A obesidade está entre os principais desafios de saúde pública no Brasil, mas os registros de atendimentos relacionados à doença em Uberlândia vêm apresentando queda nos últimos anos. De acordo com dados do DataSUS, em 2024, foram registrados 254.099,58 atendimentos em decorrência da obesidade no município. Já em 2025, o número caiu para 209.657,57, sendo uma redução de 17,5%.
A diminuição também aparece nos primeiros cinco meses deste ano. Entre janeiro e maio de 2025, foram contabilizados 97.371,62 atendimentos. No mesmo período de 2026, o total foi de 31.136, uma queda de aproximadamente 68%.
Apesar da redução dos registros, o nutrólogo Márcio Alves acredita que o cenário não demonstra, necessariamente, uma queda nos diagnósticos da enfermidade. Segundo o médico, um dos fatores pode ser justamente a dificuldade de muitos pacientes em reconhecer a obesidade como uma doença que precisa de tratamento.
"É muito comum, na obesidade, os pacientes negligenciarem a doença e não procurarem ajuda médica. Acredito que este seja o principal fator para a redução no atendimento, os pacientes não entenderem a obesidade como uma doença e não procurarem ajuda médica para tratar ela e os problemas associados”, explicou.
A queda na quantidade de atendimentos também pode estar ligada à automedicação, com cada vez mais pacientes utilizando canetas emagrecedoras por conta própria sem acompanhamento médico.
Conforme dito pelo nutrólogo, a busca por medicamentos sem acompanhamento profissional pode mascarar o problema e trazer riscos à saúde. Para Márcio Alves, as famosas canetas representam um avanço importante para a saúde pública, mas não devem ser vistas como solução isolada.
"O advento das canetas revolucionou o tratamento para a obesidade. Antes não tínhamos bons remédios para tratar a obesidade e hoje temos essas canetas que são remédios bem potentes e nos ajudam a controlar a obesidade. Lembrando que a obesidade é uma doença crônica, que sempre tende a voltar com o tempo, então, o tratamento deve ser feito por um longo período e, às vezes, os pacientes mais obesos precisam utilizar a medicação por toda a vida", afirmou.
OBESIDADE INFANTIL
Uberlândia ocupa o 18º lugar entre as 20 cidades brasileiras com menores índices de obesidade infantil. O município ocupa a 14ª colocação na Região Sudeste e a terceira posição entre os municípios mineiros. Os dados foram divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Para a nutricionista infantil Aline Pilares, os primeiros anos de vida são determinantes para a construção de hábitos saudáveis. "A gente sabe que a infância é uma fase muito importante, porque é nela que construímos nossos hábitos alimentares. É nesse período que a criança aprende a ter preferência alimentar, desenvolve a sua relação com a comida e a gente sabe que a criança tem ali uma probabilidade maior de obesidade se você adquire ela ainda na infância", explicou.
Segundo ela, a prevenção começa dentro de casa e depende muito mais do exemplo dado pelos pais do que apenas das orientações feitas às crianças.
"A prevenção realmente começa dentro de casa, porque a criança aprende muito mais observando os pais do que ouvindo orientações. Os pais, são os primeiros modelos alimentares do filho, então quando toda família adota hábitos alimentares saudáveis, a criança tende a repetir isso de forma natural. O que eu geralmente falo em consultório é realizar refeições sempre em família, mesmo com a correria de hoje, além disso, manter horários regulares para refeições, sempre oferecer frutas, verduras, legumes, reduzir refrigerantes e outras bebidas açucaradas e claros, estimular brincadeiras ao ar livre e atividade física para que a criança tenha um gasto calórico", afirmou.
A especialista também faz um alerta sobre dietas restritivas para crianças e adolescentes acima do peso. "Dietas muito restritas, principalmente na fase de criança e adolescente, é uma dificuldade maior na questão do crescimento, sem contar que pode faltar aporte de nutrientes e vitaminas. Não é o momento de restringir na questão alimentar, sendo que na verdade o interessante seria ofertar menos industrializados e mais vegetais, frutas, proteína e boa hidratação. Colocar a criança para praticar uma atividade física e não ter uma restrição calórica tão grande", reforçou.
Com a popularização das canetas emagrecedoras, o uso no tratamento também da obesidade infantil tem sido debatido. O nutrólogo Márcio Alves explica em que casos o medicamento pode ser utilizado.
"Esses medicamentos podem ser administrados a partir de 12 anos de idade, desde que o adolescente apresente a obesidade de fato e a incidência de adolescentes obesos tem aumentado muito. Então, com acompanhamento médico, fazendo os exames rotineiros corretos, os adolescentes podem sim utilizar as canetas, mas as crianças ainda não estão aprovadas", afirmou.
MUDANÇA DE HÁBITOS
Apesar dos avanços proporcionados pelas novas medicações, os especialistas reforçam que elas não substituem uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios físicos.
As canetas emagrecedoras são indicadas para pacientes que atendem critérios clínicos específicos e devem ser utilizadas somente com prescrição e acompanhamento médico. O uso indiscriminado, especialmente de origem desconhecida ou sem supervisão profissional, pode trazer riscos importantes à saúde.
Além disso, os profissionais destacam que a obesidade é considerada uma doença crônica, exigindo mudanças permanentes no estilo de vida, acompanhamento multidisciplinar e, em alguns casos, uso prolongado da medicação.
A combinação entre alimentação saudável, atividade física, acompanhamento profissional e uso responsável de novas terapias segue sendo apontada como o caminho mais eficaz para reduzir os impactos da obesidade.
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