17/02/2021 às 12h00min - Atualizada em 17/02/2021 às 12h00min

Usuários da rede municipal reclamam da demora para realização de testes da Covid-19 em Uberlândia

Conselheira municipal de Saúde alega falta de transparência por parte do Município

BRUNA MERLIN
Parte dos testes foi transferido para a Fundação Ezequiel Dias (Funed-MG) I Foto: AGÊNCIA BRASIL

Desde o início do mês de fevereiro, usuários da rede municipal de saúde em Uberlândia estão enfrentando problemas para conseguir realizar testes que identificam a Covid-19. O Diário de Uberlândia recebeu relatos de pessoas sintomáticas que procuraram as unidades há dias e ainda não conseguiram fazer o exame.

O uberlandense Cícero Marcelino Rodrigues, de 38 anos, disse que começou a sentir os primeiros sintomas no dia 3 de fevereiro. Ele teve febre, dor no corpo e na cabeça, além de muito cansaço. Em razão disso, resolveu procurar a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Planalto no dia seguinte.

“Passei pela triagem e fiquei esperando por um bom tempo para eles me falarem que eu não poderia fazer o teste naquele momento e que eu deveria agendar”, disse.

Cícero então procurou a Unidade Básica de Saúde Familiar (USBF) do bairro Canaã, região onde mora, para agendar o exame que foi marcado para o dia 19 de fevereiro. “Vou ter que esperar 15 dias para saber se tive ou não a doença. Estou de atestado desde então e posso ter causado uma indisposição com o meu chefe, pois o teste pode dar negativo e fiquei esse tempo todo sem poder fazer nada. É uma falta de respeito muito grande com a gente”, destacou.

A situação também se repetiu com a professora Ângela Maria Custódia, de 57 anos. Ela contou que começou a ter sintomas, como diarreia, coriza, dor nas costas na região do pulmão, tosse e falta de olfato e paladar, no dia 10 de janeiro. No caso dela, os profissionais da UAI Martins informaram que ela deveria aguardar uma ligação indicando o dia e horário para que ela possa ir até o local fazer o teste.

“Eu fiquei muito ruim e, mesmo sem o teste, tive que pegar um atestado médico para ser afastada do trabalho. Fui na UAI, eles pegaram meus dados e só disseram que iriam entrar em contato para fazer o exame. Estou esperando até agora e meu atestado acaba na próxima sexta-feira (19)”, explicou.
 
FALTA TRANSPARÊNCIA
 
A conselheira municipal de Saúde, Tânia Lúcia dos Santos, revelou à reportagem que, no início do mês, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) enviou aos profissionais das UAIs e UBSFs um informativo explicando que, a partir daquele momento, a realização de parte dos testes seria de responsabilidade da organização estadual Fundação Ezequiel Dias (Funed-MG). O informe também indicava que a mudança se deu em razão de uma contenção de gastos do Município.

A notificação determinava ainda que os médicos fizessem somente os testes RT-PCR, aos custos do Município, em casos de pacientes com sintomas moderados ou graves que necessitem de internação. Ainda conforme dito por Tânia, os demais casos deveriam ser direcionados para realização de teste rápido ou RT-PCR sob responsabilidade da Funed-MG.

“Foi dito que essa alteração era porque a realização de testes RT-PCR, aquele do cotonete que é feito pelo nariz, estava muito grande, causando um custo elevado aos cofres públicos e que isso poderia causar desfalque em outras áreas prioritárias da saúde”, complementou.

A conselheira criticou a falta de transparência da Prefeitura com a população. Segundo ela, a alteração nos procedimentos dos exames foram feitas sem nenhuma explicação para os usuários que passaram por transtornos.

“É muita falta de responsabilidade e os cidadãos precisam estar a par do que está acontecendo com a saúde, principalmente em meio a essa pandemia. Essa falta de informação gera transtornos e estresse por parte daqueles que precisam da rede municipal”, detalhou.
 
REPRESENTAÇÃO
 
Ainda em conversa com o Diário, Tânia Lúcia dos Santos informou que pretende entrar com uma representação nos Ministérios Públicos Federal e Estadual contra o Município devido a outros transtornos relatados durante a realização de testes na rede municipal. Segundo a conselheira municipal de Saúde, muitos pacientes, que apresentaram vários sintomas do coronavírus, testaram negativo para o vírus.

Ainda de acordo com Tânia, o objetivo é pedir que seja feita uma fiscalização em relação à eficácia dos testes rápidos que estão sendo administrados pela Funed. Esse tipo de exame é feito através da coleta de sangue e indicado após oito dias de sintomas.

A conselheira disse que está recebendo diversas reclamações de pessoas que tinham mais de três sintomas da doença, mas que realizaram o teste rápido na rede municipal e deu negativo.

“Conheço pessoas que um dia depois de receber o resultado negativo, continuou com sintomas e realizou o RT-PCR na rede particular e deu positivo. Sendo assim, algo está errado e precisa ser analisado porque isso pode gerar consequência. As pessoas podem achar que não estão infectadas e sair contaminando mais pessoas”, concluiu.
 
RESPOSTAS
 
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Uberlândia e solicitou uma explicação sobre a demora para a realização dos exames e se a situação estava relacionada com a falta de testes ou outros motivos. Por meio de nota, a SMS informou que todas as unidades de saúde realizam a coleta do exame PCR, considerado padrão para identificar o vírus e confirmar a Covid-19.  “A solicitação do exame é feita de acordo com a avaliação da equipe médica, que leva em consideração o tempo de sintoma e a suspeita clínica. A Secretaria reitera que somente em janeiro foram realizados mais de 20 mil testes PCR”, informou a nota.

O Diário também solicitou um posicionamento ao Município sobre a alegação da falta de transparência com a população em relação às mudanças feitas na realização dos testes PCR e rápido desde o início do mês, mas até a publicação desta matéria não houve resposta.

A reportagem procurou também a Funed, que é responsável pelos testes rápidos e PCR em caso de pacientes com sintomas leves. O Diário questionou sobre qual está sendo o planejamento e logística adotado pela organização para lidar com a demanda de pacientes e qual a razão da demora para o agendamento.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que a recomendação de testes para casos graves (internados) permanece a mesma, desde o início da pandemia, sendo indicada a testagem por RT-PCR.
 
Disse ainda que a ampliação e recuo dos critérios de testagem são reavaliados periodicamente, de acordo com a capacidade operacional da rede e estoque de insumos disponíveis e que essa recomendação passa a valer a partir da data de publicação, em 16 de fevereiro, pelo período de 30 dias úteis.
 
Durante esse período, a SES-MG esclareceu que continuará executando os processos necessários para adequação da rede de laboratórios e normalização do fornecimento de insumos. Posteriormente, será realizada nova avaliação do cenário e avaliados os critérios para recomendação da testagem, que deverão ser atualizados mediante publicação específica.
 
Com relação à testagem dos demais casos, o protocolo atual do estado estabelece critérios prioritários para que seja realizado o RT-PCR. São eles:

- Unidades Sentinelas de síndrome gripal (SG) e síndrome respiratória aguda grave (SRAG);
- Unidades Sentinelas de síndrome gripal (SG) e síndrome respiratória aguda grave (SRAG);
- TODOS os casos de SRAG hospitalizados;
- TODOS os óbitos suspeitos;
- Profissionais de saúde;
- Profissionais de segurança pública;
- Idosos com idade igual ou superior a 60 anos;
- Pacientes com condições clínicas de risco;
- Populações ou grupos sociais de alta vulnerabilidade (indígenas, quilombolas, ciganos, circenses e população em condições de rua);
- Indivíduos privados de liberdade;
- Residentes de Instituições de Longa Permanência;
- Por amostragem representativa (10%) contatos de casos confirmados em surtos acompanhados pelo CIEVS;
- Quando houver suspeita de reinfecção;
- Gestantes, mesmo assintomáticas;
- Pacientes/doadores do MG transplantes.
 
A Secretaria não esclareceu sobre a demora para a realização dos testes, assunto abordado como foco desta reportagem.


*Matéria atualizada em 17/02 às 16h35 para acréscimo de informações. 

 


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