18/04/2021 às 14h07min - Atualizada em 18/04/2021 às 14h07min

Desigualdades educacional e social podem afetar futuro de estudantes da rede pública

Professores e pais falam sobre problemas e falta de estrutura durante o ensino distante

BRUNA MERLIN
Desigualdades podem afetar futuro de alunos da rede pública | Foto: Agência Brasil

Há mais de um ano que a educação foi impactada pela pandemia do novo coronavÍrus. Sem poder frequentar salas de aula, professores e alunos contam com outras alternativas para continuar os estudos. Entretanto, as desigualdades educacional e social, principalmente para os estudantes da rede pública de ensino, têm se tornado algo preocupante e acende o alerta sobre como a falta de auxílio e estrutura pode afetar o futuro de crianças e adolescentes.
 

Cleidivane dos Reis Castro, de 35 anos, mora na zona rural de Uberlândia e está bastante preocupada com a situação dos estudos dos cinco filhos, que têm idades entre 13 e 16 anos, e estudam em escolas municipais da cidade. Os filhos recebem materiais impressos das instituições de 15 em 15 dias, mas ela acredita que não é suficiente para concluir um ano letivo.
 

Devido à falta de internet e acesso a aparelhos eletrônicos, os filhos de Cleidivane enfrentam dificuldades na hora de esclarecer dúvidas sobre determinadas atividades com os professores. “Temos apenas um celular para todos utilizarem e conversarem com os professores para tirar dúvidas, mas nem sempre funciona porque tem respostas que chegam dois ou três dias depois e só vai acumulando dúvidas”, explicou.
 

A dona de casa contou ainda que os irmãos mais velhos tentam ajudar os mais novos em algumas atividades, mas ainda não é suficiente. Conforme dito por ela, muitas das vezes, as questões que geraram dúvidas são deixadas em branco e o material é enviado incompleto para a correção e avaliação dos professores. 
 

“Eu e meu marido não conseguimos ajudar porque não temos estudo e não entendemos nada. Os mais velhos tentam, mas, também, nem sempre sabem sobre algum exercício. Está sendo muito difícil”, complementou. 
 

A aflição é ainda maior com a situação dos filhos que já estão no ensino médio e se preparam para entrar em uma universidade através do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) ou pelo vestibular. “Eles não estão preparados para passar por provas assim. Não temos condições de pagar uma faculdade”, ressaltou Cleidivane.
 

ENSINO PRESENCIAL É ESSENCIAL

A professora da rede municipal de Uberlândia Alice Lima da Silva Monteira defende que as aulas presenciais são essenciais para a formação de uma criança e de um adolescente, tanto educacional quanto pessoal. “É claro que no momento atual é impossível arriscar a vida de diversas pessoas com o retorno do ensino presencial. Mas, ele é muito importante para o desenvolvimento social, cultural e, claro, educacional de um estudante”, destacou.
 

Atuando, diariamente, com diversos alunos, Alice percebeu que, mesmo com diversas estratégias municipais de levar educação à eles, muitos estão sendo prejudicados devido à falta de apoio, incentivo e, principalmente, recursos que possibilitem um aprendizado. “Infelizmente, as ações não atingem a todos. Nem todos conseguem participar das aulas online. Nem todos conseguem se deslocar até as escolas para pegar os materiais impressos. Isso é muito triste”, frisou.
 

De acordo com a educadora, devido às diversas barreiras, muitos alunos abandonaram os estudos de forma informal como, por exemplo, não estão fazendo os exercícios propostos ou não conseguem tempo porque precisaram buscar alternativas para ajudar com as finanças e tarefas da casa. Conforme dito por ela, muitas meninas tiveram que começar a cuidar da residência, limpando, cozinhando e olhando os irmãos.
 

“Os pais precisam trabalhar o dia inteiro para conseguir uma renda que sustente a família, principalmente, durante essa crise econômica. Sendo assim, já que a aluna não está indo para a escola, ela acaba sendo colocada para fazer as tarefas da casa, afastando ela cada vez mais dos estudos”, detalhou.
 

Os meninos também são incentivados a procurarem emprego para ajudar no sustento da família. Segundo Alice, ela já teve vários alunos que mandaram mensagens dizendo que não tinha tempo para participar da aula porque precisavam trabalhar.
 

“É um abandono que irá impactar muito a vida deles. E, infelizmente, neste período não cabe a nós fazer uma cobrança porque eles também estão sofrendo. Mas, nosso papel é estimular, ajudar, apoiar, nem que seja por 10 minutinhos por dia”, disse.
 

SEM INCENTIVO

Sem direcionamentos, estrutura e incentivo, a educação pública foi deixada de lado durante o período da pandemia por parte do Ministério da Educação (MEC). É o que afirma o coordenador do curso de Pedagogia e professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Paulo Celso Costa.
 

“Para mim, estamos vivendo o maior desastre da educação em toda a história do Brasil. Sem qualquer tipo de apoio e orientação do MEC, os municípios, como é o caso de Uberlândia, estão tentando levar aprendizado aos alunos da forma como conseguem”, ressaltou. 
 

Para Paulo Celso, mesmo que ainda não haja confirmações sobre o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica de 2020, o impacto que a pandemia causará aos estudantes de baixa renda será muito grande. O coordenador afirma também que os problemas não serão somente na vida educacional, mas também na vida social e pessoal. 
 

“Para a grande maioria dos estudantes, a escola representa educação, socialização e sobrevivência. Provavelmente, muitos não voltarão a estudar depois que isso passar porque não foram incentivados e não receberam auxílio”, continuou. 
 

Por fim, Paulo Celso demonstrou indignação com a negligência do Governo Federal em traçar estratégias e soluções para a educação no país. “Lá no início existia uma incerteza porque tinha a esperança que as aulas presenciais iriam voltar, mas já se passou mais de um ano e, até agora, nada foi feito”, finalizou. 

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