do agronegócio nacional. A projeção de 360,1 milhões de toneladas, novo recorde histórico, representa crescimento de 2,2% em relação ao ciclo anterior, equivalente a 7,8 milhões de toneladas adicionais, reafirmando o Brasil como uma das maiores potências mundiais na produção de alimentos.
 
Mais do que um resultado agrícola, os números revelam a eficiência tecnológica do produtor rural brasileiro, o avanço da mecanização, da agricultura de precisão, do melhoramento genético e do uso intensivo de conhecimento científico desenvolvido por instituições como a Embrapa. Entretanto, a magnitude dessa produção também evidencia um paradoxo: enquanto o setor privado amplia produtividade e competitividade, o ambiente institucional ainda apresenta fragilidades relacionadas à infraestrutura logística, à segurança jurídica, ao financiamento, ao seguro rural e à política comercial internacional.
 
Num contexto em que o comércio agrícola passou a ser fortemente influenciado por fatores geopolíticos, mudanças climáticas, barreiras ambientais e disputas estratégicas entre grandes economias, produzir mais deixou de ser condição suficiente para garantir competitividade duradoura.
 
A dimensão do recorde e o desempenho das principais culturas
O levantamento da Conab projeta uma área cultivada de aproximadamente 83,5 milhões de hectares, crescimento de cerca de 2,2%, mantendo produtividade média próxima de 4.311 kg por hectare.
 
A soja permanece como principal protagonista da agricultura brasileira, alcançando 180,6 milhões de toneladas, expansão de 5,3% frente à safra anterior. O desempenho resulta da ampliação da área plantada, das condições climáticas favoráveis em grande parte do ciclo e da elevada incorporação tecnológica.
 
O milho deverá atingir 141,7 milhões de toneladas, sustentado principalmente pela segunda safra, embora parte das lavouras tenha sofrido impactos localizados provocados pelos veranicos registrados em Goiás, Minas Gerais e Piauí. Já o algodão apresenta excelente desempenho, com produção estimada em 4,06 milhões de toneladas, reflexo dos ganhos de produtividade que compensaram a redução da área cultivada.
 
Por outro lado, culturas como arroz, feijão e trigo registram retração produtiva, seja pela diminuição da área destinada ao cultivo, seja pelas condições climáticas menos favoráveis, demonstrando que o desempenho excepcional do conjunto da safra não elimina vulnerabilidades específicas.
 
Os impactos econômicos da maior safra da história
A dimensão da safra transcende o setor agropecuário e produz efeitos relevantes sobre toda a economia brasileira.
 
O agronegócio responde por aproximadamente 24% do Produto Interno Bruto brasileiro, representa cerca de 50% das exportações nacionais e permanece como o principal responsável pela geração dos sucessivos superávits da balança comercial brasileira.
 
A maior oferta de grãos tende a ampliar as exportações, fortalecer o ingresso de divisas, contribuir para a estabilidade cambial, reduzir pressões inflacionárias sobre alimentos e estimular investimentos em armazenagem, logística, transporte ferroviário, rodoviário e portuário.
 
Ao mesmo tempo, maiores estoques de passagem de milho e soja oferecem maior previsibilidade ao abastecimento interno e fortalecem o posicionamento brasileiro diante da crescente demanda internacional, especialmente da Ásia.
 
Todavia, transformar produção recorde em maior geração de riqueza depende da capacidade nacional de reduzir custos logísticos, ampliar infraestrutura e agregar valor às exportações.
 
Competitividade global, clima e geopolítica redefinem o desafio
O cenário internacional tornou-se significativamente mais complexo.
 
Estados Unidos, Argentina e países da região do Mar Negro continuam disputando mercados estratégicos por meio de políticas agrícolas consistentes, subsídios, acordos comerciais e investimentos em inovação.
 
Além da concorrência tradicional, crescem as exigências relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade ambiental, emissões de carbono e conformidade socioambiental, fatores que vêm sendo utilizados como instrumentos de competição comercial.
 
Paralelamente, a intensificação dos eventos climáticos extremos aumenta a volatilidade das safras mundiais. Mesmo diante do excelente desempenho atual, parte da produção brasileira continua altamente dependente da regularidade das chuvas e da estabilidade climática, situação evidenciada pelos impactos dos veranicos em importantes regiões produtoras.
 
Nesse ambiente, produtividade elevada precisa ser acompanhada por gestão de riscos, seguro rural robusto, ampliação da irrigação, pesquisa agropecuária permanente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades estruturais.
 
Conclusão
A safra recorde de 2025/26 representa uma demonstração inequívoca da competência técnica, da capacidade empreendedora e da resiliência do produtor rural brasileiro. O crescimento da produção confirma que o agronegócio continua sendo um dos principais pilares da estabilidade econômica nacional, da segurança alimentar e da inserção internacional do Brasil.
 
Entretanto, esse desempenho não pode ocultar as limitações das atuais políticas públicas. Persistem gargalos históricos em infraestrutura logística, armazenagem, crédito rural, seguro agrícola, defesa comercial, segurança jurídica e celebração de novos acordos internacionais. Soma-se a isso um ambiente de crescente competição global, marcado pelo fortalecimento das políticas agrícolas dos principais concorrentes, pelo aumento das barreiras regulatórias e pelas incertezas decorrentes das mudanças climáticas.
 
Mais do que celebrar recordes produtivos, o Brasil precisa construir uma estratégia nacional de longo prazo que preserve a competitividade do agronegócio diante das transformações da economia mundial. Sem investimentos estruturantes e políticas consistentes de Estado, a vantagem competitiva conquistada pelo produtor rural poderá ser gradualmente reduzida por fatores externos sobre os quais o país terá cada vez menos capacidade de reação.
 
Produzir recordes demonstra competência; transformá-los em prosperidade sustentável exige estratégia, segurança jurídica e políticas de Estado capazes de proteger o agronegócio das incertezas do clima e da crescente competição global.
 
Fundamentos legais e referências: Constituição Federal de 1988, arts. 23, 170, 174, 187 e 225. - Lei nº 8.171/1991 (Lei da Política Agrícola). - Lei nº 8.427, de 27 de maio de 1992 (Política de Garantia de Preços Mínimos). - Lei nº 14.515/2022 (Programa de Autocontrole e modernização da defesa agropecuária). - Lei Complementar nº 214, de 2025 (Regulamentação da Reforma Tributária). - Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) – 10º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26. - Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). - Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). -Banco Central do Brasil. -Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
 
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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