15/08/2017 às 18h18min - Atualizada em 15/08/2017 às 18h18min

Janela de oportunidade perdida

Corrupção “mata” a possibilidade de crescimento

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA* | COLUNISTA

Segundo o dicionário, a corrupção é o efeito ou ato de corromper alguém ou algo, com a finalidade de obter vantagens em relação aos outros, por meios considerados ilegais ou ilícitos. Etimologicamente, o termo "corrupção" surgiu a partir do latim corruptus, que significa o "ato de quebrar aos pedaços", ou seja, decompor e deteriorar alguma coisa. Trocando em miúdos, a corrupção pública é uma relação de poder estabelecida entre um agente público e um agente privado, com o objetivo de maximizar os ganhos monetários. Ou seja, nessa relação mediada pelo dinheiro, o que importa não é produzir riqueza por si só, mas sim ganhar do Estado, abusivamente, uma parte (ou grande fatia) da riqueza produzida por outras pessoas, o que impede claramente que a produção de bens e serviços no país atinja números à altura do real potencial produtivo do Brasil, um lugar com algumas das maiores riquezas mundiais, sejam elas naturais ou não.

A corrupção corrói a democracia por dentro, como um cupinzeiro em um caule de uma árvore já abalada. Os valores éticos dos indivíduos e da sociedade como um todo, são comprometidos e o crescimento e a competitividade da economia do país ficam completamente prejudicados. Basta observar: onde há os maiores níveis de corrupção, o mercado se mostra extremamente ineficiente.

Um dos principais obstáculos ao desenvolvimento, sem dúvida, é a infraestrutura que se mostra deficiente e desatualizada e que foi construída ao longo dos anos passados. Não há recursos suficientes destinados ao aparelhamento e reestruturação dessa máquina.  Um dos principais obstáculos é a corrupção, a burocracia excessiva e o desperdício de recursos. Não contamos com mecanismos que possam ser usados para medir nossa inoperância e que possam reverter os conhecidos fatores que fomentam o chamado “custo Brasil”, que oneram os preços da nossa produção, tornando o pais, cada vez menos competitivo.

Se observarmos os exemplos internacionais, perceberemos que em locais com um alto grau de corrupção, alguns grupos - sem competência e sem direitos para isso - obtêm privilégios indevidos, o que causa efeitos dolorosos à produtividade desses países. Em contrapartida, fica fácil perceber que quanto maior a transparência na gestão do dinheiro público e o grau de escolaridade da população, menores são os níveis de corrupção.

Mas, se a luta contra essa imoralidade é dura, os resultados se mostram incrivelmente benéficos. De acordo com Pellegrini e Gerlagh, uma redução nesses índices em um país, aumenta o crescimento da economia em 1% ao ano e aumenta os níveis de investimento em 4,9 pontos porcentuais em longo prazo.

Pensando estrategicamente, verificamos que estudos nacionais e internacionais apontam que a corrupção em nosso país é algo endêmica, sistemática e antiga. Mas para entender esse contexto sistema de desvio do dinheiro público, partindo de uma análise rasa para um raciocínio um pouco mais aprofundado: esse não é um problema exclusivo de um partido ou de um governo. A questão, na verdade, é pluripartidária e cultural ocorrendo nos níveis municipais, estaduais e federal, como citou o procurador Deltan Dallagnol em uma recente entrevista.Mas, é na conscientização acerca dos males que a corrupção causa, que há a esperança de um futuro diferente e melhor. Hoje, a percepção de que diversos serviços essenciais vêm sendo negativamente impactados, como educação, saúde e segurança, já é grande, e está entre as principais preocupações do brasileiro. Esse entendimento é uma janela de oportunidade incrível, se quisermos promover mudanças a fim de que nós, bem como as nossas futuras gerações, tenhamos um país mais justo, com menos corrupção, menos impunidade e mais igualdade.

Nunca podemos e nem devemos esquecer de que a corrupção mata. Ela tira a vida de pessoas com muita agressividade e sofrimento, enfraquecendo e definhando cada vez mais uma população faminta em busca de trabalho para satisfazer suas necessidades, doente em filas intermináveis à espera de um atendimento digno, ansiosa por uma vida com o mínimo de garantia de segurança, ou sedenta por uma educação que parece nunca ser proporcionada, uma vez que o dinheiro que financiaria essas melhorias foi e está sendo cada vez mais desviado pelos grupos que dominam o poder.

Esse é o cheiro da morte. O óbito da população e do poder público. A morte de um, estrangula o outro. E quando é preciso fazer uma escolha entre o homem político, que ali está para preservar a sociedade, e o homem econômico, que só se importa com o dinheiro em suas mãos, já sabemos quem permanece. Infelizmente, até agora, o bem não tem vencido no final.

(*) Analista de negócios – Professor universitário

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