30/09/2021 às 13h00min - Atualizada em 30/09/2021 às 13h00min

Bombeiros de Uberlândia revelam desafios na rota das queimadas

Diário traz reportagem especial sobre a perspectiva de quem coloca a vida em risco para atender a intermináveis chamados no período de seca

SÍLVIO AZEVEDO
Equipamentos são preparados para pelo menos sete dias em campo com autonomia | Foto: DIVULGAÇÃO/CORPO DE BOMBEIROS
Altas temperaturas, fumaça, risco de acidentes, desidratação e jornadas exaustivas. Esses são os principais desafios impostos ao trabalho do Corpo de Bombeiros de Uberlândia. Com as queimadas nesta época do ano, os obstáculos são ainda maiores e exigem dos profissionais aspectos que vão muito além do treinamento: coragem e amor pela profissão.
 
Os efeitos dos incêndios a vegetações, desastrosos para o meio ambiente, infelizmente, em grande maioria, são causados pela ação humana. Quem provoca o fogo talvez não pese, além das consequências ambientais, os riscos impostos a quem precisa se arriscar para apagar as chamas.  
 
São 30 kg de equipamentos nas costas e o desafio de encarar um muro de fogo, cheio de perigos e armadilhas. Dentro das viaturas, há também todo tipo de equipamento de combate, como enxada, enxadão, pá, foice, abafador, bomba costal, soprador e ferramentas mistas mais específicas.
 
“Os equipamentos que os militares carregam nos combates variam de acordo com o tipo de vegetação e com o relevo do local. Geralmente os militares carregam 30 kg de equipamentos, excluindo o fardamento que, com o coturno, joelheira, capacete, que pode chegar a 8kg”, explica o sargento Dhiego Costa, do 5º Batalhão de Bombeiro Militar.
 
Em entrevista ao Diário, o bombeiro contou que o combate a incêndios florestais é uma das atividades mais desgastantes que os militares enfrentam no dia a dia de trabalho, muito por causa da exposição a altas temperaturas, desidratação, longas jornadas de trabalho e, também, devido aos animais silvestres e peçonhentos que encontram.
 
“A gente utiliza nossos EPIs, equipamentos individuais para combate de incêndios florestais. Além disso, procuramos estar muito bem hidratados, pois é uma atividade que desidrata muito, e a gente sempre carrega um tipo de alimentos que nos dão uma forte de energia rapidamente. Outro cuidado é de nunca deixar algum militar sozinho, em momento algum”, conta.
 
SEM ESCALA
Além de ser exaustivo e perigoso, o trabalho não possui escala fixa e fica dependente da quantidade de frentes de combate disponíveis, dos recursos humanos e logísticos. Tudo isso é acertado para cada ocorrência no posto de comando.
 
Para se ter uma ideia do volume de trabalho, somente nos sete primeiros meses do ano, o 5º Batalhão atendeu a mais de 900 ocorrências de incêndios a lotes vagos e vegetações. O índice registrou um crescimento de 36% neste ano comparado ao mesmo período do ano passado. Em um dos períodos mais críticos, em julho, o Centro de Operação de Bombeiros (COBOM), de Uberlândia, contabilizou um total de 24 ocorrências em apenas um dia.
 
No início deste mês, a corporação atendeu a um grande incêndio que atingiu uma área de reserva no clube Caça e Pesca em Uberlândia. As chamas destruíram quase 600 hectares de vegetação do cerrado, florestas, área de pastagens e também reflorestamento. O fogo foi controlado após 12 horas de trabalho do Corpo de Bombeiros, com o apoio de fazendeiros da região e colaboradores do clube.
 
“Geralmente em grandes incêndios é montado um posto de comando onde as decisões são centralizadas. Dentro, é escalado um militar escalado pela logística, sendo responsável por adquirir e distribuir alimentação para as equipes em campo. Claro que isso depende da distância do posto de comando das linhas de combate. Vai depender do relevo, como chegar nesses locais. Há alguns que só se chega de helicóptero. Então varia de acordo com essas condições”, explicou o sargento do 5º Batalhão.


 
HIDRATAÇÃO
Para evitar ficar muito tempo sem alimentação ou hidratação, os militares já levam algum tipo de alimento que supra, de alguma maneira, uma refeição, pois os mantimentos podem não chegar devido ao posicionamento das equipes.
 
“Já a hidratação, cada militar é responsável por levar sua água, seu repositor eletrolítico. Lógico que tem locais que não encontramos fontes de água, aí o posto de comando fica responsável pela distribuição”.
 
Mesmo com treinamentos constantes para todas as ações, enfrentar o fogo exige muito cuidado e planejamento. Para isso, o 5º BBM possui um núcleo de incêndios florestais, composto por sete militares, que inicia o trabalho de logística para quando o chamado de ocorrência chegar, tudo esteja pronto.



“Assim que entramos em período de estiagem, eles ficam já em condições de atuação. Se entrou um incêndio florestal de grandes proporções, a gente já está com todo equipamento separado, fardamento, EPIs, alimentação e vamos pra ficar, pelo menos sete dias em campo com autonomia”, contou o militar Dhiego Costa.
 
Entre os incêndios que marcaram a carreira do militar, o da Serra da Canastra, em 2020, teve um sentimento especial pelo tamanho da devastação. O fogo destruiu cerca de 24 mil hectares do Parque Nacional.
 
“Nós atuamos lá por quatro dias e me marcou, pois era um local que eu tinha muita vontade de conhecer e, até então, não tinha tido oportunidade e fui conhecer nessas condições. Foi um incêndio que não é na nossa área de atuação, mas pediram apoio do 5º Batalhão e fui um dos militares escalados. Então chegamos lá com vários locais turísticos devastados pelo fogo, animais mortos ou fugindo do fogo”, lembrou.
 
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