06/03/2021 às 12h00min - Atualizada em 06/03/2021 às 12h00min

Mesmo com restrição do comércio, adesão ao isolamento social é baixa em Uberlândia

Estudo revela que suspensão das atividades comerciais não contribuiu para o isolamento; epidemiologista aponta relaxamento nas fiscalizações e no uso das medidas de segurança

BRUNA MERLIN
Nova restrição do comércio, que faz parte da fase rígida, começou no início do mês de fevereiro | Foto: Igor Martins

Desde que a Covid-19 foi confirmada em Uberlândia, a cidade passou por alguns decretos de suspensão das atividades comerciais não essenciais. O objetivo era tentar conter a contaminação da doença que se demonstrou alta em alguns períodos. Entretanto, um estudo feito pelo Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) revelou que, mesmo com as medidas restritivas, o nível de distanciamento social da população foi pequeno no município.

Segundo um dos autores da pesquisa, o epidemiologista Stefan Vilges de Oliveira, a taxa de isolamento social durante os decretos que fecharam parte do comércio não teve muita alteração se comparada com a taxa registrada em períodos em que o comércio estava aberto. “As autoridades recomendam que o essencial é que o nível de distanciamento social chegue em 70% para que os números de casos confirmados e mortes abaixem de forma significativa. Mas, isso, não aconteceu em nenhum momento na cidade”, ressaltou.

A primeira medida restritiva que suspendeu grande parte das atividades não essenciais começou no dia 21 de março e durou até o dia 14 de abril de 2020. Neste período, o percentual de isolamento da população ficou em 47,90%.

“Antes da pandemia, a taxa era de 29,15%. Então, podemos dizer que, mesmo que não foi o essencial, o primeiro decreto teve uma adesão. Muitas pessoas aceitaram. Contudo, essa aceitação não durou muito tempo”, detalhou.

Todo o comércio foi reaberto em 15 de abril. Durante o período em que os estabelecimentos estavam funcionando, a taxa de distanciamento social ficou em 39,20%. “Não foi uma queda brusca, o que deixa claro que, mesmo com o comércio fechado, as pessoas não estavam praticando o isolamento”, disse.

Uma nova medida restritiva foi publicada no dia 19 de junho e diversas práticas comerciais ficaram suspensas durante quase um mês. Conforme aponta o levantamento, durante o segundo decreto de fechamento, o nível de distanciamento social foi de 38,25%, menor do que o registrado no primeiro decreto.

De acordo com Stefan Vilges de Oliveira, a baixa adesão da segunda norma pode ser explicada de diversas formas. “Muitos comerciantes começaram a sentir o peso da dificuldade financeira e abriram as lojas de forma irregular para conseguir se manter. Além disso, a população já começou a ficar esgotada pelo tempo de pandemia, provocando um aumento na mobilidade humana”, complementou.

O estudo revelou, ainda, que na segunda volta do comércio, que aconteceu no dia 17 de julho e durou até fevereiro de 2021, a adesão do distanciamento social foi de 35,68%.

Além disso, a pesquisa também analisou a taxa de isolamento populacional durante os períodos festivos de fim de ano, entre 24 de dezembro e 2 de janeiro. Neste caso, o nível de distanciamento foi de 43,32%, ou seja, maior do que o computado no segundo decreto da suspensão comercial.

“Não adianta somente decretar o fechamento do comércio quando não há uma fiscalização rígida e um plano melhor elaborado. O número de casos e mortes pode melhorar, mas não há uma contenção. As pessoas continuaram saindo de casa, aglomerando e se encontrando. Sendo assim, não é só um decreto que irá melhorar a situação. É um conjunto de decisões necessárias”, disse o epidemiologista.
 
FASE RÍGIDA
Desde o início do mês de fevereiro de 2021, a cidade se encontra em um colapso na saúde devido ao aumento significativo no número de casos e mortes confirmadas pela Covid-19 e a alta ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Conforme explicou o epidemiologista, Stefan Vilges de Oliveira, muitos motivos contribuíram para esse cenário.

“Tivemos um relaxamento por parte da população em relação às medidas de segurança. Muitas pessoas fazendo festas, principalmente as de começo de ano, muitas não utilizando máscara em locais públicos e também a falta de fiscalização por parte dos órgãos competentes”, frisou.

O anúncio da chegada da vacina contra a doença também contribuiu para a despreocupação dos cidadãos. Para Stefan de Oliveira, as pessoas ficaram com uma falsa sensação de segurança já que acreditam que não é necessário mais tantas medidas de segurança devido à distribuição do imunizante.

“É necessário entender que a quantidade de pessoas que foram vacinadas até o momento não é suficiente para controlar a doença tanto na cidade quanto no país. O vírus ainda está entre nós e a cada dia que passa atinge mais vítimas”, continuou.

O Município entrou na fase rígida do combate ao coronavírus no dia 20 de fevereiro de 2021. Além do fechamento das atividades comerciais não essenciais, o Comitê Municipal de Combate à Covid-19 deliberou toque de recolher das 20h às 5h e lei seca desde o dia 23 de fevereiro.

Stefan de Oliveira acredita que essas novas medidas podem trazer resultados diferentes ao nível de distanciamento social. “Esperamos que, dessa vez, as pessoas se atentem mais às regras e que a fiscalização seja mais intensa. Com isso, a porcentagem de isolamento será maior e os números de casos e mortes irão cair de forma significativa”, concluiu o epidemiologista.


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