Uberlândia registra mais de 240 casos de violência ligados ao consumo de álcool neste ano

Especialistas alertam sobre os riscos da dependência química para a saúde física e mental

Por JUAN MADEIRA | DIÁRIO DE UBERLÂNDIA -
4 Min

Uberlândia registra mais de 240 casos de violência ligados ao consumo de álcool neste ano
No Brasil, cerca de 4 milhões de pessoas enfrentam o alcoolismo | Foto: Agência Brasil

Uberlândia registrou 241 casos de violência relacionados ao consumo de álcool até outubro de 2024. Dentre as ocorrências, 95 foram de violência autoprovocada e 144 de violência interpessoal. Os dados são do DataSUS.

 

O consumo de álcool também reflete no aumento de internações para tratamento de transtornos mentais e comportamentais. De janeiro a agosto de 2024, foram contabilizadas 18 internações em Uberlândia, enquanto no mesmo período de 2023, foram 14. 

 

Ainda de acordo com o levantamento do DataSUS, nos últimos três anos, 76 pessoas foram hospitalizadas no município por problemas relacionados ao álcool. Do total , 39,5% tinham entre 40 e 49 anos, 30% entre 30 e 39 anos, 14,5% entre 50 e 59 anos, 6,8% entre 60 e 69 anos, 5,3% entre 20 e 29 anos, 2,6% entre 70 e 79 anos, e 1,3% tinham mais de 80 anos de idade.  

 

Em entrevista ao Diário, o neurologista Luis Pascuzzi destacou a gravidade que o consumo excessivo de álcool pode acarretar. “É um problema muito grave no Brasil, com cerca de 4 milhões de pessoas enfrentando o alcoolismo. Do ponto de vista da saúde pública, isso é muito sério, especialmente considerando que o Brasil consome cerca de 40% a mais de álcool em comparação com a média mundial”. 

 

O profissional explicou que o álcool pode provocar danos físicos e mentais. “No fígado, pode causar hepatites agudas e cirrose irreversível, que são difíceis de tratar. No cérebro, gera problemas psicológicos, que afetam tanto o indivíduo quanto a família, agravando a violência e a desestruturação familiar. A melhor solução é a prevenção, já que o abuso pode levar à dependência, um problema muito sério”.

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Para o psicólogo Hemerson de Paula, especialista em dependência química, nem todas as pessoas que bebem desenvolvem problemas com o álcool, mas há aqueles que perdem o controle. “O adicto do álcool tem comportamentos autodestrutivos, e o álcool potencializa características da personalidade. Se a pessoa já tem tendência à agressividade, o consumo pode agravar essa característica”.

 

O especialista ressaltou ser preciso, portanto, observar a personalidade de quem consome álcool para entender se há uma relação entre o comportamento violento e o uso da substância. “O primeiro e maior desafio no tratamento de quem sofre com o alcoolismo é conseguir que a pessoa reconheça que tem um problema. Sem esse reconhecimento, a pessoa permanece em negação e não busca ajuda. Quando se quebra essa barreira da negação, é possível iniciar um tratamento adequado, personalizado para cada caso”, contextualizou Hemerson.

 

PESQUISA

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) analisou casos de violência interpessoal e autoprovocada associados ao uso de álcool em Minas Gerais, entre 2018 e 2022. O estudo verificou uma relação entre o consumo de álcool e a prática de violências, com foco em notificações feitas pelo serviço de vigilância em saúde. O objetivo foi entender se o álcool contribui diretamente para esses casos.

 

Entre as ocorrências analisadas, 26% tinham suspeita de uso de álcool. Desses, 62% envolveram força corporal ou espancamento, e 18% ameaças, ocorrendo principalmente em residências e vias públicas. A maioria das vítimas eram mulheres (69%), com idades entre 20 e 34 anos, e 49% eram pessoas pardas. A pesquisa também apontou que 34% das violências eram de repetição.

 

O estudo também observou que os agressores eram, em sua maioria, homens (76%) e com cônjuges (24%). 

 

A professora Marcelle Aparecida de Barros Junqueira, da Universidade Federal de Uberlândia, ressaltou a predominância de mulheres entre as vítimas de violência associada ao álcool. “A maioria das vítimas são mulheres, geralmente agredidas por seus cônjuges, e a violência física é a mais comum. Esses dados mostram que a questão da violência de gênero é mais relevante do que brigas em bares ou vias públicas, como as pessoas costumam imaginar quando pensam no assunto”, finalizou. 

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